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A bem da Nação

A ingratidão é um sentimento muito feio

Curtinhas XCIV

 (*)

Abençoada crise. Não fosse ela e continuaríamos a viver iludidos.

 

v     Antes do mais, é evidente que os mercados financeiros funcionam. Pode-se não gostar dos resultados, mas debaixo de fogo estão países (e Bancos) que se envidaram excessivamente nestes últimos anos – e que, por eles, continuariam a endividar-se indefinidamente até à bancarrota total, abrupta e terrível.

 

v     Cabe perguntar: O que são, afinal, os mercados - essas entidades maléficas que, a fazer fé no que se ouve e lê, surgem do nada para atormentar os comuns mortais, em especial os mais desfavorecidos?

 

v     Não sei, Leitor, se já se deu ao trabalho de comparar as sociedades actuais com aquelas que existiam por toda a Europa em épocas mais recuadas. É que mesmo muito antes da expansão romana, já havia mercados. Aliás, suspeito que os mercados acompanharam as primeiras comunidades. Porém, até ao século XVIII, eram eventos periféricos ligados ao comércio de longa distância e às feiras sazonais.

 

v     A distribuição dos excedentes (e, quantas vezes, do necessário) processava-se, então, através da extorsão, da dádiva e da partilha: o que havia para distribuir era apropriado à força (com violência, se necessário fosse) por um pequeno grupo que decidia como fazer e quem beneficiar.

 

v     A mudança radical acontece na Inglaterra e nas Cidades-Estados Hanseáticas na viragem para o séc. XVIII (mudança a que Adam Smith assistia e sobre a qual escreveu): o fim dos reinos e o alvor das nações marca a prevalência do direito geral e abstracto sobre o direito senhorial discricionário, desigual e casuístico. E, com isso, veio a consagração dos primeiros direitos individuais absolutos, de entre os quais o direito de propriedade.

 

v     Consequência desta (r)evolução é que as trocas mercantis (até então circunscritas ao comércio de longa distância e a feiras muito localizados) começam a ganhar terreno (sem, no entanto, os riscar da História) aos esquemas de extorsão, dádiva e partilha na distribuição de bens, serviços e dinheiro.

 

v     E falar em trocas mercantis é falar em contratos, ainda que sob formas muito, mas mesmo muito, rudimentares. Nestes últimos três séculos as sociedades têm-se organizado progressivamente em torno de contratos: as sociedades modernas são, na sua essência, sociedades de base contratual.

 

v     Ora, quem diz contratos, diz segurança jurídica – e quem diz segurança jurídica, diz Estado de Direito. De alguma maneira, as sociedades modernas são edifícios complexos, em que as regras servem de estrutura, os contratos são os tijolos e a liquidez é o cimento que lhes dá consistência: são Estados de Direito (regras, contratos) com sistemas de pagamentos (liquidez) a funcionar menos mal.

 

v     Poder-se-á dizer, não sem razão, que os mercados (designadamente, os mercados financeiros), esses ambientes onde os contratos de troca mercantil ganham expressão, têm funcionado com regras deficientes. Quando a alternativa parece ser, à primeira vista, tão simples e escorreita: a dádiva e a partilha (cuja versão moderna é o Estado Providência, ou Estado Social).

 

v     Acontece que, salvo raras excepções, a dádiva e a partilha arrastam a extorsão, que as precede inevitavelmente: só se dá e só se partilha o que já se possui - e só se possui extorquindo.

 

v     Sem mercados (isto é, sem contratos de troca mercantil) ficaríamos todos à mercê da extorsão - e dos humores de um grupo restrito que, predestinado, se encarregaria de dar e repartir. Grupo que não tardaria a desenvolver uma ideologia que perpetuasse a sua posição de domínio. Alguém estará interessado num mundo assim - sobretudo se souber que nunca fará parte desse grupo de iluminati?

 

v     Repare, Leitor, que os governantes europeus que mais barafustam contra a “tirania dos mercados” são precisamente aqueles que sempre revelaram grande à vontade para extorquir impostos dos seus concidadãos – e que, agora, só lamentam não poder fazer o mesmo aos investidores estrangeiros.

 

v     E são ingratos, também. É que, se conseguiram alardear grandezas e liberalidades durante todos estes anos, foi porque, exauridos os seus contribuintes, os mercados financeiros lá iam financiando qualquer dos seus devaneios. Assim, e só assim, cresceram as Dívidas Públicas.

 

v     Seria bom que os políticos de cá, aqueles que mais se assanham contra a “tirania dos mercados”, recordassem que, se não fossem os mercados financeiros (dos mercados interbancários aos mercados da dívida) nunca teriam conhecido os “direitos adquiridos” que tanto prezam.

 

Novembro de 2011

 

 A. PALHINHA MACHADO

 

(*)http://www.google.pt/imgres?q=crise&um=1&hl=pt-PT&sa=N&biw=1024&bih=753&tbm=isch&tbnid=LQ-P8mb41aQQoM:&imgrefurl=http://abeiralethes.blogspot.com/2010/05/crise.html&docid=BboOrch5g0ZBKM&imgurl=https://1.bp.blogspot.com/_uDGe-1Ooc2U/S-sUuW6yG0I/AAAAAAAABzo/mCdB_jwJTRc/s1600/crise.jpg&w=430&h=370&ei=pivCTry5A87SsgbDvq3NCw&zoom=1&iact=rc&dur=106&sig=108364103958560163334&page=1&tbnh=175&tbnw=203&start=0&ndsp=13&ved=1t:429,r:0,s:0&tx=58&ty=76

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