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A bem da Nação

Divagando pela utopia – 9ª parte


Resumo da 8ª parte: A Segurança Social tem que incorporar cada vez maiores parcelas de capitalização das reformas em substituição progressiva da simultaneidade e dos montantes determinados politicamente; o peso das reformas antecipadas pode ser atenuado pelo incentivo ao prolongamento da carreira contributiva dos pensionistas prematuros; a Agricultura portuguesa é vítima dos circuitos comerciais porque os mercados não têm qualquer transparência.



Plausível – Durante este nosso intervalo morreu o papa. Quer comentar?
Utópico – Neste caso, a morte é uma circunstância natural que em si mesma não merece um comentário especial. O que me parece digno de comentário é a fase anterior à morte de João Paulo II, ou seja, a vida com que ele beneficiou a Humanidade. E não hesito em fazer este evidente juízo de valor sobre a vida de Carol Wojtyla – João Paulo II: na minha opinião, ele beneficiou muito a Humanidade.
Plausível – Está a falar na perspectiva religiosa?
Utópico – Não, estou a falar do Homem. A minha cultura religiosa não é suficiente para dissertar sobre matérias de Fé. Aliás, considero que a Fé não se discute: ou se tem ou não se tem. E dentre os que têm, há perspectivas muito diferentes e que não podem ser comparadas: a Fé cristã é diferente da muçulmana que por sua vez é diferente da budista e assim sucessivamente. Com alguma abstracção, limito-me a dizer que é feliz aquele que tem Fé!
Plausível – Qualquer Fé?
Utópico – Qualquer Fé.
Plausível – Mesmo as falsas?
Utópico – Não há uma Fé falsa. Esse seria um conceito sem sentido. Se existe, é verdadeira porque alguém acredita nela. A Fé é absoluta.
Plausível – Mas não acha que . . .
Utópico – Não acho nem deixo de achar porque acho que não tenho o direito de achar. Não discuto matérias de Fé. Trata-se de matéria da mais reservada intimidade que cada um tem o direito de interiorizar em regime de total exclusividade.
Plausível – Estou a vê-lo muito equidistante relativamente às várias religiões . . .
Utópico – Nestas nossas conversas temos abordado – e é assim que pretendo manter o tom das nossas conversas – assuntos de índole pública. Não creio que haja qualquer interesse em enveredarmos por temas que possam ter alguma coisa a ver com a intimidade de cada um. Temos falado de temas económicos, não temos falado sequer de pessoas. Já uma vez o disse e não me preocupo de repetir: não discuto pessoas e nem sequer as menciono. Portanto, não vou discutir temas que possam afectar a intimidade de alguém como, por exemplo, se S. Jaime era ou não irmão de Jesus, se a Sucessão Apostólica de deveria fazer pela via do primeiro Bispo de Jerusalém ou por S. Pedro, conforme a Fé romana transmitida por S. Paulo. Essas são matérias de Fé que a Historia mais não pode esclarecer.
Plausível – Por quê esse exemplo?
Utópico – Porque foi uma matéria sobre a qual João Paulo II falou “ex cathedra” há alguns tempos. O dogma ultrapassa muito estas nossas conversas. Para mim, o que é relevante é que cada um possa seguir a sua própria Fé, sem interferir com a do próximo. E é aqui que entra a minha enorme admiração por João Paulo II que desenvolveu um pontificado de grande relacionamento com as outras perspectivas da Fé.
Plausível – Ecuménico?
Utópico – Moderadamente ecuménico porque não há nenhum Sacerdote – e estamos a falar do Sumo Sacerdote de uma religião específica – que possa abdicar do proselitismo a que institucionalmente está vinculado e que segue por uma questão de Fé. O proselitismo é inerente à condição sacerdotal e, portanto, a confusão nasce com a aplicação do conceito ecuménico. Ecuménico significa universal e, portanto, nesta perspectiva, o diálogo poder-nos-ia conduzir a uma única religião universal, resultante de acordos parciais que sucessivamente fossem sendo alcançados. Só que há barreiras intransponíveis, as tais que consubstanciam cada uma das várias perspectivas da Fé. Portanto, quando ouvimos dizer que um líder religioso encetou uma acção ecuménica, deixemo-nos de hesitações e reconheçamos que não está a fazer nada senão proselitismo a favor da sua própria Fé, tentando convencer a outra parte a adaptar à sua a respectiva Fé.
