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A bem da Nação

"Também não fazem bem a ninguém"

 

 

Eis uma pronta expressão da minha amiga, assim que lhe contei de um programa que escutei esta manhã de domingo, num dos canais televisivos sobre os monges que vivem em ascese em mosteiros do monte Athos, de que mostraram belas imagens de arquitectura, trabalho agrícola, pintura e reparação de ícones e imagens antigas, conversa de monges com o entrevistador americano… Monges que vivem em oração permanente, mesmo quando trabalham, salvo talvez nas horas de sono, procurando identificar-se com Cristo, imitando-o segundo a leitura bíblica no rito ortodoxo, numa grande frugalidade e isolamento, mesmo noticiarístico, embora se não coíbam de receber fartura de visitantes, distinguindo os do rito ortodoxo dos do rito cristão.

 

Já os santos eremitas da Tebaida viviam em ascese e solidão, mas estes alimentavam-se de produtos menos bem talhados, alguns de bichos e de plantas silvestres, como bem explica Eça de Queirós na sua “Lenda de Santo Onofre” e na de “S. Cristóvão”, e como, de resto, Santo Antão, narrado por Flaubert, sujeitos, na sequência desses martírios sofridos, na busca da perfeição, a visões de concupiscências e banquetes, provocadas pelo tentador demónio que sempre se riu desses fastios voluntários, como já o fizera com Cristo.

 

Creio que os monges ortodoxos dos mosteiros do monte Athos se alimentam e rezam sem delíquios de vis tentações da carne, embora a minha amiga tenha fungado entre dentes, afeita aos despautérios do consumismo e da libertinagem hodiernos.

 

E a minha amiga concluiu mansamente:

 

- São aqueles que se fartam da vida e pronto. Têm aí uma solução, nas muitas horas de devoção. Não interessam nem ao menino Jesus.

 

Mas, sempre irrequieta, acrescentou, embora a medo, que a vida nos sai por vezes adversa:

 

- Só espero que esses convidem a filha do Raul Solnado, porque ela fala todos os dias com Jesus. Para lhes dar umas dicas. Nós, que já temos uma Fátima, e ainda temos uma Solnada, o que é que a gente quer mais? Para quem não tem nem petróleo, nem ouro… É um fartote de bênçãos, mesmo sem os produtos de extracção.

 

- Não tenho sentido o efeito bênção, exclamei com certa indignação.

 

Desprezou o remoque.

 

- Eu só fico pasmada como é que não aparece ninguém a contestar! Se não fosse filha do Solnado, nem se atreveria a propalar as suas vidências. E vende os livros todos. Nunca vi ninguém criticar. Normalmente é entrevistada quando sai um livro, como se fosse a coisa mais natural deste mundo. Mas ela é que vive bem, e o resto é treta.

 

Retorqui eruditamente:

 

- O resto é silêncio, foi o Hamlet que disse, é o que nos espera a todos.

 

A minha amiga fugiu do assunto macabro, criticando mais um feriado, o de amanhã, dia da Assunção:

 

- Somos os campeões dos feriados. Houve alguém que falou em corte de feriados. Mas não devem ter coragem. A Igreja não deixa. Embora a Merkel tenha dito que é preciso trabalhar mais.

 

Mas, na sequência do sentido crítico e conceito antidogmático que encontramos em Eça, a respeito do que a busca da santidade pelo ascetismo e a penitência podem traduzir de vaidade pelo desejo de equiparação com Cristo, e de vacuidade e egoísmo no desligar do mundo, cito, de Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o seguinte passo:

 

«Disse-me ele (Quincas Borba) que a frugalidade não era necessária para entender o Humanitismo e menos ainda praticá-lo; que esta filosofia acomodava-se facilmente com os prazeres da vida, inclusive a mesa, o espectáculo e os amores; e que, ao contrário, a fragilidade poderia indicar certa tendência para o ascetismo, o qual era a expressão acabada da tolice humana. “- Veja S. João, continuou ele – mantinha-se de gafanhotos, no deserto, em vez de engordar tranquilamente na cidade, e fazer emagrecer o farisaísmo na sinagoga”.»

 

Por mim, defendo democraticamente o viver que cada um entenda para si, desde que não ofenda a integridade alheia.

 

E também gostaria de peregrinar até àqueles mosteiros dos monges bizantinos da “Santa Montanha do Athos”, e outros sítios, percorridos outrora por gentes e barcos e cujos enredos de fantasia ou de mito assente no real, para sempre permaneceriam no imaginário dos povos ocidentais, por eles enfeitiçados.

 

 Berta Brás

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