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A bem da Nação

O POÇO

 A raposa (*)

A fábula seguinte

Da Raposa e o Bode

É de La Fontaine

Que, sempre actual,

Põe o dedo na ferida

Na questão nacional

Sem saída:

A do nosso endividamento estridente

Resultante

Do mergulho no poço

Em busca do caroço

Para satisfazermos

A sede de termos

Recursos, riquezas,

Poderes, vilezas,

E as muitas lérias

Das nossas misérias.

O bode (**)

É assim a fábula:

«A raposa e o bode»

«Comadre Raposa ia de companhia

Com um seu amigo Bode dos mais encornados:

Este não via, pobre infeliz,

Mais que dois palmos à frente do nariz,

E dos mais diminutos;

O outro, em enganos e velhacaria,

Era mestre, dos mais esclarecidos.

A sede obrigou-os a descer a um poço:

Ali, cada um deles bebe até fartar.

Depois que ambos se dessedentaram

Diz a Raposa ao Bode

Como quem lhe acode:

Compadre, que vamos fazer agora?

Não basta beber, é preciso

Sairmos daqui para fora.

Levanta os pés pelas paredes acima

E os cornos também, para que eu suba

Pela tua espinha primeiro, pelos teus cornos depois.

Com uma tal máquina, deste lugar sairei,

Depois por ti puxarei,

E sairemos os dois.

-“Pela minha barba, disse o outro, acho bem;

Eu sempre louvarei

Gentes espertas como tu

Que não enganam ninguém.

Eu por mim jamais teria

Achado tal solução.”

A Raposa sai do poço,

Num alvoroço,

E abandona o companheiro

Não sem primeiro

Lhe pregar belo sermão,

Exortando-o a ter paciência

Em abundância:

Se te tivesse um Céu propício

Dado em benefício

Tanta inteligência

Como barba no queixo

Tu jamais terias ousado

Tão levianamente,

Descer ao poço. Aqui te deixo

Prudentemente.

Estou fora.

Adeus, que me vou embora

Urgentemente.

Trata de sair daí, como puderes.

Quanto a mim, tenho um assunto a tratar

Que me não permite parar.”

Em qualquer empreendimento que tomemos,

Antes de nos precipitarmos,

É preciso ter em atenção o fim,

Com discernimento.

Só assim

Nos safamos.»

Aqui está a fábula atrevida

Que põe o dedo na nossa ferida.

Nós somos o carneiro ramalhudo

E peco,

Que mal aconselhado pela raposa ditosa

Semelhante a outra qualquer raposa manhosa,

De dentro ou de fora,

Salta para o poço com rapidez

No seu deslumbramento e avidez,

Sem pensar nas consequências

De tais extravagâncias.

Lixou-se o carneiro,

No lixo do poço.

De lá não saiu,

Atolado

Até ao pescoço.

 

Berta Brás

 

(*)http://www.google.pt/imgres?q=Alberto%2BJo%C3%A3o%2BJardim&hl=pt-PT&biw=1024&bih=753&gbv=2&tbm=isch&tbnid=AZzPhXMZaezV7M:&imgrefurl=http://jvnande.com/fala-de-alberto-joao-jardim-a-uma-nacao-chorosa/&docid=WYfzJWr4nFVdDM&w=500&h=333&ei=ND6IToTGCsGN4gT0mpyHDw&zoom=1&iact=hc&vpx=300&vpy=377&dur=1399&hovh=183&hovw=275&tx=161&ty=113&page=1&tbnh=155&tbnw=206&start=0&ndsp=12&ved=1t:429,r:5,s:0

 

(**)http://www.google.pt/imgres?q=Z%C3%A9+Povinho&hl=pt-PT&gbv=2&biw=1024&bih=753&tbm=isch&tbnid=PVTMHSKlcZGjfM:&imgrefurl=http://clic-senior.blogspot.com/2011/03/ze-povinho.html&docid=ZUl9r01MtyTjjM&w=360&h=300&ei=wD6ITpT7AuPh4QTNkPiuDw&zoom=1&iact=hc&vpx=607&vpy=191&dur=5932&hovh=205&hovw=246&tx=117&ty=117&page=1&tbnh=161&tbnw=192&start=0&ndsp=15&ved=1t:429,r:3,s:0

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