Plausível – E acredita que isso seja possível?
Utópico – Limito-me a constatar que dentro da própria família cristã os meros ritos são pretexto para a separação. E repare que nem sequer se trata de matérias de Fé mas tão só de rituais da Celebração.
Plausível – Então, onde está o fundamento da sua admiração por João Paulo II?
Utópico – No discurso da paz.
Plausível – Mas isso também faz o Dalai Lama.
Utópico – Sim, por exemplo o Dalai Lama.
Plausível – Então o que distingue o papa do Dalai Lama?
Utópico – A Fé que cada um representa.
Plausível – E acha que poderá haver alguma aproximação entre as duas religiões?
Utópico – No plano teológico, duvido muito. Na prática de uma política de paz, creio que há já uma ampla sintonia.
Plausível – E será que o próximo papa vai enveredar por maior abertura ao ecumenismo?
Utópico – Mais do que João Paulo II? Parece-me improvável. Repare: os Sumo Sacerdotes representam a respectiva Fé; não são donos dela. Não podem fazer e acontecer contra tudo e contra todos. Lidam com assuntos da mais profunda intimidade dos respectivos fiéis. As evoluções têm que ser muito cautelosas e têm que ter tempo para uma profunda consolidação. Portanto, respondendo à sua pergunta, não acredito que o próximo papa possa ser mais ecuménico do que João Paulo II.
Plausível – Será um papa português?
Utópico – Creio que o Colégio Cardinalício tem um universo eleitoral de 120 votos. Havendo 2 portugueses, as probabilidades são de 1,7%. Se apostarmos numa candidatura lusófona, então as probabilidades aumentam muito se, para além dos Cardeais da CPLP, nos lembrarmos que o Cardeal de Bombaim se chama Dias e tem as suas origens em Goa. Mas isso são temporalidades induzidas pelo nosso nacionalismo e estamos a referir uma questão da chefia de uma religião Católica, ou seja, da terra inteira e, portanto, essas fragmentações tendem a esbater-se.
Plausível – Mas a eleição de Carol Wojtyla teve consequências políticas tão importantes que é difícil acreditar que não tenha havido uma intenção material por trás dessa mesma eleição . . .
Utópico – Não sou membro do Colégio Cardinalício nem tenho o dom do confessionário para poder ter essa certeza. Limito-me a constatar os factos a que Você parece referir-se – a queda do Império Soviético. Sim, acredito que João Paulo II tenha de facto tido uma influência decisiva no derrube do Muro de Berlim e, antes disso, no corte do arame farpado na fronteira austro-húngara. Se não tivesse sido o Ministro do Interior húngaro a cortar aquele arame, o que teria acontecido? Teria Honneker caído? Tudo são agora especulações sem qualquer sentido pois que se trata disso mesmo: especulações. Mas recordo-lhe que a Igreja tinha que fazer alguma coisa para além de manter a mordaça que os comunistas lhe tinham há décadas imposto. A Igreja cumpre desde sempre a chamada Tradição Paulina que não é compatível com o silêncio.
Plausível – E isso vem a ser o quê?
Utópico – A Tradição Paulina consiste na política de que a Igreja não interfere nas questões temporais se o Estado laico a deixar exercer o seu múnus, o apostólico, a acção pastoral. Se o Estado tolhe a actividade da Igreja, então esta sente-se no direito de reagir. A Igreja sentiu que estava ultrapassada a época de ter que manter mais exemplos de refúgio político como o do Cardeal Mindszenty que se manteve anos e anos sob custódia americana na respectiva Embaixada em Budapeste. Os comunistas não deixavam a Igreja trabalhar, só havia uma solução: a Igreja tinha que derrubar os comunistas.
Plausível – E foi isso que sucedeu.
