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A bem da Nação

TUDO SÃO RECORDAÇÕES

 

 

Andamos frustrados. Não direi todos, mas a maioria. Zangados com os homens por amor de Deus ou de nós próprios, zangados com Deus por amor dos homens e de nós próprios.

 

Mas recebi um e-mail comportando um pedaço do génio de Walt Disney, dos anos cinquenta, “Aquarela Brasileira” que o site “Alma Carioca“ disponibilizou – um texto publicitário contendo uma visita de Donald Duck ao Rio de Janeiro, onde é acompanhado por Zé Carioca. E estes seres, que no filme são criados através da paleta de tintas de Disney, acompanhado das canções brasileiras “Brasil, meu Brasil Brasileiro”, “Nico Nico no Fubá” e mais sambas, deixam-nos do Homem uma visão não mais macabra mas edénica, que nos reconcilia, ainda que momentaneamente, com os homens e com Deus, por amor da Beleza e do génio de Walt Disney.

 

E momentaneamente também, me dispus esquecer o presente e a recordar tempos antigos, em que, no jornal Notícias de Lourenço Marques tinha uma coluna – “Amor e Humor” – na “Página da Mulher”, dirigida pela escritora Irene Gil e onde assinava Regina de Sousa.

 

Textos muitas vezes com graça ainda jovem, e resolvi, à maneira de Vitor Espadinha, recordar alguns que, mesmo hoje, pudessem trazer um sorriso, ainda que momentâneo, a quem anda acabrunhado, na discórdia da vida.

 

De “Prosas Alegres e Não”, 1973:

 

Treinos

 

Muito gostava eu que acreditassem em mim, mas segundo li há dias, na voz do insigne poeta Beira, só quando agarrar uma arma entre os dentes ou me mantiver em posição vertical, merecerei confiança.

 

Fiquei desgostosíssima e tenho-me posto em treinos diários, mas confesso que a minha saúde se tem ressentido e serei forçada a desistir, o que deveras me aflige.

 

À falta de arma, arranjei um pau de vassoura dos mais pesados, mas o único resultado por enquanto obtido foi o de rachar dois dentes, importantíssimos para segurar a vassoura.

 

Ando a dormir em pé para me manter vertical, e o mesmo fazem as mulheres da minha rua, como eu infelizes e complexadas, por causa da poesia “À Mulher”.

 

Elas todas têm sofrido em certas circunstâncias da vida – são todas mães de família – umas dores fortíssimas, a que reagem mais ou menos ruidosamente. Mas tão incomodadas ficaram, que prometeram fazer a greve do silêncio, naquelas mesmas circunstâncias, só para se acreditar nelas. Também afirmam, muito aborrecidas, que afinal só os homens podem lamentar-se à mais pequena dorzita, e ninguém os menospreza. No entanto, a lição serviu-lhes, pois são muito receptivas aos bons conselhos, e prometem nunca mais chorar.

 

Supunham elas andar verticais e humanas cá por estas ruas da amargura e da desumanidade, mas o poeta Beira diz que não, que isso é só com ele e com os outros homens. Humildemente, então, andam todas a treinar-se, tal como eu, e a “tornear desejos”, a ver se chegamos “além das nossas fronteiras”. Algumas já o conseguiram, amavelmente autorizadas pelos terroristas.

 

Outra coisa feita por nós também com muita perícia é “clamar” – apesar da greve do silêncio – “pelo grito das razões lúcidas”. Todas compreendemos a necessidade da lucidez, e por isso toca de “clamar” e de “esmagar os róseos romances”. Um autêntico massacre! Pior que a devastação sofrida pela biblioteca cavaleiresca do nobre D. Quixote da Mancha. Até tive muita pena da Max du Veuzit e da Magali, tão maltratadas pelas suas ex-admiradoras, condenando-as definitivamente ao índex expurgatório.

 

E após estes treinos tão exaustivos e plenos de boa vontade, ficamos todas loucamente ansiosas de saber se acredita finalmente em nós o prezado poeta Beira.

