OLHAR EM FRENTE - 2
Como confeccionar uma crónica…
Faz tempo em que cozinhar uma crónica era algo de muito complicado. Por vezes sinuoso, dadas as “fintas” que era necessário fazer para escapar ao grosso e censurante lápis da respectiva Comissão.
Nessas malhas algumas vezes caí. Uma delas por ter tentado abordar a especulação petrolífera, a propósito de súbita alteração de preços com base no exercício de chantagem que os produtores do Golfo resolveram ensaiar. Claro que o ensaio passou a prática comum…Estávamos então em 1973.
Depois, os cronistas respiraram de alívio. Podia dizer-se tudo quanto se quisesse. E houve um período em que, sem exageros, a Comunicação Social era respeitada e se respeitava. Pegava-se no facto. Se possível fresco, de interesse público, que possuísse contornos suficientes para motivar a atenção do leitor. Comentava-se com seriedade, noticiava-se com verdade e ninguém insultava ninguém. Contenção na palavra escrita, responsabilidade nos debates, elegância nas relações, mesmo entre adversários políticos. Hoje, primeiro que tudo, cria-se o facto. Se não houver à mão, inventa-se. O órgão de comunicação precisa de vender, de ter espectadores, de interessar ouvintes. E nesta selva informativa, em que muitas vezes se não distingue o comentário da notícia, o ouvinte, o leitor ou o espectador – dependendo da sua formação ou cepticismo – voga perdido num mar de vagas cruzadas, numa tempestade informativa que o confunde e desmotiva.
A realidade não é absoluta, depende de quem a difundiu.
Hoje, que não há Censura, as condições de confecção de uma crónica alteraram-se de tal maneira que não reconheço nenhum dos condimentos então utilizados. Que eram, necessariamente, o interesse público, o evitar os ataques pessoais, o uso de termos apropriados e sem obscenidades, honestidade nas posições, reconhecimento das razões entre quem concorda ou quem discorda.
A situação difícil que se vive em Portugal fez aumentar, entre outras inseguranças, o clima de insegurança verbal, na perca de prestígio da maior parte dos comentadores e cronistas de serviço, rendidos, uns e outros, aos interesses de quem lhe paga ou aos benefício que espera cobrar um dia.
Enquanto jornalista, agora retirado mas não amordaçado, sempre adoptei a máxima de que posso não concordar com as ideias de qualquer adversário…mas defenderei, até ao impossível, o seu direito de as expor.
Assim, nesta série de crónicas ou noutras que por aí vou subscrevendo, enquanto o universo de leitores se mantenha em volume que o justifique, continuarei a manter estes princípios e esta vontade.
Só assim poderei continuar a olhar em frente.
Luís de Melo e Horta
