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A bem da Nação

FUZILEIROS, “PRAXES” E OUTRAS COISAS

(*)

 

O Partido Comunista, afins e outros companheiros de luta, quando intentaram a subversão do Estado, antes de 1974 – e também o que restava das matrizes antigas nacionais – elegeram como campo prioritário, as Universidades.

           

A subversão das Universidades, sobretudo a de Coimbra, que era a mais importante, teve como aríete principal o ataque ao Fado, ao futebol e à praxe. Percebe-se a estratégia: aquelas actividades eram, na altura, o fulcro de toda a actividade estudantil fora das
aulas. Eram, por assim dizer, uma imagem de marca da Universidade.

           

O Fado foi sendo substituído pela “canção de intervenção”; o futebol foi denunciado como alienante e preterido a favor de reuniões de esclarecimento político, e a praxe tinha que ser banida.

 

Completava o quadro as farpas contra a religião e o seu conservadorismo, passando apenas a ser aceitável o “catolicismo progressista”, fosse lá o que isso fosse.

           

Porque é que a praxe tinha que ser banida? Simples, porque a praxe pressupunha uma organização académica, com a sua hierarquia e as suas regras. Criava uma “ordem” e uma “coesão” o que, naturalmente, contrariava ou dificultava a acção dos citados grupos. Sendo que, aos comunistas, era impensável qualquer ordem que não a sua; aos restantes repugnava qualquer ordem.

           

Perguntar-se-á o que é que isto tem a ver com um recente caso de hipotéticas agressões a um fuzileiro, na Escola onde são formados. Pois tem tudo, embora com novas roupagens. E cada vez que se passa uma cena qualquer de “violência” ou considerada de “praxe” logo se levanta certo sururú nos “média”. É recorrente.

           

Há décadas que a autoridade foi posta em causa; a hierarquia horizontalizada e palavras como ordem, disciplina, nação, etc., quase desapareceram do vocabulário comum. Vive-se um individualismo feroz como se quisesse imperar um “status quo” em que cada um pudesse fazer o que lhe desse na realíssima gana. Estranhamente ou não, aparecem, por outro lado, organismos, que ninguém conhece, que tentam uniformizar e regular todos os pormenores da vida pessoal e em sociedade. Agora parece que querem controlar e padronizar as sementes que são lançadas à terra…

           

Quem tem sofrido mais com todo este estado de coisas, que necessitam de livros grossos para retratar, são as Instituições tradicionais que se constituíram durante séculos pilares do Estado e da sociedade. Entre estas as duas mais duramente contestadas e atacadas têm sido a Igreja e as FAs.

           

É aqui que voltamos ao incidente dos fuzileiros como nos poderíamos reportar a dezenas de outros que têm ocorrido nas últimas três décadas.

           

O que mantém as instituições de pé são os seus princípios, e doutrinas, os seus líderes que viram referência; os seus feitos e todo o acervo moral e material que resulta da sua acção ao longo dos tempos. Deste acervo fazem parte as tradições onde se podem incluir o que é conhecido por “praxes”. E não foi por acaso que o combate às “praxes” foi uma bandeira das diferentes juventudes partidárias, quando se encarniçavam contra o serviço militar obrigatório.

           

A Instituição Militar é aquela entre todas as existentes cuja missão primária é a defesa da Pátria (outra palavra banida e, entretanto, repescada por gente suspeita…), o que implica, quando iniciadas as hostilidades, matar e morrer. E estar preparado para isso. A profissão que mais perto está deste estádio são as forças de segurança, mas o grau de conflitualidade, empenhamento e letalidade está num patamar muito inferior a este.

           

Estar preparado para matar e morrer, leva tempo – se é que é uma meta atingível, e fazer cumprir as missões em termos éticos, exige uma exigência deontológica e uma dureza na instrução sem paralelo noutro âmbito.

