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A bem da Nação

RECORDEMOS...

  (*)

 

... ÁLVARO CUNHAL

 

A recente morte de Álvaro Cunhal (texto escrito em Junho de 2005) trouxe a inesperada surpresa de um acontecimento levado ao mais alto nível da consagração nacional.

 

Compreende-se que o PCP e naturalmente os comunistas portugueses, lhe tenham dispensado as homenagens que a sua vida e o seu exemplo inteiramente consagrados à causa de que fez a razão da sua existência, mereciam. Como comunista e na posição cimeira da sua hierarquia, ele foi de facto um lutador incansável na busca obstinada dos objectivos que traçou. É justo reconhecer a coragem, a persistência e até o sacrifício com que se bateu denodadamente pela sua causa. Merece portanto a gratidão e o respeito dos comunistas.

 

O que não se entende porém, é a consagração a nível nacional que lhe foi exuberantemente prestada pelo Estado português através dos seus órgãos de soberania mais representativos, o Presidente da Republica, o Governo da nação e a Assembleia e ainda o coro de louvores e ladainhas da generalidade da comunicação social. Se é certo que na melhor tradição dos nossos brandos costumes, quando alguém morre é sempre promovido à respeitável condição de bom rapaz – morreu fulano, coitado era bom rapaz – também é verdade que na apreciação de uma figura pública, a análise da sua vida e principalmente da sua acção, naquilo em que ela condicionou a nossa existência colectiva, não pode ser feita com a mesma ligeireza e condescendente generosidade. Os seus actos e o seu papel na construção da História, devem ser tratados com verdade e isenção.

 

Álvaro Cunhal foi sem duvida um grande e convicto comunista subordinado ao espírito e tutela da União Soviética mas como cidadão português o que a História registará, passadas as emoções e paixões do tempo presente, é um comportamento merecedor do mais vivo repudio. A sua acção, que de facto foi decisiva na condução da revolução de Abril, foi feita ao arrepio dos seus melhores objectivos consagrados no manifesto do MFA e levou Portugal a uma situação de caos donde ainda não saiu completamente. Álvaro Cunhal intentou, sem olhar a meios nem contemplações, instaurar em Portugal um regime ditatorial pior do que o que acabara de ser banido. Nos alvores da revolução que se julgava redentora, foram libertados 32 cidadãos presos em Caxias por delito de consciência mas por acção directa do PCP de Álvaro Cunhal, aí foram encarcerados muitas centenas de outros cidadãos sem culpa formada, sem qualquer assistência jurídica e sem o mínimo respeito pelos princípios democráticos que a revolução anunciara. A sua profunda aversão ao sistema capitalista, bem dentro do ideário comunista, levou-o a forçar uma brutal nacionalização da economia com as trágicas consequências que então testemunhámos e também totalmente ao arrepio de uma das promessas do manifesto do MFA.O caos político e social que desabou sobre o país, mercê da sua influência na condução do processo revolucionário, levou à ameaça da guerra civil. A descolonização de que foi na realidade o maior mentor, conduziu a uma incomensurável tragédia humana nas antigas colónias portuguesas cujos efeitos, 30 anos decorridos, ainda hoje perduram. Prisões arbitrárias, saneamentos selvagens, crimes de sangue, perseguições a cidadãos inocentes, a destruição do tecido económico nacional e a indisciplina generalizada na sociedade portuguesa, foram a contribuição do PCP do Dr. Álvaro Cunhal para a revolução que se esperava honesta e libertadora.

 

Como se explica que um Estado que se diz democrático e apregoa as virtudes do sistema, se curve de forma tão veneranda e reverenciada perante a figura de um homem que procurou impor pela violência um modelo de sociedade que comprovadamente se opunha aos mais elementares princípios de uma democracia plena? Como foi possível incensar uma actuação que foi lesiva dos mais profundos interesses nacionais e dos mais elementares direitos dos cidadãos e que foi posta em prática pelo Dr. Álvaro Cunhal?

 

O branqueamento que agora se faz da sua acção, não tem sentido nem explicação face a uma realidade que marcou uma das épocas mais sombrias da nossa História recente e de que ele foi um dos principais responsáveis Por isso, a vassalagem que o Estado democrático prestou à sua memória, soa a hipocrisia. Para além do país destroçado e perdido na busca de um futuro incerto, que outro legado nos deixou Álvaro Cunhal quando finalmente em Novembro de 1975 se retirou de cena?

 

E também não deixam de ser repulsivas as hossanas que agora lhe entoam muitos dos que lhe sofreram as iras ,mas que hoje, bem instalados no sistema, se adaptaram aos seus apetecíveis favores e ás conveniências do politicamente correcto.

 

A memória dos homens é fraca mas não tanto. Apesar do seu indiscutível valor intelectual, da sua forte personalidade e do seu espírito determinado, qualidades que se reconhecem e respeitam, Álvaro Cunhal passou já à História de Portugal mas não certamente pelas melhores razões.

 

José Sardinha

 

(texto escrito em Junho de 2005 cuja publicação foi recusada pelo DN)

 

(*) http://www.galizacig.com/imxact/2005/07/alvaro_cunhal.jpg

 

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