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A bem da Nação

Curtinhas LXXXVI

ARBEIT MACHT FREI

 

 

v      Está bem enraizada na mente de todos nós, creio que desde tenra idade, o modo virtuoso, exemplar e, diria mesmo, único como os alemães gerem as suas finanças.

 

v      Ideia que nem o facto de os Orçamentos por lá também derraparem (como em 2002) e de um ou outro Banco Alemão ter passado por maus momentos (o Herstatt Bank, que desencadeou a crise financeira internacional de 1974 e faliu; mais recentemente, do HVB/Hypo Vereinsbank, grande cliente dos “produtos tóxicos” made in USA, que teve de ser salvo não uma, mas duas vezes no lapso de uns poucos meses; para não falar já das peripécias em torno do Dresdner Bank e de alguns Landesbanks) consegue turvar.

 

v      A proeminência alemã é, assim, vista como a feliz conjunção de uma capacidade industrial e científica difícil de rivalizar com uma disciplina férrea em matéria de políticas monetária e orçamental. Disciplina que Frau Merkel quer impor como cartilha à UE (ou, pelo menos, à Zona Euro) - no convencimento de que, qualquer que seja a economia, os resultados serão sempre decalcados dos da ortodoxia alemã: virtuosos, exemplares e únicos.

 

v      Contudo, já nos anos ’90, quando da “serpente europeia” (o European Exchange Rate Mechanism, iniciado em 1979, que fixava as taxas de câmbio centrais entre as principais moedas europeias, permitindo-lhes uma estreita faixa de flutuação; com a saída do Reino Unido e a crise da Stirling Pound, em 1992, deu lugar ao European Monetary System - e, no final da década, ao €) era evidente para alguns que o DMark não se valorizava tanto quanto seria de esperar de tamanho rigor monetário e fiscal. Com o que a indústria alemã, aliás, muito folgava (as políticas sustinham os custos unitários do trabalho; uma moeda nacional não tão forte assim reforçava a competitividade externa).

 

v      Aos olhos mais atentos não passava despercebido:

-             Que outros Estados Membros (a França e a Itália, sobretudo) adoptavam, talvez por hábito, políticas monetárias e orçamentais bem menos ortodoxas (isto é, mais acomodatícias), estimulando assim as respectivas procuras internas e criando mais mercado para as exportações germânicas (a quase ausência de risco cambial associada à “serpente europeia” facilitava as coisas);

-             Que a Alemanha reexportava para a CEE a parte maior dos superavits da sua BTC, ora como investimento directo, ora como investimento de carteira, ora como capitais monetários (empréstimos Banco a Banco);

 

v      Difícil era identificar a causa e o efeito: se era a Alemanha a esterilizar a largesse franco-italiana; ou se eram estas economias a pouparem os alemães às consequências inevitáveis de tão estrita ortodoxia.

 

v      Verdade seja dita que a indústria alemã (potenciada por “Ossies” a preço de saldo e pelo aproveitamento da mão de obra barata, mas bem preparada, nos países do Leste Europeu) foi, no contexto da CEE, a que melhor soube aproveitar de todas as circunstâncias que iam surgindo no processo de integração económica europeia. Mas, tanto uma agricultura eficiente e fortemente subsidiada, como um esquema de seguro de créditos à exportação (Hermes, a maior Agência a nível mundial) com grande músculo financeiro, ajudaram bastante.

 

v      Visto isto, cabe perguntar: “O que acontecerá à Zona Euro se todas os Estados Membros forem, por fim, tão virtuosos quanto a Alemanha?”

 

v      Três cenários são possíveis:

-             Cenário 1 – Todos os países do €, na peugada da Alemanha, conseguem, ano após ano, superávits da BTC com os países fora da Zona Euro. E das duas uma: ou competem entre eles, roubando mercado uns aos outros, tornando o Cenário mais difícil de concretizar; ou cada um tem a sorte de encontrar o seu nicho de mercado, na geografia e na actividade. De qualquer modo, os superavits teriam de dar lugar a exportação de capitais e aos inerentes riscos de toda a ordem (riscos a que a Alemanha tem sido, em larga medida, poupada, graças à UE e Zona Euro). Ficariam por resolver em todos eles: uma agricultura subsidiada e a cobertura dos riscos de crédito na exportação. Ah! E a cotação do € dispararia por aí acima.

