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A bem da Nação

UM LUGAR, UMA LENDA

 

 


Imagem fonte: Revista Check in (Ano 2- Numero 22)

 

  

Terra rica e de ambição Minas Gerais foi nos tempos coloniais local de eleição para gente de toda a espécie que buscava fama e fortuna.
Vindos do reino e de outras regiões da Colónia, portugueses e brasileiros chegavam em levas. Aventureiros, padres, militares, fazendeiros, faiscadores, tropeiros, mulheres de vida fácil, fugitivos, todos se embrenhavam pelo interior, atravessando serras e rios, enfrentando desafios à cata de ouro, pedras preciosas, madeira, terras para desbravar e ocupar com a real anuência.
 

Conta a lenda, das muitas que a história de Minas guarda, que quando os bandeirantes incursionaram pelo interior centro-leste mineiro avistaram formações rochosas que, em certo sitio, desenhavam no horizonte o perfil da cara de um gigante. Chamaram-nas  Serra do Caraça. Ali, a 1300 metros de altitude, no contraforte da serra, numa área isolada, cortada por rios e cascatas, cercada de Picos e matas, em 1700, se levantou um pequeno arraial, em busca de ouro.  Era dono da sesmaria o padre Felipe Siqueira e Távora. Os mineradores, Domingos Borges e os irmãos Francisco e António Bueno. Ao que parece não acharam o que queriam pois, setenta anos mais tarde, as terras, então abandonadas, estavam nas mãos de um homem conhecido naquela região como Frei Lourenço.

 

Em 1730, não muito longe dali, no Arraial do Tijuco (hoje Diamantina) os diamantes brotavam dos rios. A Coroa lançava gulosamente suas regras para a instalação das Catas (5 mil reis por escravo), até que resolveu ela mesma ter um contratador para extracção das pedras. Mesmo com a guarda, e o controle do Intendente, pedras e ouro eram desviados na contabilidade de autoridades corruptas, no fundo falso das canastras, no bucho dos garimpeiros, no pau oco das imagens, na carapinha dos negros, debaixo das saias das quengas... 

 

O Tijuco prosperava e se enchia de gente. Em 1754 o contratador marianense João Fernandes de Oliveira, amigo de Pombal, do tempo de estudante em Coimbra, acumulava bens e prestígio. Sua amante, Chica da Silva, filha de escrava com branco, alforriada por ele, rica e voluntariosa, se impunha na sociedade branca local. O brilho dos diamantes que carregava no pescoço e influência política do seu companheiro nivelavam-na socialmente.  Na Igreja de Santo António o padre pedia respeito e sal, que naquela terra, longe do litoral, não havia para baptizar as crianças, nem para tratar o bócio das gentes.

 

No reino, D. João V depois de esbanjar fausto e riqueza deixou para seu filho, D. José I, um rombo no orçamento. Chamado para administrar as combalidas finanças da Coroa, Sebastião José de Carvalho e Melo tornou-se o seu mais importante e temido ministro. Para desconforto e desprezo da nobreza, com medidas duras, tentou fortalecer o poder real e expulsou os jesuítas do território português.  

 

Em 1755 um grande terramoto, seguido de um maremoto, arrasa Lisboa. Pombal toma a frente e faz reerguer a capital portuguesa, mais bonita e moderna. O dinheiro vem dos altos impostos e dos diamantes que ainda chegam do Brasil, mas já sem a fartura do início de século.

 

Em 1758, uma tentativa de assassinato contra o rei leva ao patíbulo nobres e extermina a família Távora. Um deles escapa, e tem a efígie queimada.

 

Diz ainda a lenda que um jovem, Carlos Mendonça Távora, teria chegado ao Arraial do Tijuco e em 1763 entrado na ordem Terceira de São Francisco como irmão leigo, assumindo o nome de frei Lourenço. Passados 7 anos, em 1770, saiu do Tijuco (Diamantina) e na região da Serra do Caraça, após 4 anos, ergueu “em distância de três léguas da matriz de Catas Altas uma capela da invocação de Nossa Senhora Mãe dos Homens”, diz o requerimento encaminhado ao príncipe regente, muitos anos depois. Doações e ajudas transformaram a capela numa igreja com douramentos, uma Santa Ceia pintada pelo Mestre Ataíde, um órgão e uma relíquia de São Pio, vinda da Itália em 1972.   Dos lados da igreja, à direita e à esquerda,  construiu alas de dois pavimentos para abrigar irmãos missionários, peregrinos e escravos.  O misterioso frei Lourenço tinha um sonho: transformar o local num centro religioso e de estudo. Como não conseguiu atenção das autoridades para o seu intento, após varias petições, com receio de perder sua obra, doou em testamento o seu património para a Coroa, para que esta fizesse ali um lugar de santidade e um educandário para rapazes.

