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A bem da Nação

INVOCAR A SANTA PRODUTIVIDADE EM VÃO - I


Em Portugal, de há uns dois anos a esta parte, por tudo e por nada se apela à produtividade – como se estivesse aí a causa primeira de todos os nossos males (porque é baixa) e a panaceia definitiva para melhores dias (quando aumentar). Mas será que este conceito aceita uma interpretação assim tão clara, tão rigorosa e tão unívoca que basta referi-lo para que o quadro da economia portuguesa fique logo, num só traço, resumido e todos se ponham, enfim, de acordo?
O meu amigo Zé dos Grilos, e a história exemplar da sua vida, podem vir em nosso auxílio. Desde pequenino que Zé dos Grilos revela uma habilidade incrível para fazer gaiolas para grilos (daí a alcunha, que se lhe colou como se fosse o apelido baptismal). Era ver a rapidez e o cuidado com que ele, ainda criança, alisava as tabuinhas de madeira; cortava os pedaços de arame e encaracolava uma das pontas; escolhia os troços de cana que serviriam de pequenas aduelas; pintava e retocava o que seria um palácio para qualquer grilo cantante. Todos gabavam o seu trabalho – mas infelizmente, só de quando em quando alguém, mais por mercê que por conveniência, lhe comprava uma dessas magníficas gaiolas. Adulto, Zé dos Grilos tornou-se artesão para fazer, principalmente, o que mais lhe apetecia: gaiolas para grilos. Fazia-as como ninguém. Tomara aos “chinas” fazê-las tão depressa e assim tão bonitas, dizia, orgulhosa, a vizinhança. Mas ninguém as comprava – e o pobre lá ia vivendo como podia de outro artesanato modesto e baratucho, que sempre encontrava comprador. Do alto das estatísticas (nacionais, regionais, locais), o Zé e as suas gaiolas era como se não existissem. A produtividade dele era nula – por muitas gaiolas que conseguisse fazer numa hora, e por mais que deixasse a perder de vista os seus congéneres chineses. Só o que vendia entrava nas estatísticas.
Um dia (há sempre um dia...), os caprichos da moda poisaram no feng shui – e ter grilos em gaiolas penduradas nos sítios que só os iniciados conheciam passou a ser um must para quem quisesse viver em fumos de harmonia no conforto do lar. Por uma sorte extraordinária, de todas as gaiolas (que nem eram tantas assim), as que melhor atraíam energias positivas eram, segundo asseveravam os entendidos, as do Zé dos Grilos. De um momento para o outro, o nosso Zé viu as suas queridas gaiolas atingirem preços que nem na Sotheby’s. - e o seu labor, num repente, tornou-se visível até nas Contas Nacionais. O pulo na produtividade da economia portuguesa surpreendeu mesmo os analistas mais incréus – quando, afinal, o que tinha acontecido era que uma coisa que não interessava a ninguém passara a ser procurada avidamente por todos. O que era, até então, um passatempo tornou-se mercadoria com enorme procura por esse mundo fora (um bem transaccionável, no dizer dos economistas entendidos).
Sem problemas na venda, nem na cobrança, Zé dos Grilos contratou quem lhe aparasse as tabuinhas, cortasse e enrolasse o arame, percorresse os canaviais – guardando para ele a montagem das gaiolas e os retoques finais. Não se podia dizer que as coisas lhe corressem mal – mas também não corriam por aí além. Apesar de ter arregimentado, primeiro, dois ajudantes, depois mais três e, por fim, outros dez, o certo é que o número de gaiolas para grilos que conseguiam fazer por dia apenas tinha quadruplicado – e os analistas foram céleres em concluir que, neste nóvel subsector, a produtividade tinha rapidamente caído para 25% do ponto que atingira ao princípio, quando só o bom do Zé trabalhava que nem um mouro. Os ajudantes que ele escolhera até nem tinham sido mal escolhidos: gente que não se poupava a esforços, que não temia o trabalho e que não se fazia rogada. O problema talvez estivesse no facto de terem de esperar que Zé dos Grilos, agora patrão, lhes indicasse, a cada momento, o que fazer, lhes aprovasse o trabalho feito, lhes desse as necessárias instruções – e, por força do êxito, ele agora ausentava-se bastante. Acontecia, também, que umas vezes era a grossura dos arames que não encaixava perfeitamente nos furos que as tabuinhas traziam (e lá ficava alguém à espera que a peça fosse corrigida); outras, eram os arames e as caninhas que saíam com comprimentos diferentes (e iam uns minutos mais na discussão sobre quem é que tinha falhado). Mas havia mais. Como tudo continuava a desenrolar-se na velha casa de Zé dos Grilos, uns reduzidos metros quadrados com um cubículo por lavabo, era frequente alguém ter de interromper o que estava a fazer para que outro pudesse ir e vir, ou formarem-se filas à porta da casa de banho, para marcar vez. Um consultor internacional diagnosticaria imediatamente: deficiente lay-out e erros de organização. Fosse como fosse, Zé dos Grilos tinha contado com maior produção, o mercado pedia-lhe cada vez mais gaiolas – e a produtividade, pimba! por aí abaixo. Andava preocupado, e com razão. Os seus empregados, esses, não – porque finalmente tinham emprego “prá vida” (criam eles...).
