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A bem da Nação

A SINISTROSE

 

Londres 2011

 

 

Esse neologismo não é meu (nem do Roberto Campos, seu maior fabricante). É de Louis Pauwells, autor de um quase best-seller: Carta aberta à gente feliz, que é, diga-se de passagem, de ruindade literária quase homogénea (para usar a expressão de Colin Clark sobre um livro de Galbraith), mas de muito boa filosofia e de sadia reacção contra um pessimismo que, nos tempos que correm, se vai alastrando com fundamentos tão mórbidos quanto desconexos.

 

O livro denuncia essa raiva da felicidade que é uma espécie de poluição intelectual, diz o autor, transmitida por professores mentalmente desequilibrados, os quais, sob pretexto de salvarem a humanidade, pregam o desespero.

 

O quadro é bem desenhado: “Somos contaminados por uma teoria do fracasso e do absurdo, infiltrada em quase toda a literatura contemporânea, formando-se uma igreja do pessimismo, onde se encontram os descontentes com a civilização, os que sofrem com a felicidade alheia e os que buscam notoriedade a qualquer preço, todos para pregar a cruzada da destruição”.

 

Só se reputam bons artistas e verdadeiros intelectuais os que vivem à sombra do apocalipse. Há mais de meio século que uma literatura imbuída de niilismo propaga no seio da juventude o espírito da revolta e a gana da destruição.

 

Superpopulação, poluição, consumo obsessivo são os veículos que disseminam o veneno Não vêem, como diz Aron, a propósito da poluição, que só a técnica permite curar os males criados pela própria técnica.

 

A ideia de que o mundo ocidental é inviável atormenta os espíritos dos que, de outra forma, tudo teriam para serem felizes.

 

Não se trata de reacção de massas descontentes, nem de marxismo. Vem das elites de psicopatas que se pretendem intelectuais e que propagam negação e destruição. Profetizam a revolução pelo simples fundamento de que as coisas não podem continuar assim e de que a era da energia nuclear, da viagem à Lua e dos raios-Laser impõem radicais transformações (que eles não dizem quais são) para a vida dos homens.  

 

Um dos mais caudalosos afluentes dessa doutrina é a esquerda sacerdotal, que, na ânsia de uma notoriedade que a vida religiosa não proporciona, vem nos últimos vinte anos intoxicando a alma da juventude desprevenida e indefesa.

 

Herbert Marcuse, o mais proeminente dos ideologistas da nova esquerda, escrevia em 1967: “Por enquanto, a alternativa (à sociedade ocidental) é ainda e somente a negação”.

 

A sinistrose não admite o exame da evolução, económica e social das sociedades humanas, nem o progresso realizado pelo homem nos últimos cem anos para compreensão do universo em que vive.

 

Nada disso. A tarefa construtora seria árdua demais para a capacidade dos contestatários e não teria uma fracção sequer da audiência e da receptividade que conseguem os negativistas. Daí a confusão que domina a mocidade, só sabendo expressar-se pelo volume capilar, pela sujeira e pelos entorpecentes, elementos com que pretende promover a revolução social que não sabe qual é.

 

O autor de Carta aberta à gente feliz, Louis Pauwells, não fez parte da juventude desorientada que por aí anda parasitando, nasceu pobre, filho do povo. “Eu ia à escola”, escreve ele, “com as pernas enroladas em papel de jornal e uma lanterna na mão, nos dias de mau tempo”. O que confirma a tese de um trabalho do Prof. Nisbet, publicado o ano passado em Encounter, de que é nos estudantes das classes média e abastada que se encontra a grande maioria dos negativistas.

 

O livro de Pauwells é expressão sincera e corajosa de alguém que não se arreceia de abrir luta contra o pessimismo, a negação e a contestação sistemática, que desnorteiam os espíritos e procuram destruir a felicidade onde a encontram.

 

(19/11/71)

 

 Eugénio Gudin Filho

 

Por gentileza de

 

  Ricardo Bergamini

 

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