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A bem da Nação

FÁBULA PARA UMA AMIGA AUSENTE

 

 

Como vai estar ausente

Num seu empreendimento,

Deixo-lhe a marca presente

Do meu apoio constante,

Uma fábula traduzindo De La Fontaine,

Em agradecimento

Do que de si vou colhendo

Alegremente:

 

O gato e os dois pardais

 

Um Gato, de um jovem Pardal contemporâneo,

Perto dele desde o berço foi crescendo:

Gaiola e cesto tinham iguais penates,

Às vezes o Gato sendo

Importunado pelo Pássaro buliçoso,

O que o punha furioso.

Um com o bico esgrimia,

Outro com as patas arranhava,

Este último, todavia,

O seu amigo poupava,

Apenas pela metade o corrigindo:

Teria sentido um escrúpulo maior,

Em armar de pontas a sua férula, com rigor,

O Passaroco, menos circunspecto,

Dava-lhe boas bicadas.

Sábio e discreto Mestre Gato desculpava estas jogadas:

Entre amigos, não nos devemos nunca abandonar

Aos rasgos de uma cólera séria, sem, pelo menos, avisar.

Como eles se conheciam ambos desde tenra idade,

Um longo hábito os mantinha em paz e amizade:

Nunca em verdadeiro combate o jogo se transformava.

Mas um Pardal da vizinhança

Veio visitá-los e fez-se companheiro

Do petulante Pierrot e do sábio ratoneiro;

Entre os dois pássaros surgiu uma questão

E o Ratoneiro tomou, é claro, o partido do seu amigão:

“Este desconhecido está a caçoar

Ao vir assim o meu amigo insultar!

O Pardal do vizinho vir comer o meu parceiro!

Não, por todos os gatos!”

Então, no combate entrando,

Ele trinca o estrangeiro.

“Na verdade, diz mestre Gato,

Os pardais têm um gosto fino e delicado!”

Feita a reflexão,

Vá de trincar também o seu amigão.

Que moral poderei eu inferir deste facto?

Sem ela, toda a fábula é uma obra imperfeita.

Julgo aqui ver alguns traços; mas a sua aparência é estreita.

Príncipe, vós tê-los-eis imediatamente encontrado:

São jogos para vós, e não para a minha Musa;

Nem ela nem as suas irmãs têm o espírito que vós tendes

E a experiência profusa.

 

A La Fontaine faltou a coragem

De explicar a «Monseigneur le Dauphin»

O Príncipe referenciado,

A moral desta sua fábula.

A imagem

Que me acode

Para a actualidade, pelo menos,

É a dos apoiantes

Caídos em desgraça

Em caso de ingratidão

Dos príncipes da Nação

Depois destes saborearem

Os eflúvios do poder:

Papam aqui, papam ali,

Ganham-lhe o gosto

Digo, de papar,

E logo vão esquecer

Quem os fez nascer

Para o poder.

 

É um exemplo, mas outros mais

Casos de pardais

Poderia contar,

Se a minha Musa

Fosse mais profusa

E me pudesse ajudar

Dando-me a conhecer

As várias intrigas

Do mundo das brigas

De que enferma a Nação

Sem justificação.

Mas tudo o que eu soubesse,

Se o dissesse,

Poderia ser tomado

Como demasiado

Atrevido

E talvez um processo

Me fosse movido,

Pardais que somos

Para o Poderoso

Orgulhoso

E esquecido.

O que é um facto

Várias vezes observado

É que, colhidos os sabores,

Apreciados os valores,

Com nova ciência,

Perdida a inocência,

Circunstâncias maiores

São por vezes causa

Das reviravoltas

Nos comportamentos

Dos superiores.

E o que se passa entre os superiores de uma Nação

Para com os inferiores

Pode igualmente ver-se

Entre nações de diferente dimensão

Aparentemente amigas, mas com a intenção

De estabelecer puros ajustes

Para as grandes poderem engolir

Paulatinamente

As pequenitas,

Pardocas indecisas

Sem noções precisas

Do que seja ser.

 

Berta Brás

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