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A bem da Nação

ÁGUA SUJA

 

 

Pouco a pouco a noite descia sobre largo e tranquilo planalto do Triangulo Mineiro. O calor abrasador do dia dava a vez ao ar fresco. As estrelas no céu tropical surgiam como translúcidos e faiscantes diamantes derramados sobre um manto de veludo azul-escuro. Não havia concorrência da luz artificial dos postes das cidades. A lua crescente, argêntea, clareava os caminhos que levavam os peregrinos a Água Suja. Lanternas e cajados nas mãos, garrafas de água amarradas à cintura, faixas luminosas cruzadas no peito, em bandos ou sozinhos, os devotos da Nossa Senhora da Abadia seguiam a passos lentos, seguros, para os festejos do dia 15 de Agosto. Carros e barracas ao longo do trajecto lhes davam apoio.

 

À semelhança de Santiago de Compostela, na Galiza, todos os anos na primeira quinzena de Agosto, romeiros saem de outras cidades triangulinas vizinhas a pé, a cavalo, de carro de bois, de automóveis, de ónibus, e percorrem até mais de 200 km para prestar homenagens, agradecer graças alcançadas e pedir favores, à padroeira do Triangulo Mineiro e Alto do Paranaíba. São noites e madrugadas de caminhadas arriscadas, à beira das estradas, nos acostamentos ou em caminhos de terra paralelos, pois durante o dia o calor abrasador cozinha-lhes os miolos, derrete-lhes os calçados, dá-lhes bolhas nos pés. Quando o sol está a pino, o que logo acontece, aproveitam para descansar, se alimentar e dormir em acampamentos localizados em áreas arborizadas, previamente demarcadas.

 

Preservando a tradição dos antepassados, os devotos de Nossa Senhora da Abadia, forasteiros, pedintes e visitantes, fazem romaria. Chegam cansados, mas esperançosos e contentes, à pequena cidade de Romaria, antiga Água Suja, movimentando o fraco comercio, distribuindo esmolas e alimentos, fazendo novenas, assistindo missas, participando das procissões, revigorando a fé, cada um à sua maneira.

 

Região outrora ocupada por tribos indígenas, algumas frontalmente avessas à aproximação do branco, o extremo-oeste mineiro foi tardiamente colonizado por faiscadores, garimpeiros, fazendeiros, a maioria aventureiros que buscavam riqueza fácil que o solo pudesse oferecer. Após tentativas e iniciais fracassos, ao fim conseguiram se estabelecer. Ganharam sesmarias, criaram raízes nas terras do Triangulo Mineiro. Trouxeram as famílias, amigos, parentes, tradições e crenças, muita vontade de vencer. Se é verdade que através das devoções religiosas pode-se adivinhar as origens de uma povoação, podemos dizer que o Centro-oeste mineiro teve na sua formação gente vinda do norte de Portugal, quando cultua a padroeira Nossa Senhora da Abadia e dos Açores, quando festeja o Divino Espírito Santo. Fatos que podem ser comprovados pelos dados da história local.

 

No centro-oeste mineiro a devoção à Santa começou à época da Guerra do Paraguai (1864-1870), quando o Brasil por falta de engajamento popular, precisou fazer recrutamento forçado. No interior, para despistar o governo, as famílias davam aos rapazes nomes que poderiam ser aplicados em ambos os sexos, e os homens abandonavam suas casas e trabalhos para não serem encontrados e escaparem à convocação militar. Assim foi que muitos garimpeiros que não queriam trocar a bateia pela baioneta deixaram os garimpos de Bagagem (hoje Estrela do Sul) e embrenhados nas matas, pesquisando córregos da vizinhança, descobriram diamantes no Córrego de Água Suja (devido à coloração amarelada das águas na lavagem do cascalho). A descoberta logo se espalhou e com a crescente afluência de gente, aí nasceu um povoado. Baptizaram-no com o mesmo nome do córrego. Descendentes de bracarenses, os garimpeiros implantaram a devoção a Nossa Senhora da Abadia, já venerada em Goiás (Muquém), onde anualmente faziam romaria. Prometeram construir uma igreja caso o Estado os esquecesse. Atendidos, na tentativa de manter a tradição, e estando Muquém muito distante, pediram e tiveram autorização do Bispo de Goiás, D. Joaquim, para cultuar a Santa no recente povoado. Em 1870 construíram uma capela e encomendaram a imagem que veio do Rio de Janeiro, trazida pelo viajante português Custódio da Costa Guimarães. Inicia-se então a devoção de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja, hoje Romaria (Arquidiocese de Uberaba). Em 1872 edificaram a Igreja, e em 1930 inauguraram o Santuário de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja, conhecido em toda a região.

 

 

Imagem actual

 

Dentre as inúmeras graças e histórias acontecidas conta-se o caso do Padre Tristão de Mendonça Carneiro.