 

No seu testamento não revelou seu nome civil, mas diz coisas que fazem pensar. Ser natural de Nagozelo (Concelho de São João da Pesqueira) onde os Távora tinham um morgadio; em dicionários antigos portugueses Caraça era a sacada aonde condenados iam para a fogueira. Lourenço foi um mártir romano que morreu queimado. Coincidências, talvez...

 

Pós a morte do frei, ocorrida em 27 de Outubro de 1819, D. João VI entregou as terras e o eremitério aos lazaristas (Congregação da Missão). Com a chegada em 1820 dos Irmãos Leandro Rebelo Peixoto e Castro e António Ferreira Viçoso de Lisboa o sonho do frei Lourenço se tornou uma realidade. No local da antiga igrejinha levantou-se um bonito Santuário em estilo gótico, as alas foram ampliadas e receberam biblioteca, laboratórios, salas de aula e alojamento para padres e para estudantes.

 

Num país carente de escolas e de educandários de qualidade, o Colégio do Caraça, tornou-se referência nacional de educação para rapazes. Como tal funcionou de 1821 a 1968, quando um incêndio provocado por um fogareiro deixado aceso destruiu quase todas as instalações e mais da metade do acervo da biblioteca. Foi uma inestimável perda para a cultura e educação da sociedade brasileira. O Colégio acabou em cinzas, nunca mais se levantou.       

 

No Caraça estudaram bispos, prelados, professores, políticos, advogados, muitos homens que marcaram a vida política e cultural do país. Os presidentes da República Afonso Pena e Artur Bernardes, foram dois deles.  No tempo do Império, a fama do Colégio já era tanta que recebeu as visitas e presentes dos imperadores do Brasil, D. Pedro I e D. Pedro II, cada um a seu tempo. Conhecido pela disciplina rigorosa, onde a palmatória era usada, pelo emprego de métodos de ensino de qualidade e eficientes, tinha no seu quadro de mestres  professores nacionais e estrangeiros.

 

Para coibir a indisciplina dos filhos, os pais daquele tempo diziam: “Olha que te mando para o Caraça”!

 

O Parque do Caraça, antigo património do frei Lourenço, hoje é Reserva Particular do Património Natural. Das ruínas e com o que se salvou do sinistro, construiu-se um Museu, uma nova biblioteca, e fez-se uma pousada para receber hóspedes em busca de sossego. O Santuário Nossa Senhora Mãe dos Homens e o seu entrono restaram intactos. Os irmãos lazaristas da Congregação da Missão ainda continuam lá, à frente da propriedade.

 

Chegar ao Caraça é voltar no tempo, longe da TV, do tumulto das cidades, da violência. É ouvir histórias antigas onde realidade e lenda se misturam de uma forma que não se sabe quando termina uma e começa a outra. É ter a oportunidade de  consultar livros esquecidos, ou repousar simplesmente. Comer alimentos saborosos e saudáveis da horta dos padres, cuidada por um velho descendente de escravos, é um lauto prazer.

Vencer a serra, caminhar nas trilhas das matas, descobrir plantas e animais, riachos e cachoeiras, admirar a beleza e a tranquilidade da natureza é se reencontrar consigo mesmo. À noitinha, na adro da Igreja, depois da missa e do jantar, esperar o ameaçado lobo-guará se aproximar e vê-lo comer das mãos dos frades, como fazia frei Lourenço. O Homem ali está mais perto de Deus.

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

Fontes:

Wikipédia

WWW. santuariodocaraça.fot.br

Monografia de André Coutinho Barbosa (Geoprocessamento) da UFMG

Check In revista de turismo (Ano 2 n.o 22)

Chica que manda (Agripa de Vasconcelos)

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