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A bem da Nação

SÁBADO NEGRO

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SONETO NEGRO

 

Qu'é feito de ti, meu lindo País?

Pátria de meus adorados Pais.

Porque te sentes assim infeliz,

Porque suspiras, tantos, tantos ais?

 

Dor magoada que sinto por ti,

ver-te ingloriamente flagelado.

O teu Povo triste já não sorri,

Porque foi mortalmente atraiçoado.

 

A Liberdade que te ofertaram

Por poetas nossos foi mui chorada.

E sobre nós, políticos marcharam,

 

em filas de fanfarras em parada.

A Liberdade dada foi roubada,

Dos cânticos forjados restou nada.

 

Sintra, 30 de Abril de 2010

 

Luís Santiago

 

 

 

O GRITO

 

Mais um documento expressivo do actual panorama educativo. Sei que haverá logo professores – havia-os no meu tempo – que confirmam que as turmas são complicadas – não para eles, note-se, que “não têm razão de queixa” (dos alunos) - já não tinham no meu tempo - mas que é necessário “saber dar-lhes a volta” (aos alunos), forma pedante e cínica de admitir que eles sabem (dar a volta), o que geralmente é falso.

 

Os senhores ministros da Educação, o Primeiro, os seguintes, fecham os olhos e tapam os ouvidos, em frente com os seus projectos de modernização para a desconstrução, que a alguns deles convém, como forma de justificar os seus cursos de batota.

 

E o país suporta, um protesto ou outro vão pingando, mas são bolas de sebo escorregadias, que só têm utilidade para polir as botas da tropa, já quase desaparecida, requerendo, pois, menos sebo, inúteis também não só para os que comem da mesma gamela como para os que assistem na indiferença do futuro, atidos à máxima “quem cá ficar que se lixe”.

 

O documento exprime desespero, o desespero de alguém que foi sempre brioso, numa carreira feita de dedicação e amor, e que ultimamente tem visto o tapete a ser-lhe puxado de debaixo dos pés, com a eficácia própria do descrédito a que chegou a “Educação” neste país, na permissividade de leis astutas, que fingem dar força aos professores, mas que de facto lha negam, puxando-lhes conscienciosamente o tapete de debaixo dos pés. Professores periclitantes, na sequência da ausência do tapete, alunos dançarinos no seu tapete protector, governantes semelhantes a deficientes autistas, um povo participando, uns com receio e vergonha, outros sem uma coisa nem outra.

 

Uma “directora” de escola que desautoriza o professor queixoso, chamando “peixeirada”, diante do aluno, ao incidente ocorrido na aula, é bem a marca do universo “pedagógico” dos nossos tempos, fomentado na família, apoiado no governo, com os professores como caixote do lixo – e não digo a Escola, visto que existem os directores de Escola participantes no apoio do governo, para projecção pessoal, e desapoio aos professores não alinhados no laxismo – como caixote do lixo, repito, da miséria moral e mental que estamos a criar.

 

Daí, o meu grito, o grito da professora que escreveu o texto, ao qual foram retiradas as referências pessoais, naturalmente, para obstar a mesquinhas “revanches”. Não é “O Grito” tão conhecido do pintor norueguês Edvard Munch. Não é grito de angústia existencial. É grito de desespero, sim. Mas de asco. De terror também.

 

À Direcção:

 

A aula de Português de 23 de Abril de 2010 de dois décimos anos (dados em conjunto por conta da crise) decorreu com os costumados contratempos: mandar calar, pedir atenção, que se concentrassem, que deixassem falar quem estava no momento a fazê-lo, ditar o sumário três vezes, pedir a um aluno que mudasse de lugar, recolher trabalhos, fazer o ponto da situação relativamente aos trabalhos que os alunos têm de apresentar não estando a cumprir os prazos, mandar calar outras vezes porque há sempre alguém a perturbar, a má disposição de um que fala com os colegas altiva e severamente, o que também causa mal-estar e faz perder tempo de aula, gente que atira borrachas para incomodar e que nunca assume nem se cansa (eu, que nunca apanho ninguém em flagrante e já peço aos alunos que denunciem os colegas, que o fazem, atitude que abomino, pois detesto denúncias), alguém que produz um ruído qualquer (pés, boca, canetas), outros que riem, comentários de cada vez que repreendo algum aluno (quer do próprio quer de outros), gente que tem sempre algo a criticar ou a dizer de sua justiça e não se contém, matéria a ser leccionada, esclarecimento de dúvidas, enfim, todo um ambiente propício à aprendizagem e um estendal de boas maneiras.

 

Às 13.20, um aluno de um dos décimos levantou-se sem pedir licença, ficámos todos a olhar e, em escassos segundos, deslocou-se para o fundo da sala e foi agredir um colega de outra turma, ao pé da janela. Este aluno, que normalmente é mal comportado, neste dia, por acaso, ainda não tinha perturbado ninguém, nem sido alvo de qualquer reparo da minha parte. Grupos de alunos seguraram os dois para não se envolverem à pancada, caíram mesas, cadeiras, o agressor foi levado para fora da sala e o agredido impedido de sair. Tentei acalmá-lo e fiz apelo para que desse o assunto por encerrado, mostrando-se superior à situação e evitando um processo de escalada de violência, até porque não era o agressor o verdadeiro responsável pela confusão a que se chegara. O aluno estava muito nervoso, vermelho e com um ritmo cardíaco elevado.

 

Tive ainda uma conversa com os alunos presentes em que lhes chamei, mais uma vez, a atenção para o clima que se criara ao longo do ano e permitira a ocorrência de um acontecimento desta natureza; falei-lhes igualmente do desequilíbrio emocional e de comportamento de vários jovens que integram a turma, incapazes de se modificar; referi ainda o facto de todos se permitirem falar e comentar, e nada fazerem para alterar os seus maus comportamentos. Dirigi-me então à Direcção com o agressor.

 

Quanto ao aluno que pretende ter sempre algo a dizer e para quem, no seu reino de fantasia, as palavras e os gestos têm sempre significados diferentes daqueles que os outros lhes atribuem, esse tem o vício de falar comigo, quando o repreendo ou sente alguma contrariedade, em voz alta e de dedo indicador esticado em direcção da minha cara, com o corpo a fazer um ângulo pois se acha muito alto. Já por inúmeras vezes lhe disse não lhe admitir tal atitude, pelo que hoje o encaminhei para a Direcção, por estar à porta do pavilhão A nestes preparos, acompanhado por outros alunos da outra turma que, mal comportados, naturalmente sentiam um peso na consciência.

 

Lamento que uma discussão com este jovem, após a cena havida em aula, seja caracterizada pela Directora, à frente do aluno, como «uma peixeirada» e me seja encomendada a devida participação escrita, modo pouco delicado de me convidar a sair do Gabinete. Realça-se a falta de sensibilidade para o desespero de alguém que, apesar de marés adversas, continua a tentar cumprir o seu papel, sem desistência ou pausas na sua actuação.

 

Berta Brás

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