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A bem da Nação

ENFRENTAR A REALIDADE: NÃO VAMOS SAIR DA CRISE

 

 

(1) A história é simples de contar e de compreender. Portugal chegou à Europa em 1986 com um atraso estrutural, muitos problemas económicos e sociais por resolver, e uma baixa produtividade. Para superar estas sérias deficiências, a Europa mandou umas ajudas muito generosas. Infelizmente, todos esses avultados recursos foram essencialmente consumidos, e só em muito menor medida investidos e utilizados na recuperação do atraso estrutural. O nível de vida dos portugueses melhorou, mas não a sua produtividade. Os portugueses gostaram tanto que votaram em quem lhes prometeu dinheiro fácil e um nível de vida de país rico. Primeiro Cavaco, depois Guterres.

 

Quando os fundos europeus deixaram de ser suficientes para financiar uma economia profundamente estagnada, de baixa produtividade, mas com um nível de vida de país rico, Portugal descobriu o endividamento externo. Beneficiando do euro e das taxas de juro muito baixas, os portugueses, as empresas, o Estado tudo financiaram com o dinheiro dos outros. Quando rebentou a crise financeira, Portugal encontrava-se na delicada posição de ter passado uma década economicamente estagnada mas generosamente financiado pelos mercados financeiros internacionais. Uma década em que os portugueses votaram alegremente em quem lhes disse que o endividamento externo nunca seria um problema.

 

Agora com as taxas de juro muito mais altas e sem ter feito nenhum esforço na recuperação do atraso estrutural desde 1986, Portugal encontra-se no abismo de uma economia estagnada e fortemente endividada, num processo de empobrecimento relativo. Uma crise económica e social mais grave que qualquer experiência dos últimos trinta anos.

 

(2) O Eng. Sócrates e o PS têm responsabilidade? Têm responsabilidade, no sentido em que, depois de umas tímidas reformas em 2005-2007, o Eng. Sócrates voltou ao eleitoralismo barato e ao cálculo político para evitar o mesmo destino que Cavaco, Guterres, Durão ou Santana. Chegámos a Setembro de 2009 com exactamente os mesmos problemas estruturais que tínhamos antes, tendo o Eng. Sócrates desperdiçado quatro anos e meio de uma maioria absoluta. Têm responsabilidade, no sentido em que, por pura táctica política e sempre mais preocupado com a sua sobrevivência no Governo, o PS enveredou pelos PEC I, II & III, adiando as medidas que tinham de ser tomadas com um custo estimado em muitos mil milhões de euros (numa estimativa conservadora do Álvaro Santos Pereira). O Eng. Sócrates fez uma aposta, esperou que alguma solução milagrosa salvasse a economia portuguesa, e ao perder semelhante aposta, acabou por empurrar Portugal para uma situação mais delicada. Também é preciso não esquecer que o PS apoiou a irresponsabilidade reinante, começando com o ministro das Finanças que muitos comentadores insistem em desculpar por razões que ainda não percebi (o primeiro-ministro pode passar por néscio da economia, mas o ministro das Finanças sempre soube muito bem como ia acabar a aposta de adiar as medidas duras).

 

Mas evidentemente que a responsabilidade do Eng. Sócrates tem limites. Ele herdou uma bola de neve produzida pelo populismo dos seus antecessores, nomeadamente Cavaco e Guterres. Ele foi possivelmente o primeiro-ministro que mais fez para travar essa bola de neve, mas o que fez foi insuficiente, e depois perdido pelas loucuras eleitoralistas. Finalmente, é preciso pedir responsabilidade aos portugueses. Não tanto por votarem em quem votaram, mas porque ao preferirem sempre a solução fácil e sem custos, deixaram que o PS e o PSD andassem a mentir durante duas décadas.

 

(3) E agora? Como e quando sairemos do buraco onde estamos metidos? Sinceramente não vamos sair nos próximos dez anos. A década de 2010-2020 será de baixa produtividade, sem o generoso financiamento externo, portanto com uma grave redução do nível de vida dos portugueses. Esperam-nos anos muito duros.

 

Se os portugueses aprenderam a lição, nas próximas eleições esperam-se políticos com coragem, que digam a verdade, que saibam esclarecer que os próximos dez anos vão ser maus, e o que está em causa é fazer aquilo que não se fez em vinte anos para que a próxima geração possa viver melhor. Se o PS e o PSD voltarem com o discurso eleitoralista, das falsa promessas, das soluções milagrosas que acabam com a crise em 2013 ou 2014, e se os portugueses voltarem a votar nisso, então muito dificilmente teremos um futuro para oferecer aos nossos filhos. Não vale culpar os políticos por tudo o que corre mal. Eles apenas dizem o que os portugueses querem ouvir. Veremos pois o que os portugueses querem nas próximas eleições. A continuar o facilitismo e a irresponsabilidade, o progresso económico e social de Portugal vai estar adiado.

 

PS. Um bom exemplo é a investigação científica. Seguindo o excelente spin do ministro da tutela, os jornais portugueses dizem que somos agora uma grande potência no mundo da ciência.

 

Apresenta-se o ranking das melhores universidades do mundo, elaborado pela QS Top Universities, onde a melhor colocada é a Universidade de Coimbra, na invejável posição 356. O spin do ministro volta à carga. A mentira repete-se e repete-se. Um novo ranking, desta vez da SIR, repete o desastre anunciado. Agora a melhor universidade portuguesa é a Universidade Técnica de Lisboa, em 314. Mas a mentira vai continuar, sem que o problema estrutural seja resolvido!

 

Nuno Garoupa

Professor de Direito da University of Illinois

 

in JORNAL DE NEGÓCIOS, 14 Outubro 2010

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