Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

E afinal o Império Romano acabou?

Há dias, numa reunião de amigos apreciadores da cozinha italiana, alguém trouxe à baila a queda do Império Romano. Dizem os italianos que a "pasta" deve ser preparada por forma a corresponder ao estado de espírito de quem a vai comer; aqui deu-se o contrário, foi a massa cinzenta que se adaptou ao sabor latino da "pasta". Isto fez-me procurar nos escaninhos da memória lembranças dos tempos - já muito idos - em que devorei Gibbon, por tal sinal numa tradução francesa. E, enquanto saboreava o fettuccine fui dizendo:

- "O Cristianismo acabou como o Império Romano".

- "Nada disso", afirmou peremptoriamente um ilustre catedrático jubilado que ocupava a cabeceira da mesa.

Apanhado de surpresa, invoquei em meu auxílio a autoridade de Gibbon.

O catedrático não se impressionou. - "O Império Romano – assim como os outros – desfez-se em obediência a leis históricas que determinam o advento, crescimento e decadência dos impérios ", sustentou.

Fim de papo, diriam os brasileiros. Mas para mim não. O professor obrigou-me a vigília. Estive até às 4 da manhã a rever minhas notas e enviei-lhe o seguinte apontamento.

 

"A queda do Império Romano Ocidental oferece um exemplo pouco comum da dissolução de um império sem intervenção ou pressão de qualquer outro de força superior. O caso não configura uma sucessão de hegemonias – o que é relativamente frequente – mas o desmoronar de uma hegemonia sem sucessor imediato, salvo o caos, facto que tem intrigado os historiadores de todos os tempos. O primeiro que tratou o tema fundado em textos da época foi, no final do século XVIII, o inglês Edward Gibbon. Ele dedicou toda a sua vida adulta ao estudo da questão e deixou-nos seis volumes cobrindo a história do Declínio e Queda do Império Romano cujo início situa em Marco Aurélio. Por via desta obra, tornou-se mentor do século e meio da expansão colonial britânica. Todos os neo-imperialistas leram o "Declínio e Queda".

Disse o Gibbon : - "Ao discutir o Barbarismo e a Cristandade eu tenho na realidade vindo a discutir a queda de Roma". E não tinha a menor dúvida: "O Cristianismo criou a crença numa vida melhor além túmulo e assim precipitou entre os Romanos uma atitude de indiferença perante a realidade vivencial que lhes enfraqueceu a vontade de lutar pelo Império". Também admitiu que o relativo pacifismo próprio do Cristianismo ajudara a minar "o espírito marcial de Roma".

Gibbon mostra que a oficialização da religião cristã provocou desentendimentos constantes no centro do poder do Império Ocidental. Ora o Papa, ora o Imperador tinham a influência dominante, o que não aconteceu no Império Bizantino (ortodoxo) onde se criou a figura do Papa-César. A esta rivalidade fracturante acresciam as lutas pelo poder entre facções religiosas que vieram complicar as que sempre tinham existido entre caudilhos militares. O Cristianismo não trouxe a unidade de comando nem sequer a unidade cultural. As seitas religiosas guerreavam-se constantemente.

Mais importante, porém: - o Império instituído por Augusto visava enquadrar politico-administrativamente um regime económico fundado no despojo de guerra, na pilhagem e no trabalho escravo. Gibbon admitia que a convergência de interesses em torno da exploração da mão de obra a custo próximo do zero – ao tempo, a principal fonte de energia – teria sido o factor que sustentou o Império. O Cristianismo veio contrariar tal prática. Portanto, o Cristianismo desmantelou a moralidade até aí prevalecente, dividiu e enfraqueceu a autoridade central, reduziu o valor marcial dos legionários e tornou o negócio imperial desinteressante. Daí que atribuir-lhe a queda do Império ganhe justificação.

No século XX, surgiram vários autores que estudaram o mesmo tema. Nenhum contesta o rigor factual de Gibbon, se bem que muitos discordem da leitura dos factos por ele feita. E foram tantos os novos teóricos que, em 1984, o professor alemão Alexander Demandt pôde publicar uma colecção de 210 teorias elaboradas sobre a queda de Roma. Algumas destas teorias são – como a do meu interlocutor – historicistas. Admitem que o fenómeno do surgimento, crescimento e posterior colapso dos impérios se rege por leis históricas. O historicismo porém tem sido objecto de duras criticas, a começar pelas de Popper e de Wittgenstein. Para estes, nada nos autoriza a deduzir leis de factos históricos. Cada processo tem a sua índole específica.

 

Hoje, nem sequer sabemos se o Império Romano desapareceu, pois há quem mantenha que sobreviveu sob outras formas: - latente ou subjacente estaria aí pronto a manifestar-se se e quando necessário.

 

Uma última observação: Não sei se Gandhi leu Gibbon, mas não tenho dúvidas de que o libertador da Índia admitiu como Gibbon que a forma mais eficaz de acabar com um império consiste em desacreditar a moralidade que o justificou.

 

Estoril, 22 de Março de 2010

 

 Luís Soares de Oliveira

3 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contador


contador de visitas para site

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2006
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2005
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2004
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D