 

 

Fraquezas

 

Fico sempre muito contente quando me reconhecem qualidades. Acho isso de resto uma fraqueza de todo o mortal pouco confiante em si próprio e necessitando que os outros acreditem nele.

 

Vem este assunto a propósito da carta aberta – que por sinal vinha fechada – enviada pelo poeta Luís Beira à minha discreta pessoa – a congratular-me pelo meu bom humor, quando o mais que se encontra por aí é gente mal humorada.

 

Comparou-me a uns autores espirituosos mas desconhecidos do meu espírito ignorante. Por isso mesmo, o meu amigo João que também me acha muito ignorante, muito desactualizada – entendendo por desactualização uma cultura não superior à do homem do Neolítico – anda a tentar ilustrar-me, emprestando-me livros que eu docilmente vou acumulando na mesinha aonde costumo acumular livros. Agora já estou às voltas com a civilização assírio-caldaica, suspensa na contemplação dos seus jardins miríficos.

 

Também achou o poeta Luís Beira que o meu humor se enquadra perfeitamente dentro do tipo da revista brejeira e o meu contentamento foi ainda maior, por isso vir de encontro aos meus desejos torneados de lúcida realização. E até, como é essa igualmente a minha ideia, já em tempos concorri para uma empresa organizadora de revistas, mas faltou-me a mola de acesso de todas as realizações, a necessária cunha para a minha pretensão ser despachada a favor das minhas fronteiras. Injustiças, cuja dor o tempo se encarregará de suavizar.

 

Quanto aos treinos, eu agradeço os cuidados do poeta Luís Beira, mas para já encontro-me impossibilitada de os continuar por falta de tempo. Tenho-o perdido todo no dentista, onde ando a fazer a dentadura substituta dos dois molares rachados durante aqueles...

 

Finalizo com um “auto-retrato”, confirmativo da valentia demonstrada nos treinos com a vassoura, texto contido no livro “Pedras de Sal”, de 1974, no capítulo “Antes do Golpe”, ainda brincalhão, livro que incluiria como 2ª edição em “Cravos Roxos – Croniquetas verde-rubras”, publicado cá, em 1981:

 

Solidez

 

Sou sólida. Fernando Pessoa dizia-se lúcido, eu apenas me posso gabar da minha solidez.

 

Mas gostava de ser frágil, isso sim. Quando precisasse de transportar coisas pesadas, diante de assistentes, haveria logo um cavalheiro, dos velhos admiradores de fragilidades, que me tirasse o peso das mãos e o transportasse ele. Acho muito lindos gestos assim, ainda há pouco observei um. Uma jovem magrinha e bonita, de olhos baixos e sorridentes, tentando transportar uma máquina de escrever. Não devia ser pesada, mas para ela era, pois com um sorriso, convidou um cavalheiro para o transporte.

 

Assim mesmo é que deve ser, mas hoje explora-se pouco o ramo da delicadeza masculina. A mim, pelo menos, não se me têm deparado muitas atitudes daquelas, e talvez se deva isso à minha solidez que inspira confiança imediata na minha capacidade transportadora de pesos.

 

Como sou romântica, embora sólida, preferiria o “côté fragile”, mas nem todos, neste mundo, podemos ter as mesmas coisas, temos de nos conformar.

 

De resto, depende muito também, a consideração alheia, do nó de gravata nos homens, ou da distinção da saia, nas mulheres. A cada passo o vou notando, desgostosa e desiludida.

 

E a mensagem de optimismo destes textos arcaicos, dos tempos da máquina de escrever, é a contida neste último, como consolo dos acima ditos frustrados: nem todos, neste mundo, podemos ter as mesmas coisas, temos de nos conformar.

 

Sensível como é às injustiças do Jeová e mesmo do mundo português, Saramago não concordaria, em todo o caso, com tal postulado, embora não haja o perigo de que o leia.

 

Todavia, serve o remate para, gentilmente, eliminar a malquerença para com ele.

 

Berta Brás

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