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A bem da Nação

DEUS FOI QUEM DEU OS DENTES

 

Para aqueles que ainda não leram algo sobre essa outra “aventura”: em 2001 fui estar seis meses em Moçambique, como voluntário, ajudando na maravilhosa obra do Pai Américo, a Obra da Rua ou Casa do Gaiato. Na Massaca, Boane , a 45 km. de Maputo.
Há muito, muito que falar sobre esta Obra espantosa, mas hoje vão só dois “clichês” bem simples.
A Casa do Gaiato vista da horta. O cone ao fundo é o telhado da lindissima capela.

 
Aquilo a que, soberbos, os países ricos classificam de civilização, e que o dicionário eufemisticamente teima em traduzir por perfeição do estado social, não é mais do que um modus vivendi que, através da força do dinheiro e/ou órgãos de informação e difusão, se vai espalhando pelo mundo.
Não respeita fronteiras nem tradições, invade a privacidade, promove guerras e revoluções e a seguir empresta dinheiro para resolver situações criadas pela venda de armas, derruba e elege governos, e despreza os valores tradicionais.
Roma civilizou com o gládio, a inquisição com a água benta, os portugueses com a cruz e a espada, o Hitler tentou com os Panzers e Stalin com genocídios, os americanos com os dólares e a fissão dos átomos, e por aí segue a civilização, sendo a última moda as ONGs e os Projectos de Cooperação.
 
De repente, bem lá no interior duma qualquer selva tropical, onde habitam pigmeus ou insulares aborígenes asiáticos, entra um veículo motorizado, um rádio, uma revista pornográfica, que de entrada faz essa gente simples rir alegre e santamente e a seguir começa a perverter, e logo se põe o problema sobre o que está certo ou errado.
De que vale o milenar culto dos antepassados, se nos países civilizados os velhos são um lixo, um estorvo, e só quando morrem é que as pessoas fingem chorar a sua perda? Nem sempre!
De que vale uma Carta Universal dos Direitos do Homem se, nesses países civilizados, a voz da justiça tanta vez é abafada pela força da política, do dinheiro, dos lobbys e venda desenfreada de armas, minas anti pessoal e drogas?
Vasco e Jeremias. Em 2001, a estes ainda os dentes mal lhes haviam chegado!

 

 

Todos sabemos que a tal civilização pode trazer bem estar e melhoria de vida. Na verdade a quem? Àqueles que atraídos pelo mito das cidades acabam numa mísera barraca, à espera que da mesa dos bafejados caia uma migalha que lhes passe às mãos? Aos que na ânsia de usufruir dos bens modernos viajam como animais pendurados em velhos e desmantelados caminhões, ou os que todas as manhãs, e tardes, amontoados dentro de ónibus (autocarros, machimbombos, chapas, etc) com o imenso calor dos trópicos, correm para um sub emprego que na maioria dos casos nem lhes paga o básico para sua subsistência?
As ilusões vão-se perdendo, o Papai Noel deixa de ser um mito poético para ser unicamente uma festa da ganância comercial, assim como o Dia das Mães e o Dia das Crianças, e os civilizados passam a viver exclusivamente voltados para a força do dinheiro.
Abandonam-se os valores morais e as formas de religião tradicionais dando lugar àquelas que descobriram na crendice popular uma forma de rápido e violento enriquecimento, e a matéria acaba liquidando o espírito.
A um gaiato de 10 anos, moçambicano, cara alegre, cabeça rapada, orelhas em destaque, que ao rir mostrava a falta dos dois dentes incisivos de cima, por estar na idade da muda, perguntava para brincar com ele:
- O que você fez aos dentes? Comeu? Perdeu?
- Caíram!
- E onde estão agora?
- Na telha. E apontava para cima da casa.
- !?
Um religioso que ali estava, rindo também, explicou:
É tradição. Quando caem os dentes à criança, como foi Deus que lhos deu, ela atira-os para o ar, para Deus, para que Ele lhe devolva outros novos!
Quanta poesia, quanto respeito, quanta certeza no ciclo natural!
Felizmente ainda não estava totalmente civilizado, e por isso permanecia em comunhão e respeito para com o que os civilizados chamam de cosmos, mesmo sem saberem o que significa.

 
Numa das deambulações para captar em foto algumas imagens do povo, passei junto a uma casa onde estava uma mulher sentada à sombra a peneirar farinha. Ao lado um filhote de uns 2 anos. Disse-lhes adeus, sorriram e descontraídos corresponderam, com muitos outros adeus! Segui em frente. O filhote levantou-se e veio até à esquina da casa sempre a olhar para mim. Parei, para ver por onde seguir, olhei para trás e lá estava ele, ali a uns escassos metros. Disse-lhe adeus de novo. Sorriu e saiu a correr para mim! Quando chegou ao meu lado agarrou logo na minha mão. A mãe levantou-se veio atrás e quando o viu ao meu lado chamou-o: Zé! O tal de Zé disse logo “Não” e não largava a minha mão, com uma cara muito bem disposta! Devia querer ir passear comigo! A mãe tirou para fora um recheado peitão a ver se ele se interessava pela comida. “Não”.
Sempre com uma cara divertida, mas com a certeza de saber que naquele momento não era esse o programa que o atraía. A mãe aproximou-se (peitão já recolhido dentro da blusa, como é óbvio), ele largou a minha mão e fugiu. Lá foi ela atrás, apanhou-o, deu-lhe a mão, e quando os dois voltavam da grande “fuga”, uns cinco ou seis metros, fotografei-os. Vai aqui a foto deles.
Boa “praça”, o Zé!!


Do livro "Loisas da Arca do Velho", de Francisco G. de Amorim, 2001 - Livro inédito!
18-jan.2010

 

 

 

 

 

Do livro "Loisas da Arca do Velho", 2001 – Livro inédito!

 

 

 

 

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