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A bem da Nação

IN MEMORIUM: GENERAL BETTENCOURT RODRIGUES

 (*)

 

2MAI11

“A Guiné é defensável e deve ser defendida?

 Se sim, vamos escolher o melhor general

 disponível para a governar, vamos conti-

 nuar a fazer o esforço de lá manter os ho-

 mens necessários e de procurar dotá-los

 do material possível. Se não, prepararemos

 a retirada progressiva das tropas, para não

 prolongar um sacrifício inútil, designando

 um oficial – general, possivelmente um

 brigadeiro, para liquidar a nossa presença.”

 Marcello Caetano, a Costa Gomes

 Depoimento, pág. 180

 

           

 

Os três grandes generais das guerras liberais foram Saldanha, Terceira e Sá da Bandeira. Os três exerceram também funções governativas. Dos três, e no conjunto das características humanas, Bernardo de Sá Nogueira era, incontestavelmente, o mais completo, o melhor. Chegou a Marquês, enquanto os outros dois subiram a Duque. Nem Sebastião José chegou a tanto. A História tem destas coisas…

            No passado dia 28 de Abril, deixou o número dos vivos o General José Manuel Bettencourt da Conceição Rodrigues. Foi o melhor general de todo o século XX português. A afirmação só me compromete a mim e não pretende ser desmerecedora para qualquer outra figura.

            Bettencourt Rodrigues (BR), nasceu no Funchal, em 1918 – era também conhecido pelo “Zé da Ilha”, uma daquelas designações que enchem o mundo da camaradagem militar – ia completar 93 anos, em 5 de Junho. BR gostava de viver e teve uma vida cheia, mas não se lhe conhecem vilanias.

           A sua carreira militar foi brilhante e culminou com a nomeação, em Setembro de 73, para Governador e Comandante-Chefe da então Província da Guiné, onde o 25 de Abril de 74, o foi encontrar. Declarando não desejar aderir ao golpe de estado em curso, foi preso e transferido para Cabo Verde, com outros oficiais.

            Já na Metrópole e nada havendo de que o acusar foi, apesar disso, saneado pela mão do próprio General Spínola. Passou à reserva em 14 de Maio desse ano. Enfim, comportamentos que contam para o passivo da “revolução”.

            Desde então BR remeteu-se ao anonimato, não intervindo em nada, não se queixando de nada e recusando qualquer eventual cargo público. Apenas aceitou ser Presidente da Direcção da sua muito querida Revista Militar, cargo que ocupou durante 10 anos e do qual saiu por vontade própria, pois entendia que as pessoas não deviam ficar demasiado tempo à frente das instituições. Uma das muitas atitudes de lucidez e humildade que lhe conheci.

            BR entrou para a então Escola do Exército, em 1936. Cursou Infantaria – a “Rainha das Batalhas” – sendo o 1º classificado do seu curso; entrou para o então Corpo de Estado-Maior, em 1951, com a classificação de “distinto”; frequentou o”Command and General Staff College”, Fort Leavenworth, EUA, em 1953; foi adido de Defesa em Londres; comandou o Regimento de Artilharia 1; foi Chefe de Estado-Maior do QG, em Angola, no início da guerra subversiva – onde esteve na origem da formação das primeiras tropas “Comando” – mais tarde comandou a frente leste, em Angola (70-73), onde as tropas sob a sua liderança esmagaram as forças inimigas e praticamente acabaram com a guerrilha, ao mesmo tempo que se promovia uma notável acção psico – social. E ainda teve tempo para, no intervalo da sua intensa actividade militar, ter feito parte do último governo do Prof. Salazar, como Ministro do Exército, transitando para o primeiro governo do Prof. M. Caetano, entre 1968/70, na sequência do curso de Altos Comandos, onde obteve a classificação de “muito apto”.