Ainda hoje se discute se o que terá levado o Dr. Palpites à oficina do Zé dos Grilos foram as exigências da sua mulherzinha, ferrenha do feng-shui, ou a mão da Providência. O certo é que Palpites, num relance, logo viu o que estava errado naquele local de trabalho (“nas premises” foi a expressão que usou, que o Zé não percebeu e que teve de ser traduzida). Aquilo não era uma verdadeira empresa. Faltava-lhe espaço e arrumo, faltavam-lhe casas de banho, faltava-lhe refeitório e escritório, enfim, faltavam-lhe umas máquinas que aparassem, alisassem, cortassem, enrolassem, pintassem. Assim se fez, porque dinheiro havia – o nosso Zé já tinha algum, e o Banco estava disposto a emprestar-lhe o resto. A produção aumentou – e com ela as vendas e as receitas. Um empregado, porque sabia ler, escrever e contar, passou a dedicar-se às tarefas administrativas que o Dr. Palpites recomendara. Um outro, que ficou esquecido no meio da mudança, preferiu mudar-se para o desemprego – pois ganhar sem fazer nada sempre fora o seu projecto de vida. Como resultado do investimento, a produtividade por empregado subiu bastante, ainda que ficasse aquém daquela que o Zé dos Grilos tinha atingido quando ainda trabalhava sozinho.
Mas o Zé, malgrado ser agora dono de uma “empresa como deve ser” (no dizer do Dr. Palpites e de todos), não andava satisfeito. Reparava que uma parte dos ganhos de produtividade por empregado não lhe aproveitava a ele, patrão, mas ao Banco financiador – em ultima análise àqueles que tinham fabricado as máquinas que ele comprara por interposto Banco. Começou a perceber, vagamente, que uma coisa é a produtividade medida em gaiolas produzidas (a produtividade física, real) e outra, por vezes bem diferente, é a capacidade para gerar resultados que um patrão possa utilizar sem receio (produtividade económica). E à própria custa aprendeu que acréscimos de produtividade real que não sejam acompanhados por acréscimos, pelo menos iguais, da produtividade económica, não são necessariamente uma coisa boa para quem tenha nessa empresa o seu ganha-pão.
Pobre dele! ainda não chegara o momento de perceber que estava a viver uma situação, de todo em todo, excepcional: preços de venda constantes. Depois do salto inicial, os preços das suas gaiolas tinham-se mantido lá bem em cima, sem variar. Por isso, habituara-se a olhar só para os custos que era chamado a pagar, e associava produtividade (real, económica, qualquer) à redução dos gastos por gaiola feita. Mas o mercado não dorme – e os chineses também não. Tanto puxaram pelo bestunto que lá descobriram como fazer gaiolas exactamente iguais às do Zé dos Grilos, por metade do preço e sem limitações de quantidade – era só aviar. O bom do Zé bem coçava a cabeça dizendo de ele para ele porque diabo o Palpites não o avisara que os preços também descem? Para não fechar de vez – e a conselho do Dr. Palpites (que, de passagem, o confundiu com uma arenga sobre formação de preços, competitividade e a inevitabilidade da globalização) – o nosso Zé reduziu pessoal, endividou-se para comprar novas máquinas que nivelavam a produtividade real por empregado pela dos seus concorrentes chineses, e baixou os preços. A tesouraria compôs-se, mas a produtividade económica, essa, ficou pelas ruas da amargura. Tal como acontecera tempos atrás, o Zé dos Grilos, agora tornado empresa, não aquecia nem arrefecia nas estatísticas (nacionais, regionais, locais) da produtividade.
A cada vez maior concorrência chinesa e uma reviravolta do mercado – de súbito, mais crente nos benefícios das conjunções astrais que no feng-shui – levaram o Zé dos Grilos a mudar de ramo. Fechou a empresa, despediu o pessoal, vendeu as máquinas a pataco e pagou tudo ao Banco, porque queria dormir sossegado. A casa, que o sucesso das gaiolas lhe tinha permitido comprar, pô-la em turismo de habitação, sob o apelativo nome de “Paço dos Grilos”. Abriu uma clínica de feng shui que investiga a contribuição de grilos e pirilampos para a harmonia universal (e lhe vai mantendo a casa a abarrotar de hóspedes). E continua a entreter-se com gaiolas para grilos, que todos gabam e ninguém compra. Por aí anda.
(continua)

A. PALHINHA MACHADO
FEVEREIRO DE 2005

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