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A bem da Nação

Divagando pela utopia – 12ª parte

Resumo da 11ª parte: o objectivo de quem quer acabar com o FMI é o de pôr um fim à concorrência que este faz à banca privada; o monetarismo puro não é suficiente para debelar as crises por que passam alguns países, nomeadamente os que recorreram aos mercados internacionais de capitais; o FMI desempenha um papel relevante nas políticas de estabilização dos países em dificuldades; a flutuação das taxas de câmbio não provoca a melhoria directa da competitividade das exportações; as desvalorizações discretas são absurdas; devem ser constituídos Fundos Monetários regionais; a taxa de câmbio do Yuan é fictícia.


Plausível – Ora cá estamos de volta. Desta vez o intervalo foi bem mais curto. Estávamos a conversar sobre a China e o câmbio do Yuan.
Utópico – A China nada tem a ver com a democracia nem formalmente reconhece autonomia à economia de mercado. Continuam naquela de “um país com dois sistemas” o que, a bem dizer, acaba por não ser carne nem peixe. São uma economia em vias de ocidentalização mas com uma envolvente política completamente anacrónica com a opção económica aparente. Estão a fazer um percurso completamente contrário ao da Rússia.
Plausível – Como assim?
Utópico – A Rússia começou por se abrir politicamente e deixou a economia ao abandono; a China está a mudar a economia mantendo a estrutura política.
Plausível – E o que é que resultou em cada caso?
Utópico – A economia russa foi absorvida pelo rodopio político, perdeu o norte e foi com alguma rapidez que “bateu com a barriga no fundo”. Está a recuperar lentamente desde que se reinstalou uma certa autocracia. A China comunista tem-se deixado ir invadindo controladamente pelos chineses de Taiwan, de Hong-Kong e de Macau que vão instalando os negócios que o poder central autoriza e, por conseguinte, não têm sofrido solavancos do tipo russo.
Plausível – Na sua opinião, então, o que salva as situações é a autocracia.
Utópico – Não, não penso nada disso. Acho mesmo o contrário. Os povos têm o direito de viver em democracia pois não há ninguém que tenha nascido com um estatuto especial que lhe permita mandar nos outros. Eu sou filosoficamente republicano e democrata cristão. As perspectivas cristã e republicana são totalmente congruentes neste sentido que tem a ver com o direito natural, com a democracia, com a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Portanto, não acho de todo que a autocracia seja a salvadora da situação. O que eu acho é que é necessário um nível mínimo de civismo para que se possa construir a democracia. A democracia aprende-se, não se decreta. Portanto, as pessoas têm que ir vivendo em micro-ambientes democráticos para que a sua profusão acabe por construir um macro-ambiente democrático. Isto, partindo do pressuposto de que o conjunto de micro-ambientes induza à constituição de um macro-ambiente.
Plausível – À semelhança do que se passa com as dimensões micro e macroeconómicas?
Utópico – Sim, acho que sim. Todos sabemos que o somatório de muitas microeconomias não faz uma macroeconomia mas temos que reconhecer que não pode haver uma sã macroeconomia se as microeconomias incluídas não dispuserem de boa saúde. Portanto, voltando aos casos russo e chinês, o que eu noto é que aquelas sociedades passaram do feudalismo dos boiardos russos e dos Senhores da Guerra chineses para outros regimes igualmente castradores da responsabilidade individual. Trata-se, portanto, de povos que desconhecem em absoluto o que significa a palavra liberdade. Daí a confundirem liberdade com libertinagem vai um passo. Os russos demoliram os sistemas de controlo social a que a população estava habituada desde tempos imemoriais e a economia foi arrastada para o abismo da ruptura social, dos impérios mafiosos; os chineses mantiveram os sistemas de controlo social e têm estado a permitir a profusão dos tais micro-ambientes de responsabilização progressiva, as empresas privadas, de tal modo que até ao presente não se instalou a ruptura social e os mafiosos vêm sendo fuzilados com alguma regularidade. Eu tenho a esperança de que o progresso social, a criação de uma relevante classe média, acabe por determinar uma progressiva libertação social e, finalmente, a instauração de uma democracia de sentido ocidental.
