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A bem da Nação

Divagando pela utopia – 7ª parte

Resumo da 6ª parte: O liberalismo “made in USA” não interessa a Economias menos desenvolvidas ou de menor dimensão e as políticas da OMC, do FMI e do BM podem não interessar ao resto do mundo; o mercantilismo franquista, de Nehru, de Kubitchek de Oliveira ou de Pieter Botha também não é de aplicação fácil em pequenos países; os pequenos países têm que desenvolver uma estratégia de internacionalização activa pois, caso contrário, perdem a soberania económica e, depois, a política; as Autoridades da Concorrência actuais não defendem a oferta genuinamente nacional, apenas se preocupam com o consumo e acabam frequentemente a desempenhar um papel contrário aos interesses produtivos da sociedade de que provêem.



Plausível – Mas que grande intervalo . . .
Utópico – Sim, como preveni, fui a S. Tomé com a família.
Plausível – Passear?
Utópico – Exacto. Mas como se pode imaginar, nos meus passeios sempre vou olhando para os lados e o que vou vendo deixa-me ir pensando em qualquer coisa mais do que apenas na beleza da paisagem.
Plausível – E em S. Tomé a paisagem é bonita?
Utópico – Sim, digo mesmo que a geográfica é deslumbrante!
Plausível – E há outra paisagem?
Utópico – A humana.
Plausível – Ah!, claro. E essa?
Utópico – Tem os seus quês . . .
Plausível – Como assim?
Utópico – “Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.
Plausível – Não há pão no país do chocolate?
Utópico – “Nem só de pão vive o homem”.
Plausível – Vai continuar nas frases feitas?
Utópico – As suas perguntas é que as ditarão.
Plausível – Vejo que hoje não está muito falador. Quer ser menos lacónico?
Utópico – Tenho medo de dizer o que penso . . .
Plausível – Deve ser a primeira vez que o vejo com medo de falar.
Utópico – Deve ter sido a primeira vez que tive medo do que constatei.
Plausível – O quê? Teve medo do que viu em S. Tomé?
Utópico – Tive medo do que não vi em S. Tomé.
Plausível – Agora é que fiquei completamente baralhado . . .
Utópico – Vi uma sociedade sem rumo, com os políticos a discutirem qual deles roubou mais, com um modelo de desenvolvimento completamente exaurido, à mercê do primeiro caudilho que apareça no horizonte.
Plausível – Está a falar de S. Tomé ou de Portugal?
Utópico – Não comparemos o incomparável. A maior parte das desgraças portuguesas resulta duma mera apreciação jornalística que apenas busca índices de audiência para os telejornais; trata-se de parangonas que frequentemente nada têm a ver com a realidade global do país. Nunca se viveu tão bem em Portugal como actualmente. Claro está que por vias discutíveis mas, de qualquer modo, a realidade é essa: o actual nível médio de conforto dos portugueses é claramente mais elevado do que os homólogos alguma vez verificados na nossa História de quase nove séculos; mas em contrapartida, a actual ansiedade dos portugueses – que também nunca deve ter sido tão generalizada ao longo da nossa História – resulta sobretudo da especulação jornalística e do relativamente baixo nível médio intelectual dos telespectadores. O português médio anda perdido e ansioso mas tem casa, almoço e emprego ou subsídio de desemprego. Uma sociedade que andou tanto tempo subjugada pela iliteracia e que, de repente, se depara com as câmaras de televisão que lhe querem captar todas as queixas que lhe vão na alma, rejubila de gáudio por aparecer nos ecrãs a dizer coisas . . . mesmo que diga disparates. Só que hoje existe uma máquina que pretende viver à custa dessas queixas com o argumento de que isso é que é fazer democracia. Disparate! É apenas especulação jornalística e um refrão bimbo ou pimba das cantigas de escárnio e maldizer de antigamente.
Plausível – Mas o que é que isso tem a ver com S. Tomé?
Utópico – Exactamente: não tem nada a ver com S. Tomé. Você é que confundiu a minha expressão inicial e perguntou se eu me estava a referir a S. Tomé ou a Portugal. As duas situações não são equiparáveis. Em S. Tomé não há guerra de audiências pois só há um canal de televisão e, portanto, não há especulação jornalística. Como eu já disse numa das crónicas que fiz no regresso, «deixou de haver o “trabalho forçado” de que tanto falam os historiadores mas eu sou mais lacónico e digo apenas que deixou de haver trabalho.» E naquelas paragens não há subsídios de desemprego, não há qualquer arremedo de Estado-Providência, as populações estão no completo desamparo e disponíveis para se entregarem a modos de sobrevivência que podem ser menos ortodoxos . . .
Plausível – Como por exemplo?
Utópico – Culturas agrícolas que substituam o caduco cacau.
Plausível – E . . . ?
