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A bem da Nação

O DESCOBRIMENTO DE S. TOMÉ

 Aqui «encalharam» em 1470 os descobridores da ilha e cheguei eu, Henrique Salles da Fonseca, em boa hora para ajudar o pequenito a transportar o cacho de bananas para o almoço dele e respectiva família

 

Quando João de Santarém e Pedro Escobar descobriram em 1470 a Ilha de S. Tomé, cumpriram apenas a incumbência confiada por D. Afonso V a Fernão Gomes, a cujo serviço ambos os navegadores se achavam. O descobrimento efectuou-se precisamente no dia 21 de Dezembro e portanto foi consagrado ao Apostolo S. Tomé. Logo em 1 de Janeiro, menos, pois, de duas semanas, descobriram os dois nautas portugueses a Ilha de Ano Bom e a 17 de Santo Antão ou Santo António Abade, denominada mais tarde do Príncipe.

 

Fernão Gomes era, no prazo estipulado de cinco anos, o arrematante, por contrato com Afonso V, dos descobrimentos da costa africana, a partir do Cabo de Palmas, celebrado em Novembro de 1469. As clausulas impunham-lhe, no decurso de cada ano, o descobrimento de 100 léguas de costa, considerando como início a Serra Leoa onde Soeiro da Costa e Pedro Sintra deram por findas as suas viagens.

 

Só em 1493 a Capitania de S. Tomé, doada a Álvaro Caminha, conheceu os primeiros moradores permanentes. Estabeleceram-se estes apenas um pouco mais tarde no local (idos, então, de Agua-Ambo), onde a capital da ilha hoje se alicerça. Naturalmente que o objectivo requerendo uma fixação de gente branca, simultaneamente exigia uma população de cor, apta a resistir aos rigores do clima, se aceitarmos que S. Tomé era essencial elo na escala dos previstos desdobramentos para o Sul, assim constituindo uma base de abastecimento, de movimentado e alto teor económico. Foram deste modo introduzidos na ilha agrupamentos negros, escolhidos nas zonas do continente africano próximo. O resultado imediato foi o cruzamento de mulheres negras com naturais metropolitanos recém vindos. Deste castiçamento se obteve uma classe abastada. Sobressaiu um predomínio vinculado de tal mestiçagem, ainda actualmente aceite pelas populações radicadas na Ilha.

 

Observou-se ali, quanto a povoamento, o que anteriormente se lobrigara no Arquipélago de Cabo Verde. Como exemplo a Ilha da Boa Vista, no mesmo arquipélago, muito antes de ter sido colonizada pelo elemento negro, fora ocupada por metropolitanos e entre estes iríamos achar até um ou outro estrangeiro. Cristóvão Colombo, com amarga surpresa sua, conforme o diz no seu diário, foi descobrir naquela ilha um hospício destinado a tratamento de gafos, em 1498, instalado atenta a extraordinária abundância de tartarugas no local e a crença generalizada de que o óleo dos quelónios era soberano contra a lepra.

 

Tão intenso e feliz foi o povoamento de S. Tomé que em 1504 os cónegos de Santo Eloi erigiriam uma freguesia, designada por Nossa Senhora da Graça. Ponderemos, entretanto, a fim de atribuirmos o indispensável valor a série de actividades em curso na Ilha de S. Tomé, que, pouco antes, isto é em 1500, a Ilha do Príncipe presenciara a fixação dos primeiros residentes, sob o entusiástico patrocínio de António Carneiro, homem na metrópole apontado como detentor de riquezas em dinheiro e outros bens de excepcional relevo. Apenas esboçada a ocupação, os povoadores do Príncipe, recrutados quase todos na Ilha da Madeira, devotaram-se ao cultivo da cana sacarina. Breve os terrenos arroteados se encheram de engenhos e edificações.

 

Em 1517, S. Tomé, orgulhava-se, tal como o Príncipe, da sua produção de açúcar. O gado concentrava-se nos pastos acessíveis e abundantes. Já, então, na ilha, se contavam muitos moradores de cor negra, que, em virtude da sua actividade, tinham amealhado verdadeiras fortunas. Destacava-se entre todos eles um preto muito idoso de nome João Menino. Anos volvidos, D. João III, que não perdia de vista o Brasil, em 19 de Maio de 1524 outorgava foral aos habitantes são-tomenses. Desfrutaram estes, por via disso, de isenções especiais. Compensação oportuna se afigurou, se sopesarmos o largo e fecundo esforço despendido e o tenaz e diligente espírito de abnegação patente em todas as suas emergências e actos. Pela bula Aequum reputamus, de 3 de Novembro de1534, Paulo III criava a Diocese de S. Tomé. O primeiro bispo foi D. Diogo Ortiz de Vilhena. Incorporavam o novo cantão eclesiástico as Ilhas do Príncipe, Fernando Pó, Ano Bom e Santa Helena e, ainda, agregados, o Cabo Palmas, os mais distantes das Agulhas e Boa Esperança, além, claro, da própria ilha.

