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A bem da Nação

MEIO SÉCULO DE HUMILHAÇÃO

 

 

 

Daqui a 15 dias, precisamente no dia 18 de Dezembro de 2011, perfazem-se exactamente 50 anos (meio século!) que eu, então um jovem de 32 anos, casado e já com três filhos, descolei de Goa em condições precárias: de noite, sem luzes, numa pista que não tínhamos a certeza de não estar bombardeada. A velocidade de descolagem foi a mínima para que o avião, o Superconstellation CS-TBA, transportando gratuitamente alguns goeses embarcados à última hora, pudesse erguer-se no ar. Felizmente, a noite estava serena, sem uma nuvem no céu. Temíamos que os pulhas dos indianos nos perseguissem e por isso mantivemos o nível de voo a 500 pés, com as luzes de navegação apagadas. Como navegador, não deixei de fazer dois fixos astro e só subimos mais na FIR (Flight Information Region) de Karachi. E pouco depois aterrámos no aeroporto desta cidade paquistanesa, então a capital, onde oficiais do Paquistão, demonstrando o seu asco pela União Indiana, nos acolheram com atitudes de amizade e de reprovação à dita.


A agressão a Goa, em que Salazar parece nunca ter acreditado, dado o grande prestígio internacional de Nehru, discípulo do Mahatma Gandhi, como pacifista, fez-se de facto, sem qualquer provocação da nossa parte. Mas Nehru, vencido pelo feroz Krishna Mennon, seu Ministro dos Estrangeiros (ou da Defesa), acabou por condescender e tanto condescendeu que perdeu todo o seu prestígio, que se foi pelo bueiro, e em breve se foi por aí também o seu poleiro. Passados tempos, encontrámos em Luanda um piloto indiano da Sabena, o qual em conversa concordou que a União Indiana procedera mal. E diz-se que o próprio Nehru teria reconhecido que quem tinha razão fora Salazar. E tinha.


A União Indiana foi a herança recebida da Grã-Bretanha, que dera "liberdade" às suas "colónias" da Índia. Esta não é uma Nação, mas sim Nações, não é uma Cultura, mas Culturas. Não é uma raça, mas sim raças. Nem sequer é uma Religião, mas Religiões. Como entidade política, a União Indiana é mais aberrante, mais anormal, do que a famigerada União Europeia. Só que os Povos da Índia, habituados a serem subjugados durante séculos, suportam sem se queixar mais um domínio colonialista. Dizem que cronicamente sujeitos a domínios e a mudanças políticas, os indianos são o povo que mais ouro tem... sim, enterrado, para que os ladrões não lhes surripiem a segurança dum futuro desgraçado que possa surgir.


Goa foi portuguesa durante 450 anos. Conquistámo-la aos mogóis muçulmanos, de certo modo libertando-a de dominadores que não eram hindus. Fizemos lá muitos cristãos e muitos amigos, como no resto do sub continente. Mas também inimigos, nos muçulmanos de Calicut, por exemplo, e também, por incúria, em gente que mal tratamos, embora nada de significativo, na verdade, tenhamos roubado ou prejudicado.

 

Nos tempos modernos com dificuldade se via um europeu nas ruas de Goa. Eu pude testemunhar isso. A Índia portuguesa era de facto um estado autónomo português, o Estado da Índia Portuguesa. De modo que a invasão e ocupação desse Estado por tropas da União Indiana foi uma ilegalidade manifesta, uma estupidez incrível da parte dum homem tão prestigioso como Nehru.

 

Imagine-se que as hipotéticas tropas (ainda inexistentes?) da União Europeia invadiam e ocupavam o Liechtenstein, por este teimar em não querer ser anexado. Um absurdo, uma bronca política, uma cobardia, uma javardice, uma vergonha. Tudo isso foi o ataque a Goa, Damão e Diu.

 
Nota, talvez esclarecedora: Krishna Menon, o feroz inimigo de Portugal, era natural de Calicut!
Finalmente, o Samorim conseguiu vencer os "piratas" portugueses!

 

Joaquim Reis

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