Utópico – Sim, foi isso que sucedeu. Só nos falta saber com quantas peripécias pelo meio . . . Mas isso é trabalho dos historiadores e até mesmo dos romancistas.
Plausível – Portanto, concorda comigo quando digo que João Paulo II teve uma importância muito grande no derrube do Império Comunista.
Utópico – É claro que concordo e a curiosidade é enorme quando hoje se sabe que a tentativa de assassinato do papa pela mão de Ali Agka em 1982, resultava duma deliberação do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética, sob a égide de Breznev. Este, claramente não percebera que os tempos já não eram os de 1968 quando proferiu aquele célebre discurso no V Congresso do Partido Unificado dos Trabalhadores Polacos que ficou conhecido pela “Doutrina Breznev”.
Plausível – Que dizia que . . .
Utópico – . . . a União Soviética se sentia no direito de intervir sempre que constatasse que estavam em causa os seus próprios interesses vitais ou a mera solidariedade socialista internacional.
Plausível – Então, uns sentiam-se no direito de intervir por conta da solidariedade e outros por causa da Tradição Paulina. Tinha que haver um choque.
Utópico – E houve. Um tiro na barriga não é o mais apropriado para um papa. E todos somos testemunhas em como foi a partir dessa altura que a saúde do papa se degradou cada vez mais.
Plausível – Mas a União Soviética morreu mesmo.
Utópico – Sim, era claramente um regime “contra natura”.
Plausível – Acha que João Paulo II ficará na História como o papa que matou a União Soviética?
Utópico – Se não foi ele que a matou, deu uma ajuda preciosa nesse sentido mas eu acho que quem matou mesmo a União Soviética foi o próprio Gorbachov. Repare: o modelo de desenvolvimento soviético estava completamente exaurido e sem capacidade de regeneração perante a chamada “Guerra das Estrelas” de Ronald Reagan.
Plausível – Que, segundo parece, era um tremendo “bluff”.
Utópico – Desconheço. Mas se hoje se diz que era um “bluff”, na época não havia razões para crer que o fosse e, portanto, “bluff” ou não “bluff”, funcionou em pleno como elemento dissuasor do inimigo. Portanto, foi uma arma formidável que derrotou de facto a União Soviética. Se, afinal, não passava de um tigre de papel, então tanto melhor para todos que, afinal, não passámos pelos perigos que temíamos. Mas olhe que me custa a crer que aquilo fosse só “bluff”. Acha que o KGB se deixava ludibriar a esse nível? Duvido. Poderia não haver ainda o armamento para equipar os satélites de defesa contra os mísseis soviéticos intercontinentais mas olhe que se não existiam, deviam estar mesmo a caminho da existência . . .
Plausível – E agora? Será que vai avançar a Guerra das Estrelas?
Utópico – Contra quem?
Plausível – Não sei; contra os actuais inimigos dos Estados Unidos . . .
Utópico – Os tempos são outros. A tecnologia da Idade da Pedra a que se chama a Intifada está a mobilizar um Exército muito bem equipado e não é por causa da sofisticação dos armamentos que as pedras deixam de voar. As questões são políticas, as soluções têm que ser políticas e não se podem resolver à matraca. A matraca serve para intimidar; não serve para resolver os problemas. Olhe como o papa não precisou de mobilizar a Guarda Suiça para atacar a Cortina de Ferro . . .
Plausível – Em sentido figurado.
Utópico – Claro que em sentido figurado. O que interessa é dedicarmo-nos ao software e deixarmos de nos preocupar tanto com o hardware.
Plausível – E assim regressamos aos assuntos económicos.
Utópico – Mas não agora pois vamos fazer um intervalo.
Plausível – Mas fica combinado que depois do intervalo voltamos mesmo aos temas económicos.
Utópico – Fica combinado. Mas também não podíamos prever que no intervalo anterior morresse o papa. E olhe que não deixámos de tratar de assuntos bem interessantes.
Plausível – E bem importantes.
Utópico – Claro.
Plausível – Portanto, até logo.

Lisboa, Abril de 2005

Henrique Salles da Fonseca

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