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A bem da Nação

MOTIVAÇÃO – PROCURA-SE


É costume dizer-se que em Portugal está tudo diagnosticado e que só falta actuar.

Então, se assim é, deve estar mais do que identificada a razão principal para o nosso subdesenvolvimento relativo e bastará actuar nessa causa para que a consequência seja automática e vejamos num ápice a resolução de todos os problemas.

Era bom que assim fosse mas é evidente que a afirmação inicial não passa de um sofisma. Por várias razões, nomeadamente porque os modelos econométricos em que alguns teóricos querem espartilhar a vida de um país não fazem qualquer sentido prático e porque à essência democrática das sociedades ocidentais subjazem leituras diferentes de uma mesma realidade e, portanto, soluções diferentes e frequentemente alternativas. Ou seja, é da essência da democracia que nem tudo esteja diagnosticado e que não haja apenas uma solução para um único problema: os problemas são múltiplos e cada um pode ter vários tratamentos. Resta-nos o debate e a necessidade imperiosa de algum poder crítico e de síntese.

Se alguém nos pedisse para apontarmos uma razão para o subdesenvolvimento relativo de Portugal, certo seria que cada um de nós seleccionaria um tema diferente. A minha selecção tem a ver com o nível cultural e de formação profissional dos portugueses, pode ter tratamentos alternativos e não se resolve rapidamente.

Dizem os chineses na sua já longa sabedoria que se um pobre nos pedir um peixe, que não lho demos e que, pelo contrário, o ensinemos a pescar. Creio que a valorização dos recursos humanos é a razão distintiva entre o subdesenvolvimento de uma sociedade e a sua capacitação para o discernimento e aptidão para o progresso.

De acordo com o relatório comunitário sobre o emprego na Europa, em 2003 a repartição da força de trabalho (grupo etário dos 15 aos 64 anos) por níveis educativos era como segue:

Países Baixa Média Alta
UE-15 36,9 43,2 19,8
UE-25 34,8 46,7 18,5
Reino Unido 16,9 55,9 27,2
Portugal 76,3 14,9 8,7


Uma vez que no último recenseamento geral da população ainda tínhamos cerca de 900 mil adultos estatisticamente analfabetos, então podemos imaginar o esforço ciclópico que teremos que desenvolver para numa década nos podermos equiparar à média europeia a 15, a 25 e utopicamente ao nível inglês.

Considerando em 2003 um universo laboral português de cerca de 4,745 milhões de pessoas, então isso significava algo como 3,62 milhões com baixo nível educativo (dentre os quais os referidos 900 mil analfabetos), 707 mil pessoas com nível médio e escassos 413 mil com formação superior.

Para nos equipararmos à média comunitária a 15, isso significaria passarmos a ter apenas 1,751 milhão de pessoas com baixo nível educativo, ou seja, seria termos que promover aos níveis médio e superior 1,869 milhão de portugueses o que – por exemplo para um programa de 10 anos – representaria uma promoção educativa anual de mais 186,9 mil pessoas. Se cada escola secundária tiver uma população média de 500 alunos, isso significaria pôr a funcionar mais 374 escolas desse nível.

Para nos equipararmos à média comunitária a 25, então o esforço seria de mais 394 escolas secundárias à média de 500 alunos mas se o objectivo fosse uma equiparação ao perfil britânico, então teríamos que fazer funcionar mais 564 escolas secundárias.

A questão está agora em saber que tipo de ensino secundário se deve ministrar. As taxas portuguesas de insucesso e abandono escolar precoce revelam mais problemas com os curricula do que com os alunos pois não se pode acreditar que os portugueses tenham algum problema genético que os incapacite estruturalmente para a matemática ou para a física e os encaminhe sobretudo para as humanidades, nomeadamente para as ciências jurídicas, a literatura, a gestão. E, dentre os que ficam pelo caminho, que razões haverá para o abandono precoce? Quando sabemos que na Alemanha as vias profissionalizantes representam cerca de 70% do ensino secundário e que entre nós elas não ultrapassam os 20%, é com alguma legitimidade intelectual que nos colocamos a questão sobre se se mantém válida a opção predominantemente generalista para o ensino secundário em detrimento das antigas escolas técnicas.

Do que não restam dúvidas é da real desmotivação de uma parte muito significativa da juventude que tem que estudar coisas que não lhe despertam o interesse e que na realidade não lhe interessam para nada no horizonte temporal de quem pretende ingressar no mercado de trabalho sem pretensões a formação de nível superior.

A quantificação desta questão dá uma ideia clara do esforço que teremos colectivamente que desenvolver para em 2015 ficarmos como estava o Reino Unido em 2003, ou seja, para ficarmos só 12 anos atrasados.

Não creio que valha a pena insistir em modelos que já provaram ampla incapacidade de motivação da nossa juventude e admito como muito vantajosa a integração da formação profissional nas hoje incipientes vias profissionalizantes do ensino secundário.


Henrique Salles da Fonseca

Publicado na revista "Indústria", Abril de 2005



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