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A bem da Nação

OS LOBOS E OS FAUNOS – 2

Fauno, rei do Lácio, ficou na mitologia romana como divindade campestre assobiando em conjunto com centenas de melros a melodia que nos campos ouvimos das flautas mágicas em protecção da fecundidade dos rebanhos.

 

Nascido na Grécia no ano 130 da nossa era, Galeno morreu em Roma no ano 200. O seu prestígio entre os membros da classe médica manteve-se até ao século XVI quando os cientistas da Renascença iniciaram uma série de descobertas cruciais para a evolução da Medicina. Exerceu a sua sabedoria na escola de gladiadores de Pérgamo durante quase uma década até que em 164 decidiu instalar-se em Roma onde foi nomeado médico da corte do Imperador Marco Aurélio. Os seus contributos para a ciência foram fundamentais ao determinar a importância da coluna vertebral, ao utilizar o pulso como meio de diagnóstico, ao identificar vários músculos e ao realizar dissecações em animais. O seu sistema de fisiologia corporal, tomando como referência a teoria dos fluidos, foi o mais completo durante muito tempo. Chegaram aos nossos dias uma centena dos tratados que escreveu.

 

Filho do médico Julião Rebelo e de sua mulher Teresa Gil, nasceu em Lisboa cerca de 1210, deram-lhe o nome de Pedro, estudou Medicina em Paris, leccionou na Universidade de Siena entre 1245 e 1250, foi eleito Arcebispo de Braga e ficou na História como Papa João XXI. O seu tratado sobre a anatomia do olho, “De Oculo”, fez escola durante séculos e mereceu reedição moderna devidamente comentada pelo Professor Egas Moniz, nosso Nobel da Medicina.

 

Paracelso nasceu em 1493 na Suiça e morreu em 1541 na Áustria, formou-se em Medicina na Universidade de Viena, curou as doenças do filho do Grande Kahn tártaro aplicando substâncias químicas, definiu a constituição dos seres vivos em quatro elementos (terra, água, ar e fogo) e três substâncias (enxofre, mercúrio e sal) e assim deu origem à moderna farmacologia.

 

Carlos II de Inglaterra inaugurou o Observatório de Greenwich em 1675; pela mesma época foi medida a velocidade da luz e descoberto o espermatozóide; na Universidade de Coimbra, a Ordem de Santa Cruz não permitia então a dissecação de cadáveres para ter a certeza de não se esquartejar a alma e D. João IV – por antecipação ao dogma vaticano,– obrigou aquela instituição a garantir que defenderia sistematicamente a imaculada concepção de Maria.

 

Da escola de gladiadores de Pérgamo às Universidades de Paris, Siena, Viena e ao Observatório de Greenwich formou-se um arco de sabedoria que conduziu a Ciência antiga e medieval pela Renascença até às eras mais formidáveis da actualidade mas Coimbra foi durante séculos um instrumento do obscurantismo nacional.

 

E hoje?

 

A Lusa Atenas tem dado a Portugal gerações sucessivas de letrados eruditos, proeminentes juristas e sábios médicos: letrados eruditos que ensinam português nas escolas nacionais durante os intervalos que fazem na actividade poética mais sublime; proeminentes juristas que não encontraram ainda um sistema de Justiça eficaz para Portugal; sábios médicos que vão de manhã ao hospital verificar o comprimento das filas de espera e fazem clínica privada à tarde. Exagero, claro!

 

É evidente a necessidade cada vez mais premente de defendermos a nossa mal tratada língua, agora tão agredida por estrangeirismos e abreviaturas internéticas de invenção juvenil; o sofisticado quadro jurídico nacional é certamente de muito elevada craveira científica mas por acaso destina-se a ser aplicado por uma população que o não sabe interpretar e que, assim, não pode prescindir dos serviços dos advogados; a prática médica em Portugal é muito boa mas o acesso aos cursos de Medicina continua a ser severamente condicionado como forma de protecção máxima corporativa ao mínimo de membros habilitados ao exercício da profissão.

 

Brilhantes resultados: a língua portuguesa apresenta no ensino secundário uma das mais severas taxas de insucesso; os Tribunais rebentam de inchaço, prenhes de processos pendentes e a Justiça demora o suficiente para ser “surpreendida” pelas prescrições; os médicos espanhóis descobriram que Portugal é um El Dorado.

 

Todos sabemos que o português é uma língua difícil mas tanto o programa do nível secundário como a pedagogia nele aplicada não impediram que um ex-Primeiro Ministro se referisse às “matérias primas” e aos “Estados Membros” demonstrando a mais elevada e requintada ignorância das regras gramaticais portuguesas. Os letrados podem ser muito ilustres mas são claramente maus professores pois o que está em causa é toda a pedagogia, não só a da língua portuguesa mas a de todas as ciências, a Ciência Pedagógica propriamente dita, na aplicação que lhe fazem os nossos pedagogos. E por isso repito as palavras do Professor Gabriel Mithá Ribeiro: «As “ciências da educação” e ramos afins remetem para a mais hábil, radical, absurda e nociva rentabilização do politicamente correcto» (1).

 

O sublime quadro jurídico português e o seu relacionamento com a sociedade a que se destina faz-me lembrar a congruência do paralítico empurrado numa cadeira de rodas que se faz vestir com um fato de treino.

 

O afunilamento corporativo praticado pela Ordem dos Médicos ignora a existência da Europa, não reconhece a qualidade do ensino da Medicina ministrado em Universidades eventualmente pejadas de Prémios Nobel dessa mesma área da Ciência, retém para si o monopólio da omnisciência e o estatuto de juiz supremo, já para não dizer que não passa de alguém que se crê Suma Sacerdotisa duma religião onde existem outros Pontífices muito mais reconhecidos e laureados.

 

Pedagogos modernaços, “Joões das Regras” e “Joões Semana”.

 

Haverá por aí Faunos que domem estes Lobos?

 

O nível mitológico a que as “ciências da educação” foram alcandoradas tem que levar um abanão suficientemente forte para que esses “cientistas” percebam que, face aos resultados obtidos no nosso país, já há quem os tome por charlatães refinados; a clareza do quadro jurídico português poderia ganhar muito se houvesse um mínimo de preocupação de agrupamento dos diplomas em Códigos de funcionalidade e alguém fizesse “delete” em toda aquela legislação que já foi revogada ou derrogada na prática mas ainda sem menção expressa de que se encontra fora do activo; o Estado português deveria reconhecer automaticamente os cursos de Medicina que nos demais Estados Membro da UE são considerados credíveis para fornecerem médicos aos Serviços Públicos de Saúde desses mesmos países sem necessidade de intervenção da nossa Ordem dos Médicos; deveria pugnar para que houvesse reciprocidade nesses países relativamente aos médicos portugueses e deveria incentivar uma ou duas Universidades privadas a instalarem essa licenciatura recorrendo a médicos estrangeiros caso os portugueses recebessem ordem corporativa de boicote à iniciativa.

 

Não há dúvida: o assobio dos melros já não faz qualquer sentido porque o enxame das varejeiras verdes se transformou numa alcateia corporativa.

 

Lisboa, Julho de 2005

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

(1) - In “Ensino e Democracia: colossal embuste”, revista “Atlântico”, nº 4, Julho de 2005, pág. 6 e seg.

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