LIÇÃO DE CIVISMO A TIRAR DA OBRA DE CAMÕES
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Para este ilustre historiador e economista [Alberto Sampaio], amigo de Oliveira Martins, cujos preconceitos tanto mal nos causaram, se Portugal não voltou à sua antiga pátria [Galiza], isso deve-se a um aventureiro feliz, acentua, cujo triunfo resultou principalmente da adesão "de uma cidade do norte - do Porto, que se separou do sentimento comum dos homens da sua raça, dos seus irmãos e compatriotas". Ora eu não posso admitir, de modo nenhum, estas ideias, porque elas brigam com a verdade histórica e com o nosso brio patriótico.
Ao terminar a primeira dinastia, não víamos, é verdade, dentro da Península, para onde nos expandirmos, mas os portugueses, apertados nos limites da estreita faixa do seu território, tinham realizado uma obra imponente, que denunciava a existência de um povo com caracteres bem definidos: lançaram-se bases sólidas para o desenvolvimento da indústria agrícola e do comércio; organizou-se a justiça; deu-se um impulso grande à instrução, e a língua portuguesa, mercê do génio de homens como D. Dinis, mostrou-se capaz de servir de instrumento a todos os géneros da literatura ...
Antes da expansão, Portugal já tinha Fernão Lopes, o maior prosador do seu tempo, o cronista de D. Pedro, de D. Fernando e de D. João I, e cuja obra não podia explicar-se se não tivesse havido já precursores, que ele aliás cita de vez em quando.
Mas, mesmo que admitíssemos a estranha teoria de Oliveira Martins e de Alberto Sampaio [de que a elite tinha saudades de regressar à pátria-mãe, a Galiza], a pergunta do cancioneiro galego ["Portugués, e rebelludo, fillo de tan mala lei: que che custaba decir: Viva, viva o nosso rei?"] só pode explicar-se pela ignorância e ingenuidade do cantor anónimo.
É que, depois da primeira dinastia, nós conquistámos Ceuta e outras praças do norte de África, devassámos os mares, percorremos os sertões e os desertos, esculpimos a cruz e as quinas em padrões que ficaram espalhados por todas as costas, a assinalar a nossa passagem, como assinalavam as gotas do nosso sangue, que caíam em toda a parte.
Em muitas lendas do ciclo de Nossa Senhora aparece Ela por vezes a deixar na terra os vestígios das suas pegadas santas.
Pois bem: nas nossas viagens quase lendárias, além de erguermos a cruz por toda a parte, também imprimimos as nossas pegadas pelas terras descobertas; a nossa língua, em 1580, já era falada na América, na África, nas ilhas do Atlântico e do Índico, nas costas da Arábia
e da Índia, na China e no Japão.
Nas próprias terras que nos tinham sido arrebatadas ela lá estava, e ainda hoje está, a atestar a existência de uma das nações mais perfeitas dos tempos modernos.
Tinham surgido poetas como Gil Vicente e Bernardino Ribeiro; historiadores como João de Barros e Castanheda; moralistas como Sá de Miranda; místicos como Frei Tomé de Jesus; as Relações simples, mas eloquentíssimas, que haviam de constituir a História Trágico-Marítima...
Mas, sobretudo, todas as energias da raça portuguesa - o concurso humilde mas eloquente das tradições populares e o esforço poderosíssimo de tantas camadas de escritores eruditos - cristalizaram num Homem, que representa para nós a segurança mais firme no meio destes tempos revoltos.
Os Lusíadas foram uma arma poderosa manejada desde 1580 a 1640 e constituem o nosso melhor escudo contra as tentativas de usurpação.
A obra lírica e épica de Luís de Camões, onde a língua portuguesa atingiu o máximo do seu esplendor, impõe-nos obrigações, sim, e é preciso que a mocidade de hoje as compreenda bem; mas concede-nos direitos, que não devem, nem podem ser esmagados, sejam quais forem as crises deste mundo doente.
Alphonse Daudet incluiu nos Contes de Lundi um conto impressionante -- La Dernière Classe : imagina um professor alsaciano a dar a sua última lição de francês aos alunos, porque chegara ordem de Berlim para se ensinar nas escolas apenas o alemão.
M. Hamel, dirigindo-se aos discípulos, ergue um hino à língua francesa, e pede-lhes que a não esqueçam, pois, enquanto um povo conserva a sua língua, é como se tivesse na mão a chave do cárcere.
Era a paráfrase do pensamento de Mistral, o poeta da Provença:
"S'il tient sa langue. -- il tient la clé qui de ses chaines le délivre".
Pois cultivemos a nossa língua, defendamo-la contra todos os ataques dos inimigos externos e internos, aprendamos a venerá-la como instrumento de que se serviu o nosso primeiro Poeta.
Ela é a espada mais poderosa com que devemos ferir os nossos inimigos, o escudo mais firme contra os ataques injustos e traiçoeiros... e seria num dia a chave mais segura para nos abrir a porta do cativeiro se um inimigo conseguisse infiltrar-se no País - perigo que Deus afaste.
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Para nos mantermos à superfície, para resistirmos à corrente impetuosa, não esqueçamos o falar da nossa terra, e agasalhemos bem, bem aconchegados junto dos corações os Lusíadas - a obra maravilhosa em que a nossa língua se firmou para todo o sempre."
(Extracto da Introdução de "El-Rei Seleuco" de Luís de Camões, escrito por Augusto C. Pires de Lima, Ed. Domingos Barreira, Porto, s/d.)
Joaquim Reis
