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A bem da Nação

Caturrices 27

 

 

Ah, Malvados! Então isso faz-se? - III

 

 

Eu sei que o pecado da auto-citação é horrendo. As suas duras penas pedem meças a um qualquer programa da troika: fome e ranger de dentes, para sempre. Mas vou incorrer nele, apesar de tudo, para encurtar razões.

 

Em Março deste ano, dei à www dois escritos sob este mesmo título. Neles procurei demonstrar:

 

-       Que é uma ilusão pretender mercados financeiros livres de manipulações e aldrabices várias sem informação atempada, consistente e facilmente comparável entre datas, países, regiões e sectores.

 

-       Que as notações de risco de crédito (ratings) são a maneira mais expedita de divulgar informação comparável sobre instrumentos de dívida (o que mais interessa ao credor é perspectivar se vai ser pago, ou não).

 

-       Que raros serão os investidores institucionais (e só esses) com meios para formar a sua própria opinião sobre um lote suficientemente diversificado de instrumentos de dívida – e com ânimo para arcar com os correspondentes custos.

 

-       Que, sem ratings susceptíveis de serem comparados internacionalmente, regredimos à época das economias nacionais compartimentadas - umas, a abarrotar de liquidez estagnada; outras, à míngua de divisas, mergulhadas em atraso persistente.

 

-       Que tudo isto aponta para a importância de ratings credíveis (o que não significa proféticos) - mas nada prova sobre a qualidade das notações que as actuais Agências de Rating publicam.

 

-       Que, mesmo assim, os Bancos Centrais de vários países desenvolvidos - com o firme empenho do Comité de Basileia (no Basileia II) e da UE (na Directiva sobre Requisitos de Capital) - descansaram totalmente nas notações atribuídas por umas quantas Agências de Rating (e só essas) para concluir sobre a solidez e solvabilidade de Bancos, Seguradoras, Fundos de Investimento, Fundos de Pensões e outras entidades sujeitas a regulação e supervisão. Das suas economias, enfim.

 

A Moody’s (uma das três Agências de Rating que dominam - com alguma soberba, reconheço - os principais mercados financeiros) resolveu, há pouco, atribuir à Dívida Pública portuguesa a notação de “especulativa” (também designada, algo exageradamente, por “lixo”). E foi um clamor como há muito se não ouvia.

 

Tem-se dito da Moody’s (e das suas “irmãs”, por tabela) o que Mafoma não ousou dizer do porco: “ataque premeditado”; “ataque de oportunidade mais que suspeitosa”; “ataque encomendado contra o euro”; “ataque sem um módico de fundamento”; “descarado conflito de interesses” - e por aí fora, a lembrar a reacção pátria (inflamada, mas completamente estéril) ao Ultimato Inglês (curiosamente, também em época de bancarrota).

 

Convenhamos:

 

-       Não foram estas Agências que nos empurraram à viva força para o sarilho em que nos encontramos. Foram elas, sim, e quase só elas, com a sua complacência simpática, mas um pouco displicente, que tornaram possível este sobreendividamento aterrador.

 

-       Não foram estas Agências que nos convenceram a gastar dinheiro em obras inúteis, num Estado Social que não faz contas nem nada controla, e a importar bens e serviços como se fossemos ricos. Foram elas, sim, que convenceram investidores que nem sequer conseguiam localizar Portugal no mapa-mundi a financiar-nos - por nos terem na conta de devedores confiáveis.

 

-       E quem gasta como se nunca chegasse a hora de pagar não é um devedor confiável, por mais bem intencionado que seja.

 

Faz de nós devedores mais confiáveis, sentirmo-nos ultrajados até ao tutano porque uma delas (ou todas elas, para o caso é igual) entendeu, agora, dar a conhecer ao mundo que, em sua opinião, é significativa a probabilidade de a Dívida Externa portuguesa não ser paga por inteiro e pontualmente? Não faz.

 

quem anda muito, mas mesmo muito distraído é que ainda não percebeu a realidade em que nos metemos: não fosse o BCE (e, agora, o pacote financeiro da troika) e estaríamos insolventes (Estado, Bancos, nós todos) há mais de um ano.

 

Mas a Moody’s é que é a má da fita por dizer isto mesmo (que, se não houver quem pague por nós, é incumprimento pela certa) - em vez de pintar o quadro, que é negro retinto, com tintas cor-de-rosa berrante. Alguém, em seu perfeito juízo, está convencido do contrário?

 

Os outros - os que nos arrastaram para este buraco, os que clamavam “haver mais vida para além do deficit” (e iam à sua vidinha bem regalada), os que distribuíam por aqui e por ali benesses pagas com o dinheiro dos contribuintes (actuais e futuros) – esses, não são alvo da nossa “justa indignação”. Coitados! A coisa correu-lhes mal!

 

“Ah! Mas o nosso Governo, mais isto e mais aquilo”. Pois é, o nosso Governo tem intenções, tem vontade, anda a ver se tem meios e condições - e opina. Opina sobre o que gostaria que acontecesse lá para o final do ano, e sobre o que pensa que vai acontecer, de facto. Em suma: opinião contra opinião, só isso.

 

“Mas logo agora, à beira de mais uma emissão de Dívida Pública, quando tanto precisamos de compadres amigalhaços? Isto só pode ser jogada combinada para nos tramar, tramar o euro e dar cabo da UE”. Vamos a ver: não é quando uma novidade chega ao mercado que procuramos saber se ela vale ou não a pena? Se o preço pedido é razoável ou exagerado? Ou é mais tarde, quando já não houver volta a dar?

 

No mercado da dívida, valer a pena é falar do risco de crédito. Para os investidores com apetite pelo risco é tudo uma questão de preço; para os outros, avessos ao risco, fica o alerta. Por estranho que pareça, foi para isto, e só para isto, para opinar, que o Estado Português pagou à Moody’s umas generosas comissões, ao longo destes últimos anos.

 

E convém não esquecer que a Moody’s, ao opinar assim, coloca a sua credibilidade em jogo: se esta notação se revelar exageradamente baixa, se a realidade futura a desmentir, os investidores que, por causa dela, tiverem de vender com menos valias substanciais Dívida Pública portuguesa (todos aqueles cujos critérios de investimento não lhes permite ter em carteira dívida “especulativa”), nem lhe perdoarão, nem esquecerão.

 

“Gente malvada! Votemo-la ao desprezo!”. Porque não? Desde que haja estômago bastante para aceitar a realidade: a procura por dívida sem rating é ainda mais escassa do que a procura por dívida “especulativa” - e exige melhor remuneração (justamente, por saber ainda menos o que a espera no fim da linha).

 

“Mas então, é comer e calar?”. Nem por sombras. Quem achar que a Moody’s, os mercados, os especuladores, toda essa cáfila, não têm razão, dispõe de um excelente remédio: acorra a comprar Dívida Pública portuguesa, ponha a carteira onde já tem a alma.

 

O Governo e nós todos, contribuintes, agradecemos sensibilizados.

 

  A.PALHINHA MACHADO

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