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A bem da Nação

A CULPA AINDA É DOS PORTUGUESES!

 

 

A propósito de uma crónica de Arnaldo Jabor

“O discreto charme da Corrupção”

Jornal “O Globo” 24 de Maio 2011

 

 

Cheguei ao Brasil há 36 anos, já bem passado dos 40. Com razoável experiência de vida, e sempre, não só desapaixonado da política, como contumaz crítico.

 

Pouco tempo depois conheci uma “excelência”, deputado, que em meio de conversa com vários seus amigos, sobre o Brasil, sua situação, futuro, etc., pediu a minha opinião sobre o assunto, uma vez que eu chegara de fora, olhos novos, sem os ouvidos cheios da politiquice daqui.

 

Foi muito simples responder, com o conhecido provérbio chinês que diz: “Se os teus planos forem a um ano, planta arroz, se forem a dez planta uma árvore, mas se forem a cem, educa o povo!”

 

-“Cem anos...?!!! – Foi a exclamação de espanto e até de tristeza dos presentes. - “Cem anos para o Brasil entrar no futuro”?

- “E atenção! Cem anos a partir do momento em que se começar, a sério, a educar o povo”.

 

A verdade é que esse momento ainda não chegou, e parece estar para tardar, com as intelectuais iniciativas do MEC, como o ENEM esculhambado, Monteiro Lobato virando negreiro, e a ensinarem para que nóis fala mal, além da vergonhosa, infame cartilha explicando às crianças e adolescentes que sexo é para usar de qualquer forma!

 

A destruição da célula base de uma sociedade.

 

É evidente que não apoio qualquer forma de ditadura, mas não sou cego a ponto de deixar de ver o que se passa. Aqui, como por exemplo, em Portugal.

 

Não consta que houvesse este actual e permanente assalto à res publica no tempo dos militares, nem da ditadura portuguesa. Sempre houve ladrões e corruptos, aqui e em qualquer outro país do mundo, incluindo os evoluídos nórdicos. Mas ninguém pode levantar um só dedo que seja a qualquer dos generais que foram aqui presidentes.

 

Depois disso chegaram os pretensos democratas e a canalha revolucionária dos anos sessenta tomou conta do poder e das contas. Quantos membros do actual e anterior governo enriqueceram ou estão com processos nos tribunais?

 

Serão todos eles descendentes de portugueses, cujos avós eram ladrões, os bisavôs negreiros e os tataravós degredados?

 

Alguns têm nome português, como Fernando Pimentel, o que quis sequestrar o cônsul dos EUA em Porto Alegre. Mas e a dona presidenta? E o chefe da casa civil? E... tantos outros; serão todos descendentes de portugueses, ladrões, negreiros, etc?

 

E qual seria o problema de ser descendente de degredado? Não foi assim que se fez o imenso país que é a Austrália?

 

Outra pergunta que já uma vez fiz ao senhor Jabor e que, como costume, não teve resposta: “Porque o seu pai, sabendo desta desgraça toda, optou por emigrar para o Brasil? Não veio encontrar um país onde pôde educar o filho, dar-lhe conhecimento e cultura? Será que teria sido melhor que o Brasil tivesse sido colonizado por libaneses? Ou até por italianos – veja-se o exemplo da Etiópia e Eritreia – tipo berlusconiano?”

 

Ou alemães, ingleses, franceses, holandeses, espanhóis? Todos estes, nas regiões tropicais, deixaram o quê? Nada. Os portugueses deixaram o Brasil!

 

Não consigo entender porque o senhor Jabor, sempre que pode, insulta o passado dos portugueses!

 

Posso dizer-lhe que os meus dois avós, brasileiros, não foram ladrões. Um foi director duma companhia telefónica e acabou quase na miséria. O outro foi industrial e comerciante. Não conheci ninguém mais honesto.

 

Os bisavôs: um deles além de não ser negreiro, foi o fundador da primeira Sociedade de Emancipação de Escravos no Brasil, em Pelotas. No escritório dele reuniu-se esta Sociedade pela primeira vez, quando se alforriaram quatro escravas. O outro foi poeta e escritor, e no fim da vida era ajudado financeiramente pelo filho.

 

Tudo isto no Brasil.

 

E como é possível que o Brasil, estando no seu 189º ano de independência, ainda queira atribuir os seus descalabros de hoje a essa “herança maldita”?

 

O senhor, Arnaldo Jabor, sabe tão bem, ou muito possivelmente melhor do que eu, que tudo depende unicamente da educação. Em 189 anos o que tem proliferado são as faculdades privadas, fonte de lavagem de dinheiro e ensino abaixo de crítica, porque pertencem, quase todas à politicada.

 

Mas o alicerce, a instrução primária, é deixado ao descalabro, bem como a secundária, e até muitas escolas estão hoje nas mãos do MST, como sabe.

 

E o ensino técnico? Louvamos, só minimamente, alguns cursos do SENAI e SESC. Mas quando se sabe que, por exemplo, em França, um indivíduo que queira ser açougueiro, tem que fazer um curso de dois anos! Um soldador, quatro. E aqui?

 

Só falta citar nessa “herança maldita” o ter-se obrigado, ainda no século XVIII a que só se ensinasse nas escolas em português. Se isso não tivesse acontecido, teria havido uma pulverização de pequeninos brasis. No entanto, hoje, o MEC, quer que se ensine o tal “nóis tamo mais burro”!  E o ministro da educação será descendente de português?

 

Um país que renega o seu passado não tem futuro. Ciência antiguinha, mas uma grande verdade.

 

Depois que acabou o império britânico, foi a vez do império americano, dos yankees. Este já começou a agonizar. Está chegando o chinês. Depois a Índia. E o Brasil? Um país com tanta possibilidade! O Brasil não tem cultura nem tradição. Nem parece querer ter. Não tem suporte onde se agarrar. É por isso também que os pseudo revolucionários dos anos 60 não vingaram. Só tinham ideias importadas, e não ideais vinculados à terra de seus antepassados. O Brasil continua a ser a “terra dos outros”. Não dos índios, mas dos outros. Sempre dos outros. E isso é evidente ao ver como vota nas eleições. Por isso, apesar de ser uma potência emergente, faltam-lhe uns séculos de bom senso e educação de qualidade para se poder impor no cenário mundial, deixando de ser um exportador de matérias-primas, mas de ideias!

É verdade que o Brasil começa com as capitanias. Se o senhor fosse o rei de Portugal, como teria organizado esse começo de colonização? Mas, aqui para nós, foi muito mais fácil ter chegado aqui no século XX do que no XVI, não foi? E criaram-se igrejas, é verdade, o que teve a virtude de, durante muitos anos, unir o povo.

 

O que se faz hoje para transformar o Brasil num país sério, para não ouvir mais piadas de nenhum De Gaulle?

 

Critica-se Monteiro Lobato, paga-se vergonhosamente a professores primários e secundários, muitos dos quais não têm mais do que um miserável ensino primário, grande parte dos edifícios escolares mais parecem pocilgas, ignoradas pelas “autoridades”, mas ensina-se que todo o mal vem da colonização portuguesa.

 

Francamente, senhor Jabor, eu que sempre leio as suas crónicas, e o admiro, não posso acreditar que esteja falando sério ao querer desmontar assim o passado e os fundadores deste país.

 

Rio de Janeiro, 25 de Maio de 2011

 

 Francisco Gomes de Amorim

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