Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

A GERAÇÃO DA CRISE

 



Pela primeira vez, há mais de 50 anos, Portugal terá uma geração a viver pior que a anterior." Esta é uma frase que, com algumas variantes, ouvimos frequentemente. Pode até ser o chavão da crise, que se assume como estrutural.


É bom notar que nos últimos 50 anos nunca se disse que as gerações viviam melhor que as anteriores. O que se ouvia eram queixas, lamentos, protestos. Agora, que supostamente se perdeu aquilo que é tão precioso, finalmente notamos a sua existência.


Mas como é que se sabe isto? Qual o fundamento para uma afirmação tão clara e dramática? Uma geração abarca muito tempo e, formulada assim, esta conclusão tem consequências vastas e abrangentes. Será mesmo verdade que o que sabemos nos permite conclusões sobre a dinâmica geracional?


De facto, a frase não resiste a inspecção detalhada. Começa logo por se basear no conceito vago e indefinido de "geração". Depois nem sequer clarifica se a comparação é com a actual, a anterior ou a seguinte. De facto não pode ser uma constatação. Os insuspeitos dados europeus (séries AMECO, preços de 2000) dizem-nos que Portugal em 2010 produziu mais 6,7% que em 2000 e o rendimento nacional subiu 5%, estagnando em valores por pessoa. A actual geração não perdeu face à anterior.


Assim tem de ser uma previsão: vamos viver pior que antes. Isso, aliás, encaixa num outro oráculo hoje recorrente: "Esta crise vai demorar mais de dez anos a corrigir." Ainda uma previsão arbitrária, certamente inspirada pelo mesmo pessimismo endémico que nos impediu de reconhecer os ganhos dos últimos 50 anos. Determinar quando a crise estará resolvida é algo que ninguém hoje pode seriamente fazer. As rupturas de 1977 e 1983 foram solucionadas em dois ou três anos; mas as de 1560, 1605, 1837, 1847 e 1892 demoraram várias gerações. Esta deverá ficar no meio dessas.


O que tem mais graça em toda esta discussão é que aqueles que são tão rigorosos a afirmar uma data remota e contingente costumam ser incapazes de responder com clareza a duas questões muito mais simples e directas: quando começou esta crise? Quando começa a recuperação?


Uma crise nunca começa quando se sente, mas quando surge o desequilíbrio que a provoca. Como uma bebedeira, é na euforia da festa que nasce o problema. A questão central desta é a habitual: o endividamento externo. Estamos há muito a viver acima das nossas posses e os credores perderam a paciência. Ora isso começou numa data precisa: 1996. A balança externa (saldo corrente e de capital) andou praticamente equilibrada nos dez anos anteriores e então começou a derrapagem que ainda não está resolvida. A dívida externa, que era de 8% do PIB nessa data, anda hoje acima dos 110%. Foi nestes 15 anos que Portugal se transformou num país viciado em crédito externo. Quase uma geração.


O segundo momento decisivo é quando acaba a festa e começa a ressaca, surgindo os sacrifícios que curam o desequilíbrio. E esse instante tem também uma resposta evidente: ainda não começou. O défice externo continua igual e a dívida continua a subir. O que o Governo celebrou na semana passada (semana de 10-15 de Janeiro de 2011) foi o sucesso de um leilão de mais dívida.


O que temos são promessas de austeridade e luta de interesses para evitar a dureza. Quando saírem os dados fiáveis destes últimos meses, o mais provável é que mostrem mais despesa, com a corrida a aumentos, promoções e outros expedientes. A única coisa que este ano já trouxe foi subida de impostos, que tivemos repetidamente nestes 15 anos, sem que isso significasse qualquer correcção real.


A origem da crise é patente: largas franjas da sociedade portuguesa retiram dela muito mais do que contribuem. Não quer dizer que produzam pouco, mas que ganham mais que isso. Muitos só atrapalham e desperdiçam. O mecanismo central desse processo é indiscutivelmente o Orçamento do Estado, que inchou até metade do PIB.


A crise fica resolvida em meses ou sacrifica várias gerações. A resposta depende da data em que esta geração abandonar a pantomima dos últimos anos que, finalmente, já não convence ninguém.

 

 JOÃO CÉSAR DAS NEVES

 

In DN 2011-01-17



1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D