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A bem da Nação

O JOGO DO AMOR E DO ACASO

 

 Pierre Carlet de Chamblain de Marivaux

(Paris, 1688 - Paris, 1763)

 

 

Vi na TV5 a peça de Marivaux “Le Jeu de l’Amour et do Hasard”, uma história de dois jovens desconhecidos – Sylvie e Dorante – prometidos em casamento pelos respectivos pais. Estava-se no século XVIII, eram os pais franceses que cozinhavam os casamentos, de acordo com as conveniências, como podemos confirmar também no lar inglês, em “Orgulho e Preconceito” da Jane Austen, cuja inquieta mãe da Elysabeth Bennet tanto se esforçava por bem casar as cinco filhas, oriundas de uma nobreza de escassa fortuna.

 

Os jovens Sylvie e Dorante, para não se submeterem sem mais aquelas às imposições paternas, em rebeldia própria de quem já então deseja afirmar a sua personalidade e direito de escolha, decidem trocar de papel com os criados – Lisette e Bourguignon – para poderem estudar o respectivo noivo, a coberto do disfarce.

 

Orgon, pai de Sylvie, presta-se ironicamente à decisão da filha de fazer de Lisette, sabendo, por carta recebida do seu amigo, pai de Dorante, que também este tivera igual ideia de trocar o seu estatuto pelo do criado Bourguignon; o irmão de Sylvie, Mario, igualmente dentro do segredo, salienta-se na travessura, fingindo um falso amor pela falsa Lisete para estimular os ciúmes de Dorante, no papel de Bourguignon; os criados, no falso papel de amos, desempenham um papel grotesco de enamorados, com linguagem própria da paródia burlesca.

 

Duas horas de um prazer absoluto, no encanto da representação, cada actor traduzindo impecavelmente o espírito da sua personagem, numa argumentação plena de vivacidade, elegância, humor, a que nos habituara de longa data Marivaux, com as suas peças – e sobretudo esta – expressiva de conhecimento psicológico, na progressão dos seus amores, os protagonistas enganados por falsos papéis que simultaneamente se atribuem, inicialmente negando, por amor-próprio, a atracção que vão sentindo, resultante da elegância de uma linguagem própria de salão a que naturalmente estão habituados.

 

Duas horas de prazer, duas horas de esquecimento dos malabarismos em que por aqui nos enredamos, encaminhando-nos inevitavelmente para o nosso aniquilamento, como pobre nação perdida.

 

Duas horas que nos fizeram esquecer como se processa no nosso país o enamoramento dos nossos jovens, ensinados de longa data a dar primazia ao corpo, esquecendo a alma, através da urgência de uma educação sexual responsável, creio bem, pelos casos cada vez mais frequentes de assassínios de raparigas pelos namorados imaturos, que uma sociedade perversa encaminha para a imediata troca de prazeres físicos, mal entrem na puberdade e no enamoramento que julgam definitivo.

 

A educação sexual nas escolas! O desrespeito pelas sensibilidades das crianças, impingindo-lhes, numa falsa seriedade, noções de mistura com o preservativo, convidativo ao deboche.

 

Vivemos numa sociedade de deboche, grande parte em jogo de amores de acaso. Daí, cada vez mais os casos de raparigas esfaqueadas, de assassínios, de suicídios, para não falar nos casos de pedofilia que a justiça deixa impunes. Sociedade de violência. Sociedade de corrupção. Sociedade embrutecida.

 

Que importa a uma sociedade embrutecida o que acabo de citar a respeito de uma peça francesa impecavelmente representada? Não estamos em França.

 

Berta Brás

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