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A bem da Nação

ANATÓLIA – 2

 

 

Na Turquia, nós somos a paz telúrica!

 

Se o não fossemos, a terra não esperaria que puséssemos as rodas no ar de regresso a Portugal para tremer na Anatólia donde acabávamos de sair. Rezam as novas que o tremor foi benigno para as gentes, o que muito me reconfortou.

 

Nesta minha segunda visita à Turquia só não me foi dado diploma comprovando a frequência de um curso intensíssimo de História. E foi ao longo desse curso que testemunhei a violência dos terramotos que abalaram a Ásia Menor não deixando pedra sobre pedra e obrigando ao abandono de cidades inteiras. Foi o caso de Afrodisias, de Efeso, de Aspendos, de Simena e de tantas outras que ainda não regressaram aos mapas. Dizia o Padre Raphael Bluteau em 1712 que «hoje tudo são campos onde foi Tróia».

 

E se em Afrodisias as pedras apenas foram derrubadas mas não saíram do local, o mesmo não pode ser dito das demais em que a pilhagem assentou arraiais. Ironicamente, os maiores gatunos foram os arqueólogos que ficaram na História como os grandes e ilustres descobridores dessas cidades. Bastaria referir a vergonha por que passou Tróia às mãos alemãs de Heinrich Schliemann que na década de 1870 escavou a área transferindo para o Museu de Berlim a joalharia encontrada. E o nosso guia lá ia referindo os museus estrangeiros onde se encontram algumas das pedras (estátuas, frisos, etc.) que nos locais em que deveriam ter sido reerguidas foram substituídas por materiais modernos. Todos podemos assim testemunhar que os novos arqueólogos não andam por ali a enganar ninguém. E os actuais «escavadores» tanto são turcos como estrangeiros. Mas não são gatunos.

 

Tetrapylon, Afrodisias

 

Os campos de férias para intensificação das escavações decorrem normalmente no período do Verão mas nestes dias de Maio vi em Afrodisias a Universidade de Nova Iorque mantendo a actividade de remontagem dos elementos estruturais de diversos edifícios. A estatuária fica entretanto exposta no museu do próprio campus arqueológico aguardando pelo regresso à origem quando a reconstrução estiver concluída e a segurança do edifício assegurada. Basta comparar as fotografias do livro (1ª edição de 1989 à venda no museu) com o que observei para notar uma quantidade preciosa de trabalho no terreno. É claro que «a procissão ainda vai no adro».

 

E o mesmo se diga de Efeso em que a liderança dos trabalhos no terreno está a cargo duma Universidade alemã muito importante mas cujo nome me passou: escavações no Verão; remontagens e pormenores ao longo do ano. Lá estava um artista a fazer qualquer coisa no lintel da porta principal do prostíbulo, lá estavam gruas a erguer pedregulhos e lá estávamos nós, a multidão de turistas, a pagar o bilhete de ingresso para financiar todo o processo.

 

E que multidão era esta? Heterogénea, claro. Mas S. Paulo esteve em Efeso e foi aos efésios que dirigiu uma epístola solene. Foi na cena do enorme teatro que falou aos milhares que o escutaram e foi na prisão da cidade que aguardou pelo salvo-conduto que lhe restituísse a liberdade e lhe permitisse cumprir a sentença de expulsão. Sim, Efeso é hoje importante local de peregrinação cristã e bastou verificar a solenidade de muitos visitantes para percebermos que nem todos andavam ali de ânimo leve.

 

(*)

Teatro de Efeso onde S. Paulo pregou a nova Fé

 

 

Mas foi em Mira que testemunhei a Fé ortodoxa russa junto do túmulo de S. Nicolau: camionetas e camionetas de turistas russos empunhando uma pequena imagem vendida localmente que solenemente colocavam junto do túmulo do Santo enquanto – imagino eu – faziam alguma oração. Pode não ser a nossa mas é sempre com o maior respeito e emoção que observo as manifestações de Fé. Sim, eu sou dos que pensam que a Fé não se discute. E cumpro!

 

(**)

 Afinal, o «Pai Natal» era turco e foi bispo de Mira

 

Todos foram os dias em que regressámos aos hotéis de pernoita completamente estafados mas satisfeitos na perspectiva cultural. Mesmo assim, ainda conseguimos ter um dia para nadar sobre Simena, a cidade submersa na sequência de enorme cataclismo.

 

Como poderiam Conimbriga, Miróbriga e Balsa constituir instrumentos do desenvolvimento por que todos ansiamos? É claro que deve dar muito mais votos a distribuição de subsídios às companhias de teatro mesmo que estas nada interessem ao público...

 

Lisboa, Maio de 2011

 

Henrique Salles da Fonseca

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=https://1.bp.blogspot.com/_7-f0UlTmT6A/S7zU7IUh8OI/AAAAAAAAATM/CtMvVvJmQ80/s1600/ephesus_theater.jpg&imgrefurl=http://phronemata.blogspot.com/2010/04/efeso-um-estudo-historico-cultural-e_11.html&usg=__Me2qNlumsrlIL0s1jfJt1BWQuNw=&h=450&w=600&sz=75&hl=pt-PT&start=0&zoom=1&tbnid=EdmGKUgEJ6D5VM:&tbnh=124&tbnw=154&ei=bs_YTdL3JdGDhQfV9-m_Bg&prev=/search%3Fq%3Dteatro%252BEfeso%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=0&sqi=2&page=1&ndsp=20&ved=1t:429,r:6,s:0&tx=76&ty=76

 

(**)http://www.google.pt/imgres?imgurl=https://1.bp.blogspot.com/_PcUOJHJ3New/R3FKejn271I/AAAAAAAAD9A/zh7s4oTSl2U/s400/church-of-st-nicholas-postcard.jpg&imgrefurl=http://cronicasdaanatolia.blogspot.com/2007/12/o-pai-natal-nasceu-e-viveu-na-turquia.html&usg=__bC6adcVyMti6_jq10TmnJ8rlGlY=&h=242&w=350&sz=25&hl=pt-PT&start=0&zoom=1&tbnid=b5dPOX0xPW5h8M:&tbnh=120&tbnw=160&ei=WtHYTev6Ho2WhQf65I3LBg&prev=/search%3Fq%3Dchurch%252BS.%252BNicolau%252BMira%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DG%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=219&sqi=2&page=1&ndsp=24&ved=1t:429,r:0,s:0&tx=95&ty=80

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