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A bem da Nação

HERESIA? O QUE É ISSO?

 

 

Nos dias de hoje herege é coisa que lembra o tempo das fogueiras, torturas e outras barbáries que os homens, sempre, cometeram sobre os mais fracos. Barbaridades essas que, com o tempo, se têm sofisticado, chegando às bombas atómicas ou de hidrogénio, gás de mostarda, minas terrestres, ou “soluções” menos “a la cowboy”, como a provocação do desequilíbrio entre os povos, através das especulações financeiras virtuais, altamente mortais.

 

Mas o significado da palavra, na sua origem grega, significa “apto a escolher”, ou seja, o homem “livre” que não aceita imposições que considere injustas, mas o tempo veio dar-lhe um significado de quase bandido, um pecador.

 

O herege de hoje será o anarquista, não o revolucionário depredador, mas aquele que se insurge contra as leis, e todos sabemos que as leis são feitas por quem tem poder, e para proteger, não a sociedade, mas esses mesmos poderosos.

 

Exemplo mais do que evidente é o desastre por que passa a União Europeia e até os EUA, onde o grande capital, por não querer perder o seu domínio, está a derrubar as duas zonas mais prósperas de todo o mundo, levando-as, num final, à ruína!

 

Na Alta Idade Média, sem se saber ao certo quando, mas talvez por volta do século VI d.C., fugindo de perseguições que lhes moveram os hunos, vindos do norte, e da igreja de Roma que começava a expandir a sua força terrena, esquecendo a do espírito, grande número de primitivos cristãos da Arménia, e de grande parte do médio oriente, fugiu para a Europa, tendo começado por se instalar entre a Hungria, a Boémia e a Bulgária, passando depois muitos deles, logo no começo do século XI para o sudoeste de França e Aragão, abrangendo quase todas as terras ao longo do Mediterrâneo, região conhecida na altura por ser a terra das gentes da “língua d’Oc”, hoje o Languedoc, e que se chamou Occitane. Estavam no Ocidente da Europa central.

 

Trouxeram consigo os inabaláveis princípios do cristianismo primitivo. E como no começo tudo é mais límpido e claro, sem hierarquias, nem direitos canónicos, nem poderes temporais, intitulavam-se “cátaros”, palavra de origem grega que significa “puro”, “sem mancha”.

 

Como é de calcular, a igreja que se veio a chamar católica, ou de Roma, para eles era uma versão mais mundana que espiritual.

 

Apesar disso, o seu modo de vida tinha alguns aspectos quase mil anos mais avançado do que a maioria dos outros europeus; baseados no antigo direito romano, não havia morgadios, os filhos herdavam todos por igual, fossem do sexo masculino ou feminino.

 

As mulheres tinham os mesmos direitos dos homens, podendo negociar, trabalhar fora para terceiros, gerir as suas heranças, podiam ser sacerdotes, a quem unicamente competia ensinar os Evangelhos e as Cartas de São Paulo, etc.

 

Estes cristãos, antes das refeições partiam o pão e distribuíam-no pelos convivas, “em memória de Jesus Cristo”.

 

Roma quis submetê-los à sua hierarquia. Não conseguiu, chamou-os de hereges e, cheia de força, conclamou uma cruzada contra esses cristãos, os cátaros.

 

A primeira cruzada resultou em desastre; o papa não desiste e convoca uma segunda cruzada, já com o apoio do rei de França (França era só a região da Ille de France), apoiado pelos grandes senhores de Borgonha, Bretanha e restantes partes do centro europeu, incluindo germânicos e saxões da Inglaterra; estes novos cruzados estampavam uma cruz em suas túnicas e tinham como “garantia” a absolvição de todos os pecados, a remissão dos castigos, um lugar a salvo no céu e, como recompensa material, o produto de todos os saques.

 

Em resumo, transformou-se aquela imensa multidão num bando de selvagens saqueadores, que mataram todos os que lhes apareceram pela frente, fossem cátaros, judeus ou católicos. Na dúvida, o arcebispo que “comandava espiritualmente” a cruzada, quando indagado pelos soldados a como reconhecer os católicos dos restantes, mandou que se matassem todos, à espada ou na fogueira, que “lá em cima Deus faria a triagem”!

 

Dizimaram populações inteiras de algumas cidades, como Albi, Carcassone, tomado à traição, mas não conseguiu, o papa, acabar totalmente com o caterismo. Esta gente, a pura, recusara a aceitar a igreja temporal de Roma. Preferiram morrer.

 

Lembrou então o papa Gregório IX de usar uma arma poderosíssima, criada em 1184 pelo anterior papa Lucio III, mas também sem efeito na primeira fase dessa desvairada luta. Em 1230 Inocêncio III, face às falhas da primeira inquisição episcopal, emite uma série de bulas papais que a transformou na temível Inquisição papal.

 

Os sobreviventes cátaros, já vencidos pelas armas, mas não conquistados espiritualmente, enfrentavam agora um inimigo mais frio e implacável, e tão forte que o seu poder durou oito séculos.

 

E assim foram passados à fogueira ou à forca os cátaros, homens e mulheres, mais influentes de toda aquela região.

 

Durou mais de um século esta louca perseguição. O “último cátaro” terá sido morto em 1321 sob as ordens do inquiridor Jacques Fournier, mais tarde papa, em Avignon, como Bento XIII.

 

É muito triste saber que alguns dos “representantes de Cristo” eram, afinal, tão bestas como qualquer assaltante de estrada. Ou pior.

 

Houve muitos e muitos outros que são exemplos maravilhosos, como Francisco de Assis, Fernão Martins de Bulhão, o querido Santo António, de quem já falámos, ou Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, que foi arcebispo de Braga, de quem falaremos, o grande Angelo Roncalli, papa João XXIII, e ainda muitos padres amigos - portugueses, angolanos, bascos, holandeses, italianos - maravilhosos cristãos.

 

Há quem comente os islamistas radicais, que se matam com bombas amarradas no corpo, para infligirem o máximo de perdas aos seus “inimigos” de fé. Não fazem mais do que seguir o que estupidamente já se havia feito.

 

Ainda não acabou a inquisição. O grande homem que foi o Padre Teilhard de Chardin, ficou proibido, durante toda a sua vida de publicar qualquer trabalho científico que tivesse feito. Só depois da sua morte, século XX, em 1955, é que os seus estudos foram impressos e começaram a circular, à revelia de Roma, que já não podia castigar o autor.

 

Nestes dias ainda, quem tiver ideias mais avançadas do que Roma, continua herege!

 

Onde está a liberdade do homem? A sua escolha, o ser cátaro ou herege?

 

Até quando, esta mentalidade, quando a palavra dos cristãos e de todo o mundo, não deveria ser outra além de AMOR AO PRÓXIMO?

 

Sempre, e com destaque nestes tempos, em que se comemora o nascimento d’Aquele que não foi outra coisa.

 

Pena não sermos todos “hereges”.

 

 

Rio de Janeiro, 06/dez/11

 

 Francisco Gomes de Amorim

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