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A bem da Nação

AS CAUSAS DO DESEMPREGO NA EUROPA

 

 

A Europa tem uma taxa de desemprego relativamente alta que, nalguns países, como a Espanha, atinge valores muito elevados. A União Europeia considera esse problema importante (certamente que o é) e está incluído na agenda da presidência portuguesa. Não conheço o que está preparado e só sei o que li nalguns jornais sobre as intenções relativas à forma de atacar o problema. Mas talvez seja útil procurar as causas do mal, para melhor aplicar a terapêutica.

 

Na década de 1960, depois de se falar no "atraso científico" da Europa em relação aos Estados Unidos, passou a falar-se no "atraso tecnológico", pois as empresas europeias eram frequentemente batidas pelas americanas, que trabalhavam com tecnologia mais avançada.

O então Secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert MacNamara, na sequência duma visita à Europa, fez em 27 de Fevereiro de 1967 um discurso que ficou famoso. Nesse discurso afirmou que o que tinha visto era um "atraso de gestão" ("managerial gap"), porque, tendo bons cientistas e bons operários, o que havia era uma gestão muito deficiente, que não era capaz de criar e desenvolver empresas eficientes.

 

(A propósito da ciência, comentei esse discurso no artigo “Atraso científico e atraso administrativo”, publicado no “Jornal do Comércio” de 2/3 de Setembro de 1967, posteriormente transcrito no livro”Problemas da Investigação Científica. Problemas da Agricultura”, editado em 1969)

 

Do que observamos, pode concluir-se que o desemprego europeu é o resultado precisamente duma incapacidade de gestão, a diferentes níveis. Há falta de iniciativa e capacidade para criar novas empresas - e há tanto por fazer! - e falta de capacidade de gestão para imprimir às empresas existentes a eficiência e o desenvolvimento necessários a uma tecnologia moderna e eficiente.

 

O exemplo dum caso concreto poderá ajudar a compreender esse atraso de gestão, causador dum atraso tecnológico.

 

Há tempos fui procurado por um colega que, embora aposentado duma grande empresa, continuava a dar-lhe colaboração. Desejava saber mais informações sobre "transgénicos", porque estavam a considerar entrar na sua produção. Mas logo me informou que o que iriam fazer era algo de pequena dimensão porque, disse, "não podemos competir com a Monsanto".

 

Lembrei-lhe que, há algumas décadas, a empresa dele era muito maior do que a Monsanto. Mas, embora tivesse uma grande parte (talvez a maior) dos seus produtos destinados à agricultura, nunca teve senão um pequeno arremedo de investigação agronómica. Se os seus gestores tivessem tido a capacidade necessária, a empresa teria ganho muito mais dinheiro - com transgénicos e não só - e seria hoje bem mais importante do que a Monsanto.

 

Se Portugal quer desenvolver-se mais - e o desemprego, aqui, embora menor do que a média da União Europeia,(1) é bem superior ao dos Estados Unidos - deverá treinar e escolher muito bem os gestores, a todos os níveis. E, particularmente nas empresas do Estado ou em que ele tem participação, deixar de nomear gestores por quaisquer critérios partidários (ou das variadas outras forças que manobram por detrás da cortina) estimulando e privilegiando a competência e a capacidade.

 

O assunto do desemprego vai estar proeminente durante a presidência portuguesa da União Europeia, a decorrer. Para além das "estratégias" que se anunciam, será importante estimular e pôr ênfase na capacidade de gestão, tanto nas grandes empresas (onde a boa gestão, em vez de admitir pessoal à toa, o que leva aos despedimentos posteriores, cria empregos reais e necessários) como na criação de pequenas empresas (muitas das quais poderão crescer enormemente, como foi o caso da Microsoft), nos múltiplos sectores onde há uma ampla margem para trabalhar.

 

 Miguel Mota

 

_______________

(1)   Lembro que isto foi escrito no ano 2000. Hoje é o que se sabe...

 

 

Nota do Autor - Em 12 de Maio de 2000 publiquei no jornal "Linhas de Elvas" o artigo acima transcrito. Como se sabe, o problema agravou-se enormemente e confere ainda maior actualidade ao que então escrevi.

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