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A bem da Nação

ERAM CRAVOS, ERAM ROSAS...

 

 

De repente Darwin faz anos, e Portugal, descobrindo-se modernaço

e europeu, põe-se em bicos de pés a celebrá-lo com entusiasmo,

esquecido já do avozinho Marx a quem ainda há pouco beijava ternamente.

(Neo)darwinistas explicam-lhe o comportamento humano, pois a ciência

justifica agora a nossa animalidade, visto verdade e ciência serem, na

sua percepção, irmãs gémeas, ou sinónimas, para usarmos mais rigorosa linguagem.

De Marx a Darwin: A Desconfiança das Ideologias, de

Onésimo Teotónio Almeida, Lisboa, Gradiva, 2009, 184 pp. (*)

 

ÉCLOGA DO CHAMAMENTO

 

Eram cravos, eram rosas,

Flores políticas d'eleição.

Símbolos perfumados

Da Liberdade,

Conseguida com a Revolução.

Odores, enfim, tão suaves,

Que atraiu políticos mil,

Para o serviço da Nação.

Um deles, de seu nome Prometeu,

Entre outros,

Que, sem entraves,

Se banquetearam com o Orçamento,

A justificar as oportunidades de Abril.

Passou a ser tal o tormento,

Que, desesperados,

Assim falaram.

 

ORÇAMENTO

 

Estou a braços com uma dívida abissal,

Dita importante, soberana,

Que me puseram neste estado

D'ansiedade esburacante,

Tal é o buraco desonroso

Em que estou metido.

Este estado do Estado,

Situação assaz insana,

É de falido! É de falido!

Impressionante!

Por tua culpa Prometeu,

Estou monstruoso,

Em crise provocada

Por excessos,

Dos mais diversos.

 

PROMETEU

 

Por minha culpa, sandeu?

Quando estás gordo e anafado?

Que eu saiba já existias,

Assim gorduroso.

Já vieras de outras partes,

De outras repúblicas tardias,

E de outros regabofes.

Fostes permitindo a engorda,

Que outros prometeus de ofício,

Príncipes consortes,

Não tiveram qualquer resquício,

Em consumir e... consumar.

E, agora, gordo como estás,

Só pensas em reclamar?

Há que fazer sacrifício,

Em benefício,

Do Estado Social.

Da dieta.

Para o Bem e para o Mal,

Estamos metidos nisto,

Afinal,

A grande meta.

 

ORÇAMENTO

 

Há eu estou gordo, forte?

Estou talvez, à beira da Morte,

Assim atafulhado, inchado.

É fatal!

E quem é que me pôs assim monstruoso?

Foi quem me prometeu melhor Sorte!

Quem mentiu?

Quem arrostou...

Prefiro dizer... arrotou blasfémias?

Quem engendrou promessas eleitorais,

Com descaramento inaudito

E falhou?

Estou aqui cheio de ténias,

Nos meus intestinos:

Fundações,

Institutos,

Direcções-Gerais,

Entidades Reguladoras...

E sabes que mais?

Preciso de emagrecer,

Senão, vou morrer,

Por causa das tuas políticas,

Opressoras.

Evacuar as ténias intestinais,

Que me corroem, mas não me emagrecem.

Estou dependente das malhas

Que, no Império se tecem,

Das falhas dos políticos,

Que não merecem,

Sentar-se mais à minha mesa.

 

PROMETEU

 

Que tristeza!

Não vais nada morrer.

Anima-te, pois, porque sem ânimo,

Eu perco as próximas eleições

E ainda tenho umas ilusões,

Fiado que este tormento

Vai cair no esquecimento.

A populaça

É esquecida,

E, em pouco tempo,

Não se lembrará de que foi ferida.

 

ORÇAMENTO

 

Eleições?

Isso é mais uma pipa de massa

Para gastar.

Não podes parar?

Que chalaça.

É preciso coragem.

É fartar vilanagem!

 

PROMETEU

 

Credo que deselegância.

Sabes que sou, por natureza,

Optimista!

Sou aquilo a que chamam um

Corredor de Fundo.

Não há no mundo,

Outro optimista como eu.

Ou não me chamasse Prometeu.

Isto dos mercados, é só ganância,

Da mais fina,

Da internacional.

Prometo que vou mudar de concertina.

Vou acabar-lhes com a música

E a jactância.

A Nação safa-se sozinha.

Não é petulância.

Isso eu garanto.

Qual é o espanto?

Sou sempre o último que ri.

Usufruo de tal estrutura

Mental e diversa

Que me é fácil afirmar isto.

 

ORÇAMENTO

 

Sim Criatura!

Conheço-te a conversa.

Prometeu!

Promete que daqui a dois meses chamas o FMI!

 

Luís Santiago(3) Luís (de) Santiago

 

(*) http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/letras/liv044.htm

 

 

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