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A bem da Nação

O 10 DE JUNHO E OS COMBATENTES

 

                                                                                                                                 
11/06/2011

                                                                                                       
“Uma mentira repetida mil vezes,                                                                                            
passa a ser verdade”                                                                           
Lenine

 

A Comissão Promotora do Encontro Nacional dos Combatentes, organiza uma “romagem” anual de homenagem aos Combatentes do Ultramar, junto ao respectivo monumento, em Belém, no dia de Portugal. Este ano promoveu, também, uma conferência sob o tema “A
Presença de Portugal em África”, ao longo dos séculos, que teve lugar na véspera, na Fundação Gulbenkian.

 

Destas duas iniciativas quase não houve eco na comunicação social. Compreende-se: tratava-se de um debate elevado sobre um tema relevante; no dia seguinte lidámos com uma cerimónia eminentemente patriótica, oriunda da sociedade civil, de amor a Portugal  e recordando todos aqueles que disseram “presente” quando foi necessário defender pelas armas os nossos territórios e populações, e não virou a cara aos perigos e canseiras. Sobretudo homenageando quem, no cumprimento dessa nobre missão, perdeu a vida ou ficou ferido na carne ou no espírito. Tratava-se, por isso, de uma coisa menor… Não se jogou futebol ou se fez chicana política; não se cortou a linha de caminho de ferro; não houve ameaças de greve ou quaisquer reivindicações; nem se proferiram ofensas a ninguém, tal não mobiliza, obviamente, os auto-apelidados “quarto

Correu tudo bem, Deus seja louvado! E louvados devem ser também – pois é de justiça – as equipas que organizaram os eventos capitaneados, respectivamente, pelos generais Jesus Bispo e Vizela Cardoso.

  

Relativamente à conferência, que foi presidida pelo Professor Adriano Moreira, gostaríamos de prolongar o debate, tendo em conta algumas ideias nela expandidas.

  

Lá ouvimos atacar, uma vez, o nosso Rei D. Sebastião, que de “Desejado”, como ficou para a História, passou a ser considerado por muitos como o símbolo do erro e da leviandade. O que nos parece ser…  uma leviandade.

  

Sobre a subversão e a guerrilha com que nos defrontámos em África, entre 1961 e 1974/5, lá se ouviram as mesmas frases recorrentes, na esteira do ensinamento leninista. Estas ideias, além de constituírem mitos, funcionam como uma espécie de auto justificação psicológica e tranquilizadora de consciências, para quem contribuiu, não se opôs ou se acomodou, à vergonhosa retirada de “pé descalço”, com que terminou a nossa centenária permanência naquele continente (e em Timor). Vamoanalisar quatro frases feitas.

  

“Uma guerra subversiva não pode ser ganha”; é mentira, os ingleses ganharam na Malásia e no Quénia; as guerrilhas lançadas por Castro e Guevara, nas Américas Central e Sul, foram quase todas derrotadas; até os EUA teriam ganho a guerra do Vietname se tivessem tido a coragem e o discernimento de impor a censura nos “média”. Nós já tínhamos subjugado a guerrilha em Angola e estávamos muito longe de a perder na Guiné e Moçambique.

  

“Não entendemos/reagimos aos “ventos da História”; os ditos ventos são sempre soprados por quem tem poder em cada época e fartaram-se de soprar contra nós, durante séculos. O ataque, em 1961, foi apenas mais um. Temos, de facto, que estar sempre atentos
a tais ventos e responder em função dos nossos interesses, não dos outros. E isso quer dizer agir e lutar dentro das nossas possibilidades e em todos os tabuleiros. Para isso necessitamos ter Poder. A alternativa a isto é sermos escravos e bananas.

  

“Os militares garantiram ao poder político o tempo necessário para estes encontrarem uma solução para o conflito”. Este argumento afigura-se-me tosco e tem uma lógica invertida.

  

Juro que não entendo como isto se faz: os chefes militares (quando? todos ou alguns?), vão ter com o governo e dão-lhe um prazo? E como se calcula o tempo considerado suficiente? Dois anos? Cinco anos?; Treze anos de guerra em África é muito mas os 80 anos que durou a guerra com os holandeses, são aceitáveis? A Guerra da Restauração durou 28 anos, o que teria acontecido se nos tivéssemos cansado ao fim de treze? Isto tem alguma lógica ou aceitabilidade? Quando vão tropas, hoje para o Afeganistão, ou outro lugar qualquer, o CEMGFA tem uma conversa prévia com o MDN e dá-lhe um prazo?

    

Vejamos outro ponto: uma guerra implica um esforço global que é decomposto em económico, financeiro, diplomático, psicológico, etc., e militar. Todas estas áreas são importantes não é só a militar. Sendo assim, quer dizer que não seriam só os militares a dar “tempo”aos políticos, seriam todos os outros também. Bela

Ou não será antes correcto que seja o poder político, definidos os objectivos, a proporcionar os meios necessários ou possíveis, a todas as áreas, para que todas possam, entrosadamente, cumprir as suas missões e tarefas em prol da vitória?

    

Uma guerra é, sobretudo, uma luta de vontades; o tempo é apenas um recurso, como muitos outros.

   

A um oficial ou sargento do quadro permanente, não ficará muito mal, estar a “queixar-se” do tempo que dura um conflito? Ele escolheu a profissão e pode ter que combater desde que se forma até que se reforma!

  

Finalmente, a cereja em cima do bolo: “a solução para a guerra era política e não militar”. Confesso que entendo este argumento como o mais mirabolante de todos.

  

Vejamos se entendi bem: sendo a guerra, na máxima clausewitiana, a continuação da política por outros meios, pretenderiam os autores da frase a continuação da guerra através da política?

   

O mais curioso de tudo é que a maioria dos autores deste portento, di-lo com o ar mais sério do mundo e, a seguir, cala-se, como que aliviado depois de ter proferido uma sentença absoluta! Mas, no fundo, o que querem dizer? Que propostas apresentam? E como
equacioná-las?

   

Pois é, afirmar que a solução é política e não militar que dizer tudo e não quer dizer nada…

   

Por definição entrar-se numa guerra ou colocar-lhe um fim, é essencialmente uma decisão política – e, neste particular, anunciar que a decisão da guerra é política e não militar, transforma-se num pleonasmo…

  

Como não temos espaço para abordar o problema em todas a s suas vertentes, vamos apenas chamar a atenção para que a decisão política sobre um conflito deve ser feita tendo em conta os nossos interesses, não os do inimigo; e que, sendo comum aceitar-se ser a guerra uma coisa má, existe uma pior, que é, justamente, perdê-la.

  

Disse ainda o Prof. A. Moreira (e tem-no repetido amiúde), que os portugueses, desde Afonso Henriques, funcionaram sempre “em cadeia de comando”e isso explica que o povo fosse sempre cumprindo os desígnios nacionais. Eu julgo entender o que o ilustre professor quer dizer (embora nunca o explicite), mas penso que não é a verdade toda. A verdade toda é que essa cadeia de comando foi interrompida, em 1820,para só voltar a ser reposta em 1926 (melhor dizendo, em 1932), tendo-se perdido, novamente, em 1974.

   

E agora, volta-se à cadeia de comando ou…. a quê?

 

 

                                                
João J. Brandão Ferreira                                        
TCorPilAv(ref.)

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