DA CRISE SOBERANA
Três depoimentos e uma conclusão
I
George Soros diz no Financial Times (21 Março 2011) o que adiante se resume:
A Alemanha tem estado a resgatar os países altamente endividados como forma de proteger o seu próprio sistema bancário. No início do Euro, os bancos alemães foram obrigados a deter dívida soberana por necessidade de reduzir níveis de liquidez interna. Isto produziu um tsunami de crédito nos países periféricos que decidiram fomentar o consumo: - viver à grande, gastar à tripa forra. Sonho de pobre. O resultado foi um crise bancária que pôs em risco sobretudo os bancos alemães. Tornar sacrossanta a dívida soberana interessa antes do mais aos financeiros alemães. É a forma de se salvarem.
Os diferentes Estados da Eurolândia formaram opiniões bastante diferentes da crise e as suas políticas reflectem mais essas opiniões do que uma visão do interesse nacional e, menos ainda, interesse colectivo europeu. A Alemanha tem sido hábil ao fazer esquecer que a crise não é apenas soberana mas sobretudo cambial e bancária. O problema porém é que as diferenças de opinião persistem e, a seu tempo, degeneram em conflito.
Soros propõe:
1- Colocar os bancos em pé de igualdade como os Estados e submetê-los também a fiscalização central europeia.
2 - Permitir os eurobonds, como solução de emergência. Assim os países deficitários não serão imediatamente asfixiados e poderão - mediante trabalho e austeridade - sair do buraco em que caíram.
II
Hans Werner Sinn presidente do International Financing Office, em declarações ao Económico de 20 de Março dizia:
" Claro. O problema está nos dois lados. O fluxo de capital ia da Alemanha para a periferia. Irlanda, Portugal, Espanha e Grécia faziam parte dos países que investiam e consumiam o crédito que vinha da Alemanha. Este fluxo de crédito criou um ‘boom' e um défice externo nesses países. A Alemanha ficou para trás. As importações foram esmagadas, os preços e os salários cresceram pouco e isso trouxe um excedente nas contas externas. Este processo está a chegar ao fim".
III
Em entrevista ao PUBLICO (17 corrente), Amartya Sem, Nobel da Economia põe a claro com total simplicidade e relevância que o erro da abordagem regeneradora reside no timing da acção: o «médico» entrou a matar quando o doente estava debilitado; em vez disso, deveria ter fixado objectivos e dilatado o prazo para a sua execução.
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Temos pois que "o facto de estarmos errados não significa que os outros estejam certos".
Luís Soares de Oliveira
