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A bem da Nação

ALENTEJANANDO – 4

 

A INESPERADA RECUPERAÇÃO DO PORTUGUÊS EM OLIVENÇA


(RESUMO DE ACONTECIMENTOS DE TRÊS ANOS: 2008-2011)

 

 

Portugal é um País de contradições. Ambiciona ser conhecido, reclama que a sua cultura é pouco divulgada... mas, contraditoriamente, parece envergonhar-se de assumir manifestações concretas da sua cultura.
   

Desde 2008 (em Março de 2011, celebra-se o terceiro aniversário), algo de novo surgiu no panorama cultural português... ou, se se quiser, lusófono.

 

Previamente, a União Europeia chamou a atenção para a falta de protecção de que a Língua Portuguesa era vítima por parte do Estado Espanhol em Olivença e Táliga (antiga aldeia de Olivença).

 

Mais importante, na própria Olivença, um grupo de locais fundou a Associação "Além Guadiana", que, sem se preocupar com a questão, que se mantém, algo discretamente, sobre a soberania legal (ou efectiva) sobre a Região, decidiu meter "mãos à obra", e começar a lutar pela recuperação da sua cultura e da sua História.

 

Entenda-se: Cultura e História portuguesas.
   

Menos de um ano sobre a sua fundação, o grupo conseguia, em 28 de Fevereiro de 2008, organizar uma "Jornada do Português Oliventino", que decorreu na Capela do Convento português de São João de Deus (em Olivença, naturalmente).


Quer se queira, quer não, fez-se História: pela primeira vez desde 1801, a Língua Portuguesa manifestava-se livremente em Olivença, com a "cobertura" das autoridades espanholas máximas a nível local e regional. Quase 200 pessoas foram testemunhas disso, entre as quais o arqueólogo Cláudio Torres, o "herói" do mirandês Amadeu Ferreira, e outros!


Vale a pena fazer um resumo do que então se passou.




A JORNADA DE FEVEREIRO DE 2008


Falou primeiro o Presidente da Junta da Extremadura espanhola, Guillermo Fernández Vara. Curiosamente, um oliventino. Foi comovente ouvi-lo confessar
que, na sua casa paterna, o Português era a língua dos afectos.  

O Presidente da Câmara de Olivença, Manuel Cayado, falou em seguida.

Joaquín Fuentes Becerra, presidente da Associação "Além Guadiana", destacou e insistiu no aspecto cultural da Jornada.

Juan Carrasco González, um conhecido catedrático, falou depois.
Seguiu-se Eduardo Ruíz Viéytez, Consultor do Conselho da Europa, que explicou as recomendações críticas deste, ao Estado Espanhol, em relação ao Português de Olivença. 

Falou depois Lígia Freire Borges, do Instituto Camões, que destacou o papel da Língua Portuguesa no mundo.

Após o almoço, foi a vez de ouvir a voz de alguns oliventinos, em Português, bem alentejano no vocabulário e no sotaque, não faltando críticas e denúncias de situações de repressão linguística não muito longe no tempo.
Falaram depois Domingo Frade Gaspar (pela fala galega) e José Gargallo Gil (Línguas minoritárias).
Seguiu-se Manuela Barros Ferreira, da Universidade de Lisboa, que relatou a experiência significativa de recuperação do Mirandês.

Falou finalmente o Presidente da Câmara Municipal de Barrancos, a propósito dos projectos de salvaguardar o dialecto barranquenho.
No final, foi projectado um curto filme sobre o Português oliventino, realizado por Mila Gritos (Milagros Rodrígues Perez). Nele surgiam oliventinos a contar a história de cada um, sempre em Português.
Deu por encerrada a sessão Manuel de Jesus Sanchez Fernandez, da Associação Além-Guadiana.

Os assistentes e os promotores da Jornada abandonaram o local, já de noite, convictos de que tinham assistido a algo notável.
     

Estava dado um passo de gigante para a recuperação de cultura lusa em Olivença.
     

Cerca de um ano, um pouco mais, depois, nova surpresa!


   
TOPONÍMIA EM PORTUGUÊS

 

A Câmara Municipal de Olivença decidiu começar a recuperar os antigos nomes em português das ruas da localidade. A iniciativa partiu, claro, da associação cultural Além Guadiana que apresentou à Câmara e aos diferentes representantes políticos de Olivença um projecto pormenorizado para a valorização da toponímia oliventina, com unânime aceitação.


O projecto, com início a 12 de Junho de 2010, e que prossegue, estando já quase concluído em Janeiro de 2011, contempla a adição dos antigos nomes das ruas aos actuais, mantendo a mesma tipologia e estética nas placas. Assim, resgatam-se as denominações das ruas, dos becos, das calçadas, etc., que configuram o conjunto histórico encerrado nas muralhas abaluartadas, com um total de 73 localizações.


Recorde-se que a maior parte da toponímia urbana de Olivença foi substituída ou modificada na primeira metade do século XX, embora quase todos os nomes continuassem a ser utilizados pela população apesar das alterações, como nos casos da rua da Rala, da rua da Pedra, da Carreira, etc.
   

A Associação "Além Guadiana", num comunicado, esclarecia: «os antigos nomes das ruas falam-nos do passado português da "Vila", como popularmente é conhecida a cidade, desvelando aspectos diversos, amiúde desconhecidos, da sua História.

