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A bem da Nação

ESCOLA E FAMÍLIA - 3

Eduardo Alfredo Cardoso de Miranda, Prof. Universitário
Comunicação apresentada em 28 de Novembro de 2003 na “Associação Sindical dos Professores Pró-Ordem”, Rua Prof. Vieira de Almeida, 5, 2C – 1600-664 LISBOA.

(continuação)

5 - TEORIAS DA ESCOLARIZAÇÃO

Há várias teorias sobre a educação moderna, sobretudo, partindo das desigualdades sociais. Sobre estas, alguns autores consideram que a grande causa subjacente ao insucesso escolar se posiciona nas diferenças de capacidade linguística onde a comunicação entre os agentes se encontra recheada de ruídos bloqueadores de entendimento: “... o discurso contribui para a sedimentação do preconceito linguístico e também para a exclusão das minorias e criação de estereótipos que dividem a população escolar entre aqueles que conseguirão alcançar o sucesso e aqueles que não ...” (7)
Assim, a composição discursiva das crianças da classe trabalhadora se cingem a um
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Eduardo Alfredo Cardoso de Miranda, Prof. Universitário
Comunicação apresentada em 28 de Novembro de 2003 na “Associação Sindical dos Professores Pró-Ordem”, Rua Prof. Vieira de Almeida, 5, 2C – 1600-664 LISBOA.

(continuação)

5 - TEORIAS DA ESCOLARIZAÇÃO

Há várias teorias sobre a educação moderna, sobretudo, partindo das desigualdades sociais. Sobre estas, alguns autores consideram que a grande causa subjacente ao insucesso escolar se posiciona nas diferenças de capacidade linguística onde a comunicação entre os agentes se encontra recheada de ruídos bloqueadores de entendimento: “... o discurso contribui para a sedimentação do preconceito linguístico e também para a exclusão das minorias e criação de estereótipos que dividem a população escolar entre aqueles que conseguirão alcançar o sucesso e aqueles que não ...” (7)
Assim, a composição discursiva das crianças da classe trabalhadora se cingem a um <código linguístico restrito>, uma forma de discurso que contém pressuposições que o seu autor/emissor espera que o outro entenda. Esta forma de discurso é inerente à sua origem cultural, de uma classe social baixa. Afirma-se que este tipo de linguagem na base do código restrito é mais visível nas experiências práticas e não susceptível para as ideias mais elaboradas. Desta forma, no diálogo caseiro as respostas também são limitadas, estreitando a curiosidade necessária naquela fase da vida. Pressupõe, por isso, que se fica a dever a uma questão de ginástica mental e não de inteligência. Neste sentido, pode concluir-se que os jovens com discursos mais elaborados, tendencialmente, mostram maior propensão para entenderem os códigos e os assuntos empregues na educação formal. E é por este motivo reprodutor das desigualdades que Samuel Bowles e Herbert Gintis adiantam que a escola não tem tido a capacidade de alterar, por via da sua prática, as desigualdades existentes na sociedade. Também Ivan llich, conhecido pela sua postura crítica sobre os moldes deste desenvolvimento económico que imprime um cunho particular à sociedade capitalista, nos adianta que a escola tende a inculcar um consumo passivo, isto é, uma absorção e aceitação acrítica desta ordem social.

Bourdieu e Passeron, autores de muitas obras sobre esta temática preconizam que a forma como as escolas e outras instituições funcionam mais não fazem que perpetuar as desigualdades económicas e sociais ao longo das várias gerações. O que equivale dizer que quase não há sequer mobilidade inter-geracional. Nesta perspectiva, a escola exerce uma clivagem (motivadora/não motivadora) no sentido de facilitar as oportunidades a uns e não a outros. Em função de um estudo de Paul Willis, realizado em 1977 em Birgmingham, o autor concluiu que “os miúdos das classes trabalhadoras obtêm empregos de classe trabalhadora” e que os mesmos, através das suas trajectórias escolares, eram convencidos que não dispunham de capacidade suficiente para terem sucesso, isto é, “não são suficientemente espertos”. Uma vez aceite esta inferioridade estão limitados e levados a ocuparem lugares subalternos.


6- OS LIMITES DA INTEGRAÇÃO


Esta enorme máquina em que se transformou a sociedade actual, onde a ciência e a técnica se associaram não produz apenas conhecimento, também ignorância e cegueira. A par da grande divisão do trabalho, trouxeram sem limites os inconvenientes da sobre-especialização, reflectindo-se no ensino, mercê da compartimentação e fraccionamento dos saberes. Para a maioria da população, sobretudo das camadas mais desprotegidas, este saber tornou-se esotérico, isto é, pouco acessível e pouco perceptível. As ideias provenientes do político procuram fazer-nos crer que a escola está acessível a todos e que os que ficam pelo caminho não têm aptidão. Por outro lado, citando Morin “hoje, pede-se a cada um que acredite que a sua ignorância é boa, necessária, e são-lhe fornecidos quando muito alguns programas de televisão onde os especialistas eminentes lhes ministram certo número de lições recreativas. O desapossamento do saber, muito mal compensado pela vulgarização mediática, coloca o problema histórico chave da democracia cognitiva.” (8). Esta situação esconde ou torna pouco perceptível que a “... dificuldade chave que é revelada pelo insucesso de todas as sucessivas reformas do ensino não pode ser reformar a instituição sem ter previamente reformado os espíritos, mas não se pode, reformar os espíritos se não se tiver previamente reformado as instituições.” (Morin, p. 202)

Neste sentido a possibilidade da não integração social por via da escola pode ser encarado como um desvio social. Seja o desvio em que matéria for, é um fracasso da sociedade global. Neste aspecto, deve-se à própria sociedade a falta de capacidade integradora. (cito) “... o papel da escola é o de ensinar a língua padrão, sendo que não ensiná-la sob a alegação de ser uma violência impor valores a um grupo ou de que imaginar que cada falante só aprende a falar um dialecto, é um equívoco relacionado a valores sociais dominantes ou a estratégias escolares discutíveis.” (9)

Para terminar direi que: qualquer facto social deve ser analisado numa óptica pluridisciplinar, porque cada uma das ciências mercê do seu objecto de estudo contribuirá para transformar o fenómeno social em fenómeno social total.


FIM



(7) - GOMES, Alberto Albuquerque, (org. Denize E. G. Silva e Josênia A. Vieira) - Análise do discurso percursos teóricos e metodológicos, Brasília: Editora Plano, 2002, p. 245.

(8) - MORIN, Edgar - Os problemas do fim do século, p. 200.

(9) - GOMES, Alberto Albuquerque, (org. Denize E. G. Silva e Josênia A. Vieira) – Análise do discurso percursos teóricos e metodológicos, Brasília, Editora Plano, 2002, p. 251-252.

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