 

FRANCESES E HOLANDESES ACOMETEM A ILHA DE S. TOMÉ

 

Tempo após, menos de um ano, por Carta régia datada de 22 de Abril de 1535, o bloco de S. Tome era elevado a cidade. Instigou o legislador uma causa sagrada e convincente. Um decreto promulgado em 1539 determinava que os mulatos honrados e casados na Ilha de S. Tomé pudessem servir nos ofícios do Conselho. No seu Islario General, Afonso de Santa Cruz, que escrevia, supõe-se, em 1545 ou 1550, narra-nos que a urbe era então lugar onde proliferava numero não inferior a 4000 almas. Sabemos o motivo: fundamentava-se S. Tomé, para o aumento demográfico, que abrangia também os mulatos honrados do Conselho, na produção da cana sacarina. Vinham somente depois o marfim e, quanto a escravos, o comércio destes. Os rendimentos colhidos eram então muito elevados. Noite e dia formigavam artífices num vasto estaleiro e as feitorias não se contavam por menos de 12 a 15.

 

Em virtude de tão assinalada prosperidade, cuja fama ganhava já a Europa, os corsários franceses em 1567 acometeram a ilha e procederam a um desembarque. Repelidos com firmeza, deixaram nos areais muitos mortos e feridos. Uma esquadra holandesa repetiu, entretanto, a façanha em 1600. Comandava-a o almirante Estêvão Van Der Hagen, duramente castigado antes num ataque às gentes das Ilhas de Maio e do Príncipe. Saqueou o marujo a capital, mas a armada retirou precipitadamente, ameaçados os batavos como se observaram pelos residentes, os quais, a rebate dos sinos e clamores, acorreram das plantações vizinhas. O assalto determinou, contudo, um preconizado abandono de muitas famílias, aliás sem imediatas consequências, que preferiram para campo da sua actividade o Brasil. Assustava-as a perspectiva dum desencadeamento de cruéis assédios, devastadores e pertinazes, atingindo o animoso e porfiado labor geral. Julgadas as circunstancias, Lisboa procurou obstar a uma prejudicial transferência de valores e pessoas. Todavia, a administração dos Filipes não se decidia por uma adopção de medidas, cuja urgência visivelmente se impunha. Só em 16 de Janeiro de 1606 se promulgou um alvará atinente à situação. A cupidez dos franceses e flamengos -frequentemente estes dispunham de frotas de 20 e 30 unidades – foi devidamente apreciada. Mercê, porém, do ascendente de alguns portugueses, estacionados na costa e conhecedores do problema que aos moradores de S. Tomé se levantava, doaram-se a estes moradores, então, privilégios em tudo idênticos àqueles de que há muito os habitantes de Évora beneficiavam.

 

A pequena ilha do Atlântico, sem dúvida, era um diamante admiravelmente facetado. Os haveres arrecadados lá, deslumbravam. Até nas sinistras antecâmaras do Escorial a sua luz, muito antes de tais acontecimentos, prefulgiu...

 

Pedro Botelho de Andrade, dos governadores nomeados por Lisboa, foi dos que mais se consagrou ao estudo da fixação de capitais e colonos, por aquilatar o estado especial desperto pelo embarque para o Brasil, então cada vez maior, de diversas famílias influentes. O dinheiro da Metrópole e os braços de novos obreiros, viu o Governador, tornaram-se realmente imprescindíveis.

 

A situação agravou-se de súbito em 1637, patente que os neerlandeses, atacando S. Jorge da Mina, se tinham apossado, umas após outras à das feitorias de Calabar, Fernando Pó, Gabão, Rio de El-Rei, Cabo de Lopo Gonçalves e Rio Real.

 

S. Tomé foi tomada em 3 de Outubro de 1641. No ano seguinte, contudo, o Governador Lourenço Pires de Távora, pelejador ousado, contando no seu activo muitos anos de permanência na ilha, empenhou-se por recuperar a fortaleza, onde flutuava a bandeira dos holandeses. Tombaram no campo português, irmanados, brancos e pretos, sem resultado. Porém, em Janeiro de 1644, as inexpugnáveis muralhas, cercadas pelas forças então desembarcadas de Lisboa, capitularam. O bravo governador foi pouco depois confirmado no lugar e dali em diante gozou de todos os direitos no tocante a cultivar o gengibre dourado, regalia a quase nenhuns concedida. Salientou-se Lourenço Pires de Távora pela sua conduta honesta, a par de raras qualidades de energia, brio e discernimento. A sua administração pode, sem favor, equiparar-se à de Ambrósio Pereira de Berredo e Castro.

 

O que pretendiam os holandeses?

 

Rio de Janeiro, 10 de Outubro de 2011

 

Francisco Gomes de Amorim

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