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A bem da Nação

OS VENTOS DA (DES)GRAÇA

 

 

Uma fábula de Esopo

Que vem a propósito

Dos nossos costumes

De eternos acusadores

Dos causadores

Dos nossos queixumes,

Como infractores

Das regras, das leis,

Sem problemas maiores,

Pois que a elas são

Por condição

Superiores:

 

«O mar e o náufrago»

 

«Sobre a costa largado,

Um náufrago fatigado

Depois de tanto se ter esforçado

A nado,

Tinha adormecido

Esmorecido.

Pouco depois voltou a si e, olhando o mar,

Censurou-o por os homens atrair

Com o seu ar amigo,

Quando, seguidamente,

Depois de os ter acolhido,

Contra eles se lançar

E os exterminar

Furiosamente.

Então o mar

Sem se alterar,

Tomou a forma duma mulher

Que nem sequer era sereia,

E respondeu-lhe a sorrir:

“Homem, não me culpes tu a mim

Mas sim

Os ventos peneirentos.

Porque quanto a mim

Eu sou assim,

Como me viste e me vês.

São eles que me atacam

De surpresa,

Pela frente ou por detrás

Seguindo as orientações

Dos pontos cardeais e mais

De toda a rosa-dos-ventos.

E me agitam e enfurecem

Sem qualquer delicadeza

Por mim, mulher de grande beleza.”

Da mesma maneira nós

Não devemos logo responsabilizar

Os executores dum crime

Sabendo que eles não são senão

Simples subordinados

Dos chefes de quem eles são

Apenas paus mandados.»

 

Isto disse
Esopo outrora,

E hoje é tão verdadeiro

Como foi no tempo dele

Porque como clássico que foi,

Primeiro,

Conheceu bem o homem

Useiro e vezeiro

Nos seus malabarismos,

Mas também

Nos seus dinamismos,

Vento revoltoso

Empurrando, atacando,

E redes organizando,

Os não amigos excluindo,

Destruindo,

Afastando, num segundo,

Desse seu mundo bem fundo

E até, por vezes, imundo.

Nós, os governantes acusamos

De serem ventos danosos.

Mas realmente eles não são mais que mar

Que é empurrado sem parar

Pelos ventos furiosos

Que sopram do centro e do norte

E do leste e do oeste

Piores do que a peste.

É preciso sabermos lutar,

Mas colaborar

Com o mar

Para os ventos apaziguarmos

Da rosa-dos-ventos.

Ventos e marés venceremos

Se quisermos.

Cada um de nós esforçando-se,

Confiantes,

Competentes,

Em vez de só criticarmos.

Sem jamais nos responsabilizarmos,

Impecáveis que somos.

Sempre.

 

 Berta Brás

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