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A bem da Nação

NO RESCALDO DA TOMADA DE LISBOA

 

O Conde Henrique e os novos colonos

 

Mais algumas “lembranças” sobre a Velha Lisboa, São Vicente de Fora, e o cemitério que a seu lado foi construído para teutos e flamengos. E vamos a alguns outros lugares.

Para começar, este Conde Henrique de que falamos a seguir, nada tem a ver com o pai de Afonso Henriques. Já vimos que Dom Afonso Henriques mandou que se fizesse tal cemitério para sepultar os “mártires” que, vindos com a 11ª Cruzada, o ajudaram na conquista de Lisboa, estando ainda a conquista de Lisboa por terminar.

Entre estes, tombou em combate na cidade, um certo cavaleiro Henrique, nascido numa cidade chamada Bona, que fica a quatro léguas de distância de Colónia, homem indubitavelmente nobre de estirpe e de costumes.

Aconteceu, pois, que certa vez, dois jovens, ambos surdos-mudos de nascença (e que tinham vindo na tripulação com os francos), faziam guarda, à vez, ao sepulcro de Henrique, cavaleiro de Cristo; conta-se que o mártir lhes apareceu na figura de um peregrino, que segurava no ombro uma palma e os convidava a fazerem a guarda. Logo que sossegaram um pouco, causa admiração que se diga, achavam-se a falar com tal desenvoltura e também a ouvir, como se sempre tivessem tido o uso tanto da fala como do ouvido. E o que era mais extraordinário era que, de acordo com a diversidade das terras e de povos a que pertenciam, assim lhes era concedida também a cada um fala diferente. Propalado pois pelo acampamento tão admirável acontecimento, todos os que os viam e ouviam glorificavam o Senhor, tendo o cavaleiro Henrique como mártir verdadeiramente dileto de Cristo.

Poucos dias depois, aconteceu que caiu em combate um seu escudeiro, que foi sepultado um pouco afastado do sepulcro do seu senhor. Em sonhos, o cavaleiro de Cristo, Henrique, aproxima-se de um dos soldados que estava de sentinela, no átrio da igreja de São Vicente e, chamando-o pelo seu nome, roga-lhe com grande insistência que de noite retire o seu escudeiro do lugar onde está e o ponha junto de si. Isto acontece uma primeira vez e repete-se. Não tendo o guarda atendido à interpelação, veio pela terceira vez, tomando um aspecto irritado e ameaçador, faz-lhe ameaças, caso adiasse por mais tempo a execução do que lhe solicitava. Por tal motivo o guarda acorda, levanta-se apavorado, pois estava sozinho no local, e dirigiu-se à cova onde estava enterrado o escudeiro. Pegando nele, sepultou-o ao lado do seu senhor, no mesmo túmulo. Contando de manhã o que se passara, dizia que não sentia nenhum cansaço, nem mal estar, quer ao pegar no corpo, quer ao sepultá-lo.

Era já São Vicente, feliz com a igreja que lhe fora dedicada, a mostrar o seu reconhecimento, mesmo antes de ter sido trasladado para Lisboa, escolhendo o Graff Henrique para se “manifestar”.

Vimos também que os mouros, e até moçárabes cristãos, após a conquista de Lisboa e os infames tratos que receberam dos selváticos “cristãos” que se intitulavam cruzados, fugiram da cidade e arredores, deixando aldeias inteiras abandonadas, e incultos campos até então de abundante produção, devido à avançada técnica de agricultura dos árabes.

A muitos francos, e outros, que decidiram abandonar a Cruzada ou mesmo não regressar a seus países de origem, foram distribuídas terras onde se fixaram. Diz Alexandre Herculano que um Guilherme Lacorni ou Descornes povoou, com seus homens de armas, Atouguia da Baleia - outras fontes indicam que foi D. Childe Rolim, filho do conde de Chester, inglês, quem a povoou em 1147; Jordan, outro capitão, natural da Aquitânia, estabeleceu-se na Lourinhã onde uma pequena ribeira que ali passa, ainda hoje se chama Jordão, e Alardo, ou Adelardo, possivelmente teuto, em Vila Verde, talvez no Minho, aldeia primeiramente entregue ao Arcebispo de Braga, Dom Paio Mendes.

Aliás estes dados são controvertidos porque diversos autores indicam diferentes fundadores, mas...

Em pouco tempo muita desta gente, vulgacho indômito, como lhes chamou Herculano, foi-se habituando à vida sedentária e abandonando o trato das armas, ou porque os seus chefes desejassem, enfim, o repouso, ou porque o próprio rei os escusasse, temendo a ferocidade nativa deles, de que tinham dado suficientes provas.

Daí, possivelmente, também, o terem sido dispersados por todo o país.

Além de todas as Vilas Francas de Portugal continental: de Xira, perto de Lisboa, do Deão, na Guarda, da Cardosa, hoje Castelo Branco, de Sendas, em Bragança, da Serra, em Viana do Castelo, das Naves, em Trancoso, do Rosário, em Mafra, outra na freguesia de Aguiã em Arcos de Valdevez, mais outra em Castro Daire, ainda em Fafe, em Oliveira do Hospital, em Ponte de Lima, em Santo António dos Olivais, até aos Açores chegou o nome, com a Vila Franca do Campo.

Algumas destas não terão sido povo dadas por cruzados, com certeza a dos Açores, mas... os naturais dessas terras que o pesquisem!

 

Que nomes de família terão hoje os descendentes dessa gente?

 

Rio de Janeiro, 18/06/2011

 

Francisco Gomes de Amorim

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