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A bem da Nação

Curtinhas CIXi

 

É GOSTO DE COMPLICAR! I

 

 

v     Pode crer, Leitor. A matemática que está na origem de muitos instrumentos financeiros, designadamente dos chamados “derivados”, é fascinante, recheada como está de símbolos cabalísticos. “Inebriante” seria, talvez, o termo apropriado – e já revelo porquê.

 

v     Na sua origem, é bem simples:

-            Parte de uma evidência (o futuro é sempre um leque mais ou menos vasto de possibilidades);

-            Reconhece que a cada futuro possível (ou cenário) corresponderá um resultado (nuns casos, favorável; noutros, desfavorável);

-            Imagina que o investidor, colocado perante a incerteza do futuro, quer tomar, ou uma decisão que o leve ao cenário para ele mais favorável (apetência pelo risco), ou uma decisão que o afaste de cenários reconhecidamente desfavoráveis (aversão ao risco).

 

v     O modo mais racional de desbravar este ambiente de incerteza consiste em atribuir a cada cenário uma probabilidade (um número entre 0 e 1, mas tal que a soma de todas as probabilidades atribuídas seja sempre igual a 1). Recorre-se, para tal, à experiência pessoal, à analogia com situações passadas - ou, na falta de melhor, ao palpite.

 

v     Deste modo, quantifica-se a incerteza para torná-la manejável. Como o fazer, porém, fica ao critério de cada um. E que se pode dizer sobre esses critérios? Que uns serão mais plausíveis do que outros, mas não que este esteja certo e aquele errado. Saber o que o futuro reserva, não é para comuns mortais.

 

v     Acontece que a tal matemática inebriante assenta em certas e determinadas maneiras de atribuir probabilidades aos cenários de incerteza a partir de fórmulas acessíveis ao cálculo e com propriedades muito convenientes. Infelizmente, fórmulas destas não andam por aí aos pontapés - e as que há são, em geral, complicadas. Mas daí não virá mal ao mundo.

 

v     Tudo muda, porém, quando se pressupõe que esta ou aquela fórmula particular, mais do que ser plausível (e já sustentar a sua plausibilidade é um bico-de-obra), retrata com fidelidade a incerteza inscrita no futuro. Ora, no preciso instante em que uma fórmula se converte em dogma, a matemática deixa de ser uma maneira de gerar consistentemente probabilidades para ser vista como o verdadeiro modo como o futuro gera a incerteza. E perde-se o tino.

 

v     Foi o que aconteceu (e acontece) nos mercados financeiros, que passaram a girar em torno de “certezas” (as tais fórmulas para atribuir probabilidades aos cenários possíveis) sobre a “incerteza” (o que irá ocorrer no futuro).

 

v     “Certezas” que os académicos defendiam com unhas e dentes, e o restante pessoal adoptava sem pestanejar – reverente e grato porque se embalava no doce engano de decisões que todos consideravam certas à partida. Logo, óptimas por definição. Um alívio, está bem de ver - pois ninguém ignora que sustentar plausibilidades e fundamentar decisões dá uma trabalheira dos diabos.

 

v     Mas não se confunda a matemática inebriante com os “derivados”. Estes são instrumentos financeiros, são contratos. Aquela serve, apenas, para atribuir, com um módico de coerência e razoabilidade, preços (os chamados “preços teóricos”) aos direitos que esses contratos consubstanciam – o que já não é pouco.

 

v     Haverá, assim, para um mesmo leque de cenários futuros, tantos “preços teóricos” quantas as fórmulas utilizadas – o que é dizer, quantas as maneiras de lhes atribuir probabilidades. Felizmente, porque é esta diversidade de “visões” sobre o futuro que cria mercado: uns a comprar, outros a vender.

 

v     Só que – a preferência dos académicos por determinadas fórmulas (uma meia dúzia, se tanto), a convicção de que essas fórmulas representavam fielmente a incerteza relativamente ao futuro, e o prestígio do pensamento universitário (e “nobelizado”) cedo contagiaram os que operavam nos mercados financeiros.

 

v     Não tardou muito para que a maioria “visse o futuro” da mesma maneira e, consequentemente, tomasse como referência nas suas decisões “preços teóricos” muito parecidos. Neste ambiente, o mercado dos “derivados” mais parecia uma pequena embarcação onde os passageiros se empilham, ora num dos bordos, ora no outro, em correria. Tanto balança, tanto balança, que só por sorte não se afunda.

 

v     É certo que os “derivados”, enquanto contratos, são invariavelmente textos densos, por vezes redigidos com frases arrevesadas e que raramente primam pela clareza. Mas, com paciência, consegue-se sempre descodificá-los.

 

v     E descodificá-los significa duas coisas:

(1) caracterizar com rigor os direitos das partes (e, uma vez por outra, tropeça-se em surpresas que os advogados muito apreciam);

(2) quantificar os movimentos de liquidez a que o exercício desses direitos dará lugar (é aqui que entra a tal matemática inebriante que vai calcular “preços teóricos”).

 

v     Mas não foram os “derivados” e a sua matemática superlativa que estiveram na origem da crise financeira que se instalou em 2007 - e que está para durar. Nem são eles tão opacos ao ponto de não deixarem ver os movimentos de liquidez que implicam. Liquidez é, aqui também, a palavra-chave.

 

v     O que terá sido, então? (cont.)

 

Outubro de 2011

 

 A. PALHINHA MACHADO

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