-             Cenário 2 – Como que se dá uma divisão de trabalho no interior da Zona Euro: de um lado, as economias que se especializam nas exportações para terceiros países; de outro, as economias que participam nos processos produtivos daquelas, para onde passam a exportar. E os países com BTC superavitárias relativamente ao exterior da Zona Euro começam a partilhar esses saldos com os restantes, não através da exportação de capitais (como acontecia nos tempos da “serpente europeia” e aconteceu no passado recente), mas da importação de bens e de serviços. É certo que as exportações de capitais para outras paragens não seriam muito diferentes das que são hoje, tal como com as pressões sobre o €. Mas duvido que seja isto o que Frau Merkel tem em mente quando argumenta a favor de um “pacto de competitividade”.

-             Cenário 3 – Alguns países não conseguem saltar a “barreira da competitividade” e, aí, o ajustamento entre rendimento real e emprego faz-se por meio da emigração para a Alemanha e outras economias bem sucedidas. Dito de outra maneira, as economias que não descolarem passam a ter gente a mais (consequência a que R. Mundell, o pai das “zonas monetárias óptimas”, e a teoria não deram uma importância por aí além).

 

v      Temos, então, um cenário irrealista (o Cenário 1), um cenário politicamente inadmissível (o Cenário 3) e um cenário que não deixa a Alemanha (nem, em geral, as economias mais competitivas da Zona Euro) de fora das exigências de ajustamento estrutural (o Cenário 2).

 

v      Os números (em 31/12/2010) lançam alguma luz sobre esta discussão. Vejamos:

-             Os Bancos Alemães estão expostos: à Dívida Externa Portuguesa em € 20 mM (€ 6 mM de Dívida Soberana e € 14 mM de Dívida Bancária); e à Dívida Externa Espanhola em € 90 mM (€24 mM de Dívida Soberana e €66 mM de Dívida Bancária)

-             Os Bancos Franceses, por sua vez, estão expostos: à Dívida Externa Portuguesa em € 24 mM (€ 13 mM de Dívida Soberana e € 11 mM de Dívida Bancária); e à Dívida Externa Espanhola em € 78 mM (€37 mM de Dívida Soberana e €41 mM de Dívida Bancária)

-             O BCE está exposto: ao risco Portugal em € 62 mM (€ 21 mM de Dívida Soberana e € 41 mM de Dívida Bancária); e ao risco Espanha em € 65 mM (tudo Dívida Bancária)

-             Os Bancos dos restantes países da Zona Euro correm riscos mais modestos na Dívida Externa Portuguesa (€ 25 mM), mas têm uma exposição já apreciável na Dívida Externa Espanhola (€ 64 mM

 

v      Assim, a situação financeira de Portugal é temida, não tanto pela sua dimensão própria (€ 131 mM), mas por ser o detonador de uma crise financeira em Espanha (€ 297 mM).

 

v      É compreensível, pois, que tanto a França como a Alemanha (cujos sistemas bancários são o epicentro da Zona Euro e o suporte do BCE) tentem tudo para que a desgraça financeira dos países ibéricos não se traduza em fortes rombos (coisa próxima do melt down) nos seus Bancos nacionais.

 

v      Já é mais discutível se a solução encontrada de penalizar unicamente os devedores, deixando incólume quem não soube medir os riscos financeiros a que voluntariamente se expunha e quem não foi competente na supervisão das actividades a que os seus Bancos se dedicavam, respeita um módico de equidade.

 

v      E é totalmente inaceitável que, em plena crise grega, Alemanha e França tenham insistido com a Grécia para que este país recebesse e pagasse o equipamento militar anteriormente encomendado – sem o que, nada feito.

 

v      Como, por cá, está a acontecer com o TGV. Pensa, Caro Leitor, que é só mais uma birrinha do nosso PM demissionário?

Palhinha Machado.jpg A. Palhinha Machado

 

Março 2011

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