AS CONFERÊNCIAS DE LISBOA 5
Identidades múltiplas em Casamança Senegal
Conferência de Peter Mark, Lisboa, 13 de Abril de 2005, 18h.
Auditório Afonso de Barros ISCTE
Centro de Estudos Africanos
"Peter Mark, professor na Wesleyan University, é especialista em história cultural africana, tendo o seu trabalho incidido sobre a Casamança e os Djola. Publicou vários trabalhos, entre os quais Portuguese Style and Luso-African Identity: Precolonical Senegambia, Sixteenth-Nineteenth Centuries (Indiana University Press, 2002).
A conferência debruça-se sobre as identidades múltiplas e mutáveis das populações da Casamança (Senegal) durante o período dos primeiros contactos culturais (séculos XVI-XVII). A identidade era definida contextualmente e os indivíduos podiam apresentar várias identidades. Este processo define um modelo senegambiano em que a identidade é múltipla.
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Eis como a conferência era anunciada na Internet. Despertou-me o interesse e lá fui. Gostei e não dei o meu tempo por perdido; pelo contrário, aprendi muito.
Por exemplo, fiquei a saber que naquela época uma coisa era ser-se branco e outra, completamente diferente, era ser-se português. Se para se ser djola, era necessário ter-se uma profissão, ser muçulmano e falar a língua djola, para se ser português era necessário ser comerciante (o que significava rico, poderoso), cristão e habitar uma casa rectangular com uma varanda à volta. Não era necessário ser-se europeu e havia muitos negros e mestiços que se diziam (e continuam a dizer) portugueses.
A Inquisição não deixou sequelas naquela zona mas havia quem se dissesse cristão quando contactava com os europeus e muçulmano ou animista quando se integrava nas comunidades locais. Parece que ainda hoje assim sucede mas, baralhando um pouco mais, a influência judia fez-se sentir directamente e através dos cristãos novos neste conglomerado de várias dezenas de nações. Afinal, os judeus também eram portugueses e, portanto, ser-se cristão não era tão importante como parecia para se ter direito à honra da portugalidade.
Por incrível que pareça, a guerra civil que grassou durante 20 anos na Casamança e há pouco terminou (ou fingiu que terminou), nada teve a ver com toda aquela confusão nem sequer foi consequência do regime esclavagista mas tão só com a exploração económica colonialista praticada pelo poder senegalês sedeado em Dakar.
Concluo que quem não saiba destas coisas se arrisca a nunca perceber o que se passa por aquelas paragens, nomeadamente na vizinha Guiné-Bissau.
Eu, por mim, tenciono continuar a estudar.
Lisboa, 13 de Abril de 2005
Henrique Salles da Fonseca
