Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

GUERRA E PAZ SOCIAL

(*)

 

 

Recentemente o governo mostrou preocupação com a possibilidade de surgirem protestos violentos nas ruas como reacção às medidas de austeridade. O receio era justificado com o caso da Grécia, onde têm surgido vários confrontos violentos com a polícia. Várias vozes se ergueram a acusar o governo de alarmismo, intolerância e falta de sentido democrático para com as diversas manifestações agendadas. Mas quais são os limites de tolerância da população às medidas de austeridade? E em que circunstâncias poderão surgir, também entre nós, protestos violentos?

 

Desde há muitos anos foi criado na nossa sociedade um ambiente político excessivamente paternalista que conduziu a alguma desresponsabilização individual. E as coisas vão de mal a pior quando a sociedade resvala para um extremismo perigoso, criando uma culpa imaginária: se existem fracassos individuais, a responsabilidade não é do indivíduo, mas exclusivamente colectiva. A sociedade infantilizou as pessoas, criando e distribuindo subsídios atrás de subsídios, pondo em prática a frase de Thomas Hobbes: “Todos têm direito a tudo”. Portanto, vai demorar muito tempo até se alcançar (ajustado à realidade) um novo equilíbrio entre direitos e deveres; entre responsabilidade individual e colectiva. Embora este aspecto gere contestação social não será apenas por este motivo que poderá surgir violência nas ruas.

 

Um dos caminhos mais rápidos para torturar e enlouquecer um ser humano é obrigá-lo a fazer um trabalho inútil e inconsequente. Esta foi uma técnica usada nalguns campos de detenção, forçando, por exemplo, os prisioneiros a carregarem um monte de pedras de um sítio para o outro para de seguida voltarem a colocá-las no mesmo lugar de origem. Dito de outro modo, não é o esforço e o sofrimento que revolta o ser humano, mas antes a percepção da sua inutilidade.

 

Não estou totalmente certo – nem creio que o próprio governo possa garantir – de que os sacrifícios que estão a ser feitos neste momento, por milhões de portugueses, valham mesmo a pena e tenham um resultado duradouro. Se é verdade que esta dúvida pode ser um factor de instabilidade social, também é verdade que há outro aspecto que, nas circunstâncias actuais, pode ser incendiário: a injustiça. Caso a sociedade perceba que os sacrifícios que estão a ser pedidos são selectivos e que há grupos mais sacrificados do que outros, a revolta poderá instalar-se e tornar-se imparável. Esta é a linha ténue que separa a união e a insurreição.

 

O governo, para além da competência técnica e da aplicação de boas políticas, terá de explicar que os sacrifícios que estão a ser pedidos aos portugueses têm um propósito e irão conduzir o país a um futuro melhor. Além disso, os nossos governantes terão de ter um rigoroso sentido de justiça social, pois quando se junta o sofrimento inútil com a injustiça, a paz dá lugar à guerra e os regimes políticos entram em colapso.

 

Pedro Afonso

Médico Psiquiatra

 

(*)http://www.google.pt/imgres?q=secos%2Be%2Bmolhados&um=1&hl=pt-PT&biw=1024&bih=735&tbm=isch&tbnid=mr4hrdKU8WeZ4M:&imgrefurl=http://planeta-tangerina.blogspot.com/2009_12_01_archive.html&docid=pU8bD_TSS28A_M&imgurl=https://1.bp.blogspot.com/_emnn91NfcSM/SyeL0y2xXhI/AAAAAAAABpI/h14km2_7-jM/s640/P1060392.JPG&w=640&h=471&ei=jaP0TrfIAYv78QPLw52cAQ&zoom=1&iact=hc&vpx=113&vpy=204&dur=5296&hovh=193&hovw=262&tx=125&ty=102&sig=108364103958560163334&page=6&tbnh=157&tbnw=212&start=79&ndsp=12&ved=1t:429,r:0,s:79

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D