Utópico – É urgente a instalação de um novo modelo de desenvolvimento que, na minha opinião, passa por uma muito forte componente turística. Se assim não fôr – e urgentemente – corremos o risco de vermos um país potencialmente encantador a ir parar ao rol dos tabus.
Plausível – E acha que Portugal pode fazer alguma coisa?
Utópico – Já há empresas portuguesas muito conhecidas a actuar e a encher dois aviões por semana com turistas. Espero que este ritmo continue mas creio que Portugal não é um mercado emissor de turismo suficientemente grande para poder corresponder às necessidades de S. Tomé como mercado receptor. Desejo e espero que os operadores turísticos portugueses já em campo e outros que se lhes juntem, consigam angariar clientes noutros países pois, nós portugueses, também gostamos de outros destinos e não vamos fazer uma procissão repetitiva para um único país. Nem toda a gente gosta de praia e coqueiros; há os da neve, os da cultura europeia, os orientalistas, os do Sahará, etc.
Plausível – Muito bem, já chega de modelos de desenvolvimento para S. Tomé. E qual é o modelo português?
Utópico – Isso gostava eu de saber . . .
Plausível – Mas será que temos algum?
Utópico – Acho que esse é um tópico essencial numa conversa como esta que vimos tendo.
Plausível – Como é que o vamos abordar?
Utópico – Como Você quiser mas também lhe digo desde já que não vai ser fácil.
Plausível – Qual é a dificuldade?
Utópico – Começa logo por não fazer qualquer sentido prático tentarmos construir um modelo econométrico. Já basta dessas brincalhotices que não levam a lado nenhum.
Plausível – Mas o modelo de desenvolvimento pode não ser econométrico?
Utópico – Sim, pode não ter nada a ver com a econometria. Podemos conceber um modelo que não obedeça a regras exactas e muito precisas. Lá por não corresponder a uma fórmula matemática não quer dizer que não tenha lógica.
Plausível – Quer dar algum exemplo?
Utópico – Exactamente aquele de que estávamos a falar, o do turismo. Durante décadas desenvolveu-se um tipo de turismo nacional com base no termalismo e nas pousadas, turismo relativamente barato, com a “prata da casa”. Depois, fomos um país receptor de turistas estrangeiros com relevante expressão regional na Madeira e no Algarve. A partir de certa altura deixámos de ser só um mercado receptor para passarmos também a ser emissor. E é essa a actual situação. Mas a partir do momento em que os portugueses começaram a gastar dinheiro no estrangeiro, era lógico que os hoteleiros portugueses fossem a trás desse dinheiro para que ele não fosse parar por completo a mãos estrangeiras. E assim começaram os portugueses a construir hotéis por esse mundo além, nomeadamente no nordeste brasileiro. A nova fase por que o turismo português está a passar tem a ver com a globalização de modo a que os operadores portugueses vendem “pacotes” não apenas em Portugal para os turistas portugueses irem aqui ou ali onde esses operadores têm interesses comerciais mas sim que vendam também esses mesmos ou outros “pacotes” em Berlim, Nova Iorque, Roma, etc. E isto tem alguma coisa a ver com matemática? É claro que não. Mas não deixa de ser um modelo lógico de desenvolvimento. Portanto, não temos obrigatoriamente que reduzir tudo a uma fórmula matemática. Mais: os diferentes sectores podem ter modelos diferentes e aquilo que é verdade para um pode não ter nada a ver com outro. Que terá aquele modelo de desenvolvimento do turismo a ver com o modelo da agricultura?
Plausível – Mas pode haver interdependências . . .
Utópico – É evidente que há sempre interdependências e até é benéfico que haja, sobretudo num plano de desenvolvimento. Claro está que quando se entra numa recessão, então essas interferências são negativas mas não podemos imaginar modelos imutáveis. Parafraseando alguém, os sectores estão ligados “até que a morte os separe”.
Plausível – A propósito de morte: qual será o modelo de desenvolvimento da agricultura portuguesa?
Utópico – Antes de inventarmos esse modelo, lembro-lhe que há um discurso muito divulgado actualmente que diz que a PAC (Política Agrícola Comum) está imaginada para os países do Norte da Europa e que Portugal é uma vítima dessa política. Se fossemos a acreditar nessa tese, tudo se poderia resolver com o nosso abandono da PAC. Mas eu pergunto se Espanha é um país do norte europeu e se tem uma agricultura pobre . . .
Plausível – Então qual é o problema?
Utópico – Comercial.
Plausível – Como assim?
Utópico – Terei o maior gosto em lhe dar a minha opinião sobre esse assunto mas sugiro que façamos agora um intervalo.
Plausível – Mas vai ser um intervalo mais curto que o anterior, não vai?
Utópico – Sim, sim. Só o tempo para tomar um café.

Lisboa, Março de 2005

Henrique Salles da Fonseca

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