 

...Era 1878, vindo de Goiás, trazia a permissão do Exmo. Diocesano para administrar os sacramentos na capela aí existente, nas fazendas e roças do lugar. Estatura regular, robusto, olhos azuis e vivos, tinha características de homem de acção evidentes. A par de suas actividades espirituais resolveu tirar de um Córrego da redondeza chamado Paiol, um rego para abastecimento de água ao povoado. Para tal conclamou os fazendeiros e moradores da vizinhança para pôr mãos à obra. António da Cunha Ferreira, dono de três fazendas próximas, por algum motivo particular, tentou embargar a obra. Como o dito fazendeiro chegou ao local com a intenção, porém, sem as formalidades legais, o padre não lhe deu atenção. Três dias depois apareceu um oficial de Justiça, mas este foi rechaçado porque não trazia, conforme exigia o padre, a papelada em termos. Passados mais 4 dias, serviço quase concluído, o padre assistindo aos trabalhos debaixo de uma árvore, chegaram dois oficiais de Justiça, com a papelada em mãos, exigindo do padre o embargo da obra. Conferido os termos, o padre Tristão aceita a intimação. Chama o pessoal e pergunta à frente dos dois oficias se algum deles estava trabalhando por conta dele. Com a negativa, disseram que ali não havia patrão, que estavam trabalhando cada um por sua própria conta e só parariam depois que cada um recebesse uma intimação, nos termos legais. Deste modo concluíram o serviço que é até hoje uma realidade. Indignado com o fracasso de suas diligências, o fazendeiro resolveu vingar-se. Foi a um amigo e pediu-lhe a indicação de alguém capaz de executar o seu plano mortal. Contratou um tal de José Vitorino, e deu-lhe as instruções.

Vésperas de Natal e Ano Novo, o padre Tristão que estava de viajem marcada, resolveu à última hora não ir. Coincidência ou intervenção da Santa, o matador de tocaia aguardou em vão a passagem do padre no Capão dos Rodrigues. Depois de muita espera resolveu ir a Água Suja, dar ciência ao patrão do que acontecia. Logo que chegou à cidade foi à Igreja, onde a missa já estava no meio, à elevação. Ao entrar no recinto, seu tropel chamou a atenção. Ao ver o padre, procurou com o olhar o patrão que, ao vê-lo, cai repentinamente fulminado, não se sabendo porquê. Trouxeram água fresca, em vão tentaram reanimá-lo... Era já um cadáver. O padre Tristão ainda ficou mais um ano na paróquia até que se mudou para Poços de Caldas, onde faleceu.

(Texto resumido, retirado de uma caderneta de um filho de Irahy (MG), presente na Monografia da Paróquia e Santuário Episcopal de Água Suja de N. S. da Abadia (P. Primo Maria Vieira)

 

Origem da devoção a Nossa Senhora da Abadia

 

 

N.S. da Abadia de Santa Maria do Bouro, Amares

Fonte da foto: Nossa Senhora da Abadia

(A história de uma devoção)

Mons. Primo Vieira

Romaria, MG

 

Segundo o geógrafo e agente de Pastorais (na Igreja N.S de Fátima de Uberlândia), Geovane da Silva e Sousa, fundamentado em pesquisas do Mons. Primo Vieira: Foi à época das invasões árabes na terra de Braga, onde mais tarde seria Portugal, que monges cenobitas esconderam a imagem esculpida em pedra de Nossa Senhora. Achada séculos depois, em 1107, numa caverna por frades do Mosteiro do Monte de São Miguel (Paio Amado e frei Lourenço), começa aí a devoção à Virgem. Foi por essa época que o superior desses monges recebe o nome de abade e o mosteiro de Abadia. A partir daí a Santa passa a receber o nome Nossa Senhora da Abadia.

 

Com as viagens dos descobrimentos e as migrações portuguesas o culto à Santa se espalhou por todos os continentes aonde chegou a colonização lusa. Apesar de Nossa Senhora da Conceição ser a padroeira de Portugal, a veneração a Nossa Senhora da Abadia foi a primeira genuinamente portuguesa.

 

No Brasil, o culto a Nossa Senhora da Abadia começou na Bahia em 1718, Jandira (Diocese de Alagoinhas). Mas foi no centro-oeste brasileiro, talvez por ter recebido maior contingente nortenho português, que a devoção à Virgem teve maior repercussão. Da Bahia, a Goiás (Vila Boa de Goiás), de Muquém (GO) a Minas Gerais, principalmente nas áreas de Mineração e Garimpo, no Triangulo Mineiro e Alto do Paranaíba Ela é a padroeira.

 

 Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 09/09/10

Triangulo Mineiro, MG

 

Para saber mais:

Monografia da Paróquia e Santuário Episcopal de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja. (Padre Primo Maria Vieira)

Nossa Senhora da Abadia, A história de uma devoção. (Mons. Primo Vieira) Obra póstuma

Conhecendo Romaria (Geovane Silva e Sousa)

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