Plausível – E acha que isso pode acontecer ainda no nosso tempo?
Utópico – Em qual tempo? No seu, que ainda não fez 30 anos, ou no meu que já tenho 60?
Plausível – Nos próximos 50 anos.
Utópico – Em princípio esse já não será propriamente o meu tempo mas isso é o que menos importância tem. O factor tempo tem no Oriente um significado muito diferente daquele que nós, os ocidentais, lhe atribuímos. Cem anos é um período relativamente curto na História do Império do Meio. Claro que, neste processo de ocidentalização de alguns conceitos que a China vem promovendo, é natural que o conceito “tempo” também possa sofrer alguma ocidentalização. Mas eu admito que dentro de 50 anos a China já nada tenha a ver com o que ela é hoje e muito menos com o que ela era há 10 ou 20 anos. Eu julgo que Taiwan é a amostra do futuro da China.
Plausível – Acredita na reunificação?
Utópico – David dominou Golias.
Plausível – Essa é uma figuração mitológica.
Utópico – Muito bem, assentemos os pés na realidade actual: as Zonas Económicas Especiais que a China fez instalar já hoje são praticamente dominadas por empresários chineses de Taiwan, Hong Kong e Macau. A reunificação política é menos importante que a económica. Se se tiver o útil, para quê esticar a corda e obrigar um dos lados a ter que se dar por vencido?
Plausível – Acha que não se vai repetir um processo à alemã?
Utópico – Não tenho uma bola de cristal que me revele o futuro mas, mais do que achar se isso vai ou não suceder, eu acho é que não vale a pena enveredar por esse tipo de caminhos. Repare que, dadas as diferentes dimensões, Taiwan não teria capacidade para fazer à China o que a Alemanha Federal fez à República Democrática Alemã. Os alemães ainda estão hoje a pagar a factura que lhes foi apresentada por “comprarem” um país inteirinho. Trata-se de um peso excessivamente pesado mesmo para a Alemanha que teve que fazer tudo de uma só vez. Na China, a coisa vai-se fazendo progressivamente, o que dói muito menos.
Plausível – E o câmbio do Yuan, tem alguma coisa a ver com o do Deutsche Mark?
Utópico – Com o do DDRMark, quer Você dizer.
Plausível – E isso significa que . . . ?
Utópico – Era o nome da moeda leste-alemã: Deutsche Demokratishe Republik Mark. Como se imagina, o DDRMark tinha um valor puramente político enquanto o DM, o da Alemanha Federal, tinha uma cotação definida em mercado. Ainda hoje se discute a decisão do Chanceler Helmut Kohl de ter feito a unificação monetária em vez de ter faseado o processo.
Plausível – E o que é que dizem esses críticos?
Utópico – Acham que os Neue Länder deviam ter passado a funcionar com uma moeda que começasse por valer cerca de metade do DM dos Alte Länder e que a pouco e pouco os valores se fossem aproximando.
Plausível – Mas dessa maneira, a unificação não se fazia.
Utópico – Exactamente. A unificação era um objectivo político e as perspectivas económica e financeira eram perfeitamente secundárias. Sob o ponto de vista económico, a RDA dispunha, como se viu, de um monte de sucata a que chamavam indústria e o resto da economia não tinha qualquer expressão no contexto internacional, nomeadamente o sector financeiro. Portanto, não foi por motivos económicos que a reunificação se fez mas sim – e apenas – por motivos políticos. E os problemas políticos têm que ter soluções políticas e não técnicas. Os críticos invocam uma solução tecnicamente muito interessante mas que impedia que se alcançasse imediatamente o objectivo político fundamental: a reunificação. E esta tinha um “timming” indiscutível. Tinha que ser feita imediata e completamente sob risco de se transformar num imbróglio muito complicado na cena internacional. Mas o mais curioso é que quem preconizava que na Alemanha reunificada deviam funcionar duas moedas, apoiou a criação do Euro como moeda única da UE. Então como é? No que ficam?
Plausível – E no caso chinês, o que vai suceder?