           

As praxes sempre existiram e são de todos os tempos. Oficialmente não existem, mas eram sempre “supervisionadas”, embora não seja possível controlar tudo. A existência da praxe – quando bem-feita – exige regras, cujos infractores serão punidos. A praxe tem funções importantes: ambienta o indivíduo, enquadra-o, induz-lhe o comportamento, cria camaradagem e coesão, desemburra os mais toscos, melhora o conhecimento e a preparação física. A praxe diverte e fomenta o conhecimento mútuo. Todavia é forçoso salvaguardar duas coisas: a não existência de práticas violentas ou perigosas e a dignidade da pessoa humana.

           

Ora o que se passou nos fuzileiros, estranhamente divulgado na antevéspera, da Escola da Fuzileiros comemorar os 50 anos, nem sequer configura um acto de praxe. Ao que julgamos saber, a cena ocorreu entre os membros do mesmo pelotão de um curso de formação de fuzileiros, em Agosto de 2010, (há quase um ano!), porque os membros dessa sub unidade tinham sido sucessivamente castigados, por causa do comportamento do visado, cuja prestação durante o curso tinha deixado muito a desejar, a ponto de alguns dos seus camaradas não estarem nada satisfeitos por ele também ir receber a boina azul ferrete, símbolo da especialidade, Por isso decidiram dar-lhe um “aquecimento”. O vídeo não mostra qualquer agressão, nem a “vítima” sofreu qualquer contusão ou nódoa negra. Tão pouco apresentou queixa. E tudo teria ficado assim se, em Novembro de 2010, a ocorrência não tivesse chegado, fortuitamente, ao conhecimento do Comando da Escola, que mandou levantar um auto de averiguações, onde ouviu inúmeras testemunhas. Deste auto resultou uma pequena punição para meia dúzia de praças. Aqui a cena descambou: como há anos andam a destruir a disciplina militar – sem ninguém se opor, acrescente-se – agora, por dá cá aquela palha, qualquer militar pode chamar um advogado para recorrer de uma simples pena disciplinar. Assim aconteceu, e a suspeita que existe é a de que alguém relacionado com o caso – e que não terá saído da Marinha de boas relações com ela – terá enviado o vídeo entretanto facultado por quem o fez, para os “média”, levantando um problema que não vale um caracol furado, mas que visa objectivamente prejudicar a imagem da Armada.

           

E uma outra coisa grave ocorreu: as insinuações acintosas de que o Ministério Público iria investigar o caso – porquê se o comando já tinha tratado da questão?

           

Pois é a triste realidade a que chegámos, depois de terem destruído a Justiça Militar e acabado com os tribunais militares – mais uma vez sem um protesto – quando tudo funcionava razoavelmente bem, com celeridade que a vida militar impõe e com conhecimento de causa das especificidades da Instituição que escapam, naturalmente, ao comum dos cidadãos, mesmo sendo advogados, juízes ou procuradores.

           

Não se entende, porém, é que a nível institucional militar, nada se faça em defesa das FAs e dos militares, não se explique nem se assuma as coisas mais básicas e se ande curvado perante políticos – sejam eles quais forem, muito menos os medíocres – e sem se atinar como lidar com os jornalistas.

           

E uma das coisas que se torna urgente dizer e denunciar em voz alta é que a generalidade dos jovens portugueses – e isto já tem muitos anos – não está minimamente preparada para a vida. E mal se lhes aplica um quarto de volta de torque de aperto, eles desistem, fogem, deitam-se, voltam as costas, etc. Não são todos obviamente, mas são demasiados. E as FAs têm relatórios que podem provar tudo isto. Há anos que deviam ser presentes a Conselho de Ministros. 

           

Infelizmente, parece, e parece muito, que a hierarquia militar soçobrou, no meio do que é política e socialmente correcto.

           

Sei que muitos não gostarão de ler isto. Mas, sejam francos, que é que vos hei-de dizer?

 

5/6/11

 

 João José Brandão Ferreira

                                           Cor/Pilav (Ref.)

 

(*)http://www.enciclopedia.com.pt/articles.php?article_id=413

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