Estes remontam a séculos atrás, muitos deles à Idade Média, aludindo a pessoas ilustres da História, a antigos grémios de artesãos, a santos objecto da devoção popular ou à fisionomia das ruas, entre outros aspectos. A rua das Atafonas, a Calçada Velha, o Terreiro Salgado e o beco de João da Gama são alguns exemplos.
   

Mais dizia o comunicado. «Com esta iniciativa pretende-se, enfim, realçar um interessante componente da rica herança cultural oliventina, a toponímia, contribuindo para testemunhar a história partilhada deste concelho e para a tornar visível em cada recanto intramuros. Os nomes ancestrais dos espaços públicos conformam uma janela que convida a assomar-se e a explorar a apaixonante história de Olivença. Expressados na sua originária língua portuguesa, constituem o testemunho vivo de uma cidade onde se respiram duas culturas e são um veículo que encoraja os mais novos a manter a língua que ainda falam as pessoas mais velhas do município. Para a associação Além Guadiana, trata-se de uma iniciativa com fins didácticos, culturais e turísticos, com a qual se resgata para o presente uma parte do passado oliventino.

 

UMA ESPÉCIE DE «DIA DE PORTUGAL»... DOIS DIAS DEPOIS

 

A inauguração das primeiras ruas com os nomes em Português, teve lugar no meio de uma espécie de festival promovido pela Associação citada, denominado «Lusofonias». No sentido de promover a cultura e a língua portuguesa, a organização do evento elegeu como imagens promocionais da iniciativa Amália Rodrigues, Fernando Pessoa e Vasco da Gama.


A "Além Guadiana" justificou estas escolhas: «São ícones de Portugal e da sua História. Como curiosidade posso dizer que os familiares de Vasco da Gama são originários de Olivença e desta forma vamos relembrar esse facto.»
   

A iniciativa cultural contou com a colaboração do Ayuntamiento de Olivença, da Associação para o Desenvolvimento Rural da Comarca de Olivença e da Junta da Estremadura e consistiu ainda num vasto conjunto de actividades, entre as quais se destacaram peças de teatro, música, literatura e animação de rua.

 

Em paralelo, houve uma zona reservada a exposições, onde estiveram artesãos, um espaço dedicado à gastronomia e a instituições do espaço lusófono, bem como trabalhos ao vivo e animação musical a cargo de grupos de Portel (Évora).
   

Procedeu-se a uma leitura pública contínua em português, na qual participaram oliventinos de todas as idades lendo ou recitando na língua de Camões. Este foi um dos pontos altos que a organização destaca deste dia dedicado ao mundo lusófono.
   

Durante a manhã ocorreu também uma demonstração de folclore, através do grupo "La Encina" de Olivença e a actuação das Cantadeiras de Granja (Évora).
   

No período da tarde foi projectado no Espácio para la Creación Joven, o filme "O Leão da Estrela" e houve actividades de animação nas ruas, bem como ainda a actuação dos alunos de português da escola pública Francisco Ortiz, de Olivença.

A "Estória da Galinha e do Ovo" e "O Canto dos Poetas", ambos interpretados pela associação "Do Imaginário" de Évora, foram dos atractivos desta iniciativa promovida pela associação "Além Guadiana".


UM MERCADO MENSAL

 

O final de 2010 e o princípio de 2011 viram realizar-se mais uma iniciativa deste prolixo grupo oliventino: um mercado mensal de artesanato e antiguidades portuguesas. O primeiro efectuou-se a 11 de Dezembro de 2010, o segundo a 8 de Janeiro de 2011. O terceiro em 12 de Fevereiro de 2011.
   

Pela primeira vez, em mais de duzentos anos, ressurgiu o mercado antigo tradicional de Olivença que era aos Sábados, nas suas características originais. Na verdade, este evento efectua-se num local distinto do mercado mais convencional (Adro da Igreja manuelina da Madalena), que é no mesmo dia da semana.
   

Foi curiosa a primeira edição, não só pelo afluxo de interessados, mas também por algumas das motivações expressas. Muitas louças tradicionais (do Redondo, por exemplo), e mobiliário, também tradicional, foram adquiridos porque lembrava aos compradores objectos vistos em casa de antepassados seus, onde constituíam uma espécie de relíquias. Note-se que, na falta do seu tradicional mercado, muitos oliventinos, durante mais de cem anos, se deslocavam a Elvas ou a outras localidades, procurando obter os produtos (então de utilidade doméstica, ou de decoração) a que estavam tradicionalmente habituados.


INTEGRAÇÃO NA LUSOFONIA

"A língua de Camões fala-se ininterrompidamente em Olivença desde finais do século XIII". Estas são palavras do Presidente da Associação Além Guadiana, o já citado Joaquín Fuentes Becerra, "Este, o mais importante legado português. Até meados do século XX, 150 anos após a mudança de nacionalidade, a língua maioritária era o Português, apesar de não ter tido qualquer apoio institucional". Becerra acrescenta que, hoje em dia, para além de conservada pelos mais velhos, a língua portuguesa já está a ser ensinada nas escolas. "Estamos no caminho correcto, mas faz falta uma aposta mais forte para que a língua portuguesa não se perca em Olivença. A língua é tudo". E, sem abordar aspectos políticos, Becerra reclama para a localidade a sua "INTEGRAÇÃO NA LUSOFONIA".
   

Parece que algo de novo, e talvez um tanto inesperado, está a surgir no espaço lusófono. Ignorá-lo, fingir que não existe, começa a ser impossível.

 

E insuportável!
   

Estremoz, 27 de Janeiro de 2011

 

Carlos Luna Carlos Eduardo da Cruz Luna

 

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