Utópico – Volto a dizer que não tenho nenhuma bola de cristal. Chamo, contudo, a atenção para a perspectiva completamente diferente deste caso em relação ao alemão. A RDA pertencia a um bloco que se desmoronara, era um país à deriva e tinha uma dimensão muito mais reduzida do que a Alemanha que estava do lado sólido. A China não está à deriva e é muito maior do que Taiwan. A Alemanha Federal conseguiu “engolir” a RDA mas ainda não a “digeriu” por completo ao fim de 15 anos. A substituição do DDRMark pelo DM traduziu-se num processo de emissão monetária sem o correspondente reforço do PIB. Bastaria isso para induzir um processo inflacionista muito arriscado. Está a ver o Banco de Taiwan com fôlego para uma operação semelhante para com o Yuan?
Plausível – Não, não estou a ver.
Utópico – Nem o Dólar de Hong-Kong somado ao Dólar de Taiwan e à Pataca de Macau. O que é importante no caso chinês não é que ocorra um processo de reunificação política mas sim de integração económica progressiva. E é bem de ver que quem tem que se adaptar é o gigante.
Plausível – Adaptar económica e politicamente?
Utópico – Exacto. Espero que o aparecimento duma grande classe média chinesa possa induzir uma mudança social significativa com resultados a nível dos direitos humanos, da liberdade de associação – nomeadamente sindical e patronal – para que num futuro mais ou menos próximo se possam constituir outros tipos de associações cívicas, nomeadamente partidos políticos.
Plausível – Estamos mesmo a divagar pela utopia, não estamos?
Utópico – Quando em Agosto de 1961 assisti localmente à colocação dos primeiros tijolos do Muro de Berlim, nunca julguei que pudesse vir a não me perdoar por não ter lá voltado para ver o derrube. Em 1961, o derrube do que estava nesse momento a ser construído também parecia uma utopia e, no entanto . . .
Plausível – Estou a ver que as Coreias é que poderão, então, vir a sofrer um processo ao estilo alemão.
Utópico – A ver vamos . . .
Plausível – Quando?
Utópico – Assim como a RDA era uma ficção soviética, também a República Democrática da Coreia é uma ficção chinesa. Ruiu a URSS e acabou a RDA; quando a China se deixar de proselitismo revolucionário, acaba nesse mesmo dia a Coreia do Norte.
Plausível – Voltando um pouco atrás, acha que é possível vir a ter um Yuan com câmbio decente?
Utópico – Desejo que sim, mesmo que isso signifique uma desvalorização do Dólar americano e, consequentemente, uma valorização do Euro. Trata-se de adaptações que têm historicamente que ser feitas e mais vale que o sejam controladamente do que por variações discretas. Mais vale um conjunto de pequenos tremores de terra com as placas tectónicas a ajeitarem-se pouco a pouco do que um terramoto do género deste que provocou o tsunami e deslocou a ilha de Samatra cerca de 20 metros. As variações cambiais discretas podem constituir autênticos flagelos; há que os evitar se estiver na mão do homem. E a adaptação do Yuan à plausibilidade cambial está perfeitamente ao alcance.
Plausível – Acha então que a China vai enveredar por uma política monetária?
Utópico – Mas a China tem uma política monetária! O que não significa é que consideremos essa política compatível com a globalização.
Plausível – O monetarismo, o liberalismo?
Utópico – Não sei. Duvido. Mesmo no mundo ocidental há quem não alinhe muito por esses diapasões. Mas o que eu acho mesmo é que cada um há-de arranjar sempre argumentos e mais argumentos para defender as teses em que acredita. Eu já tive um blog chamado “A convivência cultiva-se; a Fé não se discute” e esse é um “must” em que acredito mesmo: a Fé não se discute.
Plausível – Não acredita no ecumenismo?
Utópico – O proselitismo é muito mais forte.
Plausível – Mesmo na política?
Utópico – Sim, mesmo na política.
Plausível – Mas há quem mude de partido político . . .
Utópico – Há quem coma alheira para fingir que come chouriço.
Plausível – Muito prosaico, neste final.
Utópico – Diz muito bem: neste final. Sugiro-lhe umas férias pois agora tenho que me dedicar a uns trabalhos inadiáveis.
Plausível – Vai apagar algum fogo?
Utópico – Até final de Junho tenho que acabar o livro que estou a escrever.
Plausível – Muito bem, bom trabalho, até então.

Lisboa, Maio de 2005

Henrique Salles da Fonseca

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