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A bem da Nação

Um tema caprino

 

 

O amor da liberdade

Não é compatível com a democracia

Que informa que a liberdade acaba para um

Onde começa a liberdade do outro um.

Embora não seja tão verdade assim,

Parece-me a mim,

Com tanta falta de respeito

Como preceito.

No tempo de La Fontaine

Em que a democracia não existia,

Segundo parecia,

A sua fábula d' As duas Cabras

Prova-o sobremaneira.

Mas, se pensarmos bem,

Hoje em dia também,

Quer se queira ou não se queira,

A democracia é só uma balela

De gente tagarela.

Vejamos, pois, a fábula

"As duas Cabras" da minha cábula:

 

Mal as Cabras acabaram de pascer

Certo espírito de liberdade o seu Destino

As faz procurar: partem em viagem

Para os lugares da pastagem

Menos frequentados pelo ser humano

Nem sempre humano:

Ali, onde lugar houver

Sem estrada e sem caminhos,

Mas sim um rochedo, um monte

Vergado em precipícios,

É onde estas damas

Vão passear seus caprichos

Em busca de benefícios.

Nada pode deter

Este animal trepador.

Duas Cabras, pois, se emanciparam,

Ambas tendo pata branca;

Cada uma por sua banda

Os baixos prados largaram:

Uma contra a outra caminhava

Ao acaso do passeio.

Um rio ali de permeio

Tinha uma prancha por ponte.

Duas doninhas somente

Se poderiam cruzar

Sinuosamente

E de fronte, sobre esta ponte.

A rápida onda e o fundo rio

Deveriam fazer tremer

As amazonas de receio

Pelo seu desvario.

Apesar de tantos perigos, uma das ditas donzelas,

Com ar sagaz

E sem mais aquelas,

Pousa um pé sobre a prancha, e a outra o mesmo faz

Da outra banda.

Imagino ver, contra Luís o Grande Filipe Quarto avançar

Para a ilha da Conferência.

Paciência!

Assim passo a passo avançavam

Nariz contra nariz As nossas aventureiras

Que, ambas altaneiras,

Até ao meio da ponte não quiseram

Uma à outra ceder.

Elas tinham a glória

De contar, na sua raça, segundo reza a história,

Uma, certa Cabra de mérito sem par,

Com que Polifemo presenteou Galateia;

E a outra a Cabra Amalteia

Que a Júpiter amamentou.

Como nenhuma recuou

A queda foi inevitável:

Ambas à água caíram

E nem sequer baliram

A chamar pelas mães

Sem tempo para tais ais,

Ou mé més, como se queira dizer,

O que foi bem detestável.

 

 http://environnement.ecoles.free.fr/fables_de_la_fontaine/images/Les%20deux%20chevres.jpg

 

Este acidente não é invulgar

No caminho da Fortuna,

Da Sorte, Dita ou Destino,

Fado, Sina, Desatino,

Como lhe queira chamar

O Humano pequenino Pequenino.

 

Eis aqui mais uma fábula

De todos bem conhecida

De duas cabras amigas

Da liberdade

Mas não ainda

Da igualdade e da fraternidade.

Eu julgo mesmo que estas duas

Condições

Não chegarão a existir

Enquanto cada homem só a si se ouvir

Sem objecções.

Nem preciso de citar

Os exemplos que por aí

Polulam de egoísmos e falcatruas,

Para não me enervar.

A verdade é que andamos

Todos por aqui

Numa estreita ponte onde só cabe

Um de cada vez.

Mas como todos procuramos

A outra margem

Do rio que atravessamos

Todos de uma só vez,

Em vez de esperarmos,

Educadamente,

Quando nos cruzamos

Na estreita ponte,

Logo nos empurramos

E caímos

Para nos afogarmos

Indecentemente.

 

E vamos cair

E vamos cair

Embora haja sempre

Os que podem fugir,

Que podem fugir.

 

Mas também

Como apoio à lição,

Sobre o amor à liberdade

Para não referir só La Fontaine

Cito ainda a Blanquette,

A cabra do Senhor Séguin

Do conto de Daudet,

Das "Lettres de mon Moulin"

Tão amada pelo dono

Que tudo fez para que não fugisse.

Mas fugiu.

E procurou a montanha

E os seus ínvios caminhos

Por muito que lhe custasse.

A última vez

Contra o lobo lutou

Até ao amanhecer

Sem o dono lhe valer

E assim morreu

E assim morreu.

 

Berta Brás

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