            Finalmente – não cabe neste escrito fazer a radiografia de toda a sua folha de serviços – quando a situação se tornou delicada no teatro de operações da Guiné, o governo foi procurar o melhor general disponível para tão ingente tarefa e escolheu-o, a ele. Não escolheu um “oficial general de baixa patente” para liquidar a situação…

            A situação era, de facto, delicada mas menos por acção do inimigo. É certo que a última grande ofensiva do PAIGC, congeminada em Conakri por instrutores cubanos e soviéticos, e iniciada dois meses depois do assassinato de Amílcar Cabral (20/1/73), sem dúvida levado a cabo por elementos da ala mais dura e marxista do movimento que aquele liderava, tinha deixado marcas nas FAs portuguesas. Mas foram estas que ganharam a batalha não o PAIGC…

            Mais grave teria sido o ambiente de desmoralização e até de revolta que tocou alguns oficiais do QG, em Bissau, originadas nas desavenças entre o Comandante - Chefe, Spínola e o Chefe do Governo, Caetano.

            Foi esta a situação (muito resumida) que o novo governador, BR encontrou quando chegou a Bissau. Não se pode ter certezas quanto ao evoluir de acontecimentos históricos que são subitamente interrompidos, mas estamos em crer que BR iria sair vitorioso dos desafios com que se confrontava.

            E tal convicção radica-se na afirmação supra de o considerar o melhor general português do século XX. Porque o afirmamos?

            BR obteve sucesso em todas as missões de que foi incumbido e reunia em si, um conjunto de características raríssimas de se juntarem na mesma pessoa.

            Ao chegar ao topo da carreira BR possuía, em simultâneo, a competência operacional e de comando de tropas, tanto em tempo de paz como em campanha, e uma elevada aptidão para trabalhos de planeamento e estado-maior. BR conhecia o género humano, sabia escolher os homens e não era afectado pela lisonja. E para um homem que tinha ocupado os maiores cargos, não se lhe vislumbrava uma ponta de afectação ou de vaidade.

            Tinha uma enorme capacidade de trabalho e a sua integridade e carácter eram à prova de bala. Era um português inteiro e, num país de tricas e azedumes constantes, gozava do raro privilégio ao respeito geral. De facto nunca ouvi “dizer mal” do general em qualquer ambiente. BR nunca prejudicou o seu país, ilustrou-o, e nunca manchou a Honra da Instituição Militar.

            Ora tudo isto configura uma personagem notável que, infelizmente, as novas gerações de oficiais e sargentos já não conhecem.

            A sua memória está apenas registada numa das salas de aulas do actual Instituto de Ensino Superior Militar, em Pedrouços, onde foi ilustre professor.

            À semelhança de Sá da Bandeira que não foi a Duque, BR, não foi a Marechal. A História tem destas coisas…

            Morreu um grande general português – que o seria também nos exércitos mais afamados – a Infantaria perdeu um dos mais dilectos descendentes do seu Patrono, o grande Nuno; o Exército viu desaparecer um dos seus comandantes mais ilustres e a Nação ficou pobre de um dos seus melhores filhos.

            Eu perdi um exemplo e um amigo.

            Guardarei, porém, um orgulho: o de poder dizer que o conheci.

            Foi das melhores coisas que me aconteceram na vida.

            Vai fazer-me muita falta.

 

 

José Brandão Ferreira

       TCor/Pilav(Ref.)

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://www.operacional.pt/wp-content/uploads/2011/05/foto-tgen-bethencourt-rodrigues-a-copy.jpg&imgrefurl=http://www.operacional.pt/in-memorium-general-bettencourt-rodrigues/&usg=__hBTfAcJczoadTvZl_eZbKVb43Fk=&h=448&w=324&sz=114&hl=pt-PT&start=0&zoom=1&tbnid=8fyfWWwwpBWngM:&tbnh=125&tbnw=115&ei=0CXWTd7APIKKhQf9jLnEBg&prev=/search%3Fq%3DGeneral%252BBettencourt%252BRodrigues%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=109&sqi=2&page=1&ndsp=25&ved=1t:429,r:4,s:0&tx=53&ty=72

 

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