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A bem da Nação

Prémios

 

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             Romena de origem, costumava aparecer à mesa da esplanada, para vender os produtos da sua sobrevivência: canetas, calendários, Bordas d’Água, isqueiros de cozinha... Era alegre e simpática, e quando não lhe comprava nada, geralmente contribuía para a sua sobrevivência com a esmola da minha desistência, convicta da Inutilidade dos considerandos acerca da dignidade humana. Disse-me que se chamava Bianca, mais tarde vim a saber, quando lhe fiz o contrato para o subsídio, que o nome real era Mariana, mudara-o quando veio para Portugal.
Num dia de cansaço maior, a minha filha sugeriu-me que a contratasse para umas horas semanais nos trabalhos da casa. A Bianca veio um dia por semana para as limpezas em maior escala. Mas era nova, 23 anos, não sabia trabalhar bem, voluntariosa e rebelde a ensinamentos. Cinco euros por hora, durante um ano e meio, forneci-lhe talheres e louças, as panelas necessárias, alguma roupa de bragal, para pôr casa com o seu rapaz romeno. E antes de lhe nascer a filha, esperta no seu saber de convívio com as conterrâneas, pediu-me o contrato que lhe daria direito ao subsídio. Mas um dia, exasperada por tanta moleza e rebeldia, despedi-a. Não se importou muito, porque tinha o subsídio.
Largos meses passaram, encontrei-a várias vezes a vender os calendários da sua opção. Mas não lhe comprei nenhum, nem lhe dei mais as esmolas das minhas dúvidas sociológicas.
Soube que a minha Mãe partira uma perna e perguntou se não podia voltar. O esgotamento levou-me a aceitá-la três horas por dia. Verifiquei que a Bianca crescera. Tomou conta da casa, assumiu as suas limpezas com mais rigor, participa na ajuda à minha Mãe, alegre e terna, merece o prémio de mais um euro por hora.
Lembro-me de que, logo após o 25 de Abril, para se justificarem os nossos insucessos no desporto olímpico ou outro qualquer, corria o slogan do “perder ou ganhar tudo é desporto” e bravos éramos nós, que concorríamos sempre sem glória. Carlos Lopes, Rosa Mota, outros nomes foram surgindo a valorizar a nossa participação desde sempre deficitária e a encher-nos de brios, contribuindo o sucesso para se alargar o leque das disciplinas desportivas para competições. Afinal, os prémios são extremamente estimulantes, daí que apoiemos os que poderão projectar-nos exteriormente, mesmo que só a pontapear.
Mas o negócio vem a par do êxito, e a tal educação do corpo, apanágio dos jogos gregos de outrora, deixou de ter sentido. Hoje joga-se para arrancar dinheiro, como se estuda no mesmo sentido. A última foi o prémio em dinheiro aos alunos brilhantes de escolas portuguesas, sem conhecermos os critérios que levaram à atribuição de tal brilhantismo. Uma política da actual Educação, para atrair a simpatia para o Governo que a defende e assim justifica, com um meio de corrupção nos jovens, a corrupção actual dos adultos.
Dantes, havia quadros de honra para os alunos que os mereciam e que estudavam por gosto, estimulados, é certo, talvez, também nas suas vaidades ou desejos de saliência. Mas tudo isso era positivo, porque a ambição e o brio pessoal são qualidades positivas quando levam ao desejo de aquisição de competências. O 25 de Abril aboliu os quadros de honra, na sua pseudo-bondade para com os menos favorecidos pela inteligência ou outras capacidades. Creio até que as propostas dos democratas de simplificação de competências visava a sua própria projecção, ultrapassando, com as suas novas leis massificadoras, outros a quem o estudo favorecera gradualmente. E assim os capitães se alcandoraram nos postos superiores, sem terem que seguir os estudos sempre massacrantes para quem não gosta de estudar.
Parece que o quadro de honra se instalou novamente nas escolas. Não é do meu tempo de docência. Mas o dinheiro, mola real do progresso, é actualmente também atribuído aos melhores da nação, tal como ao melhor professor, ao melhor dos melhores de qualquer coisa. Dão-se prémios aos melhores. Nas empresas, nos bancos. É estimulante.
 Já não se fazem, é certo, concursos, as empresas vão buscar os melhores alunos às escolas, talvez lhes paguem melhor do que aos outros trabalhadores, que ao longo da sua vida de trabalho apenas se limitaram a cumprir com mais ou menos brio, dependendo este do profissionalismo de cada um, sabendo, de antemão, que o seu trabalho jamais seria valorizado. Eram bons profissionais por dignidade pessoal, por amor à camisola, por competência própria.
Mas os prémios de remuneração dos melhores são excessivos entre os que dirigem – os bancos, as empresas, os donos do capital, afinal, que o obtiveram, tantas vezes, por meios iníquos.
Premiar um juiz para não ser corrupto? Premiar um banqueiro, um gerente de uma empresa para o mesmo efeito? Afinal, é o Estado que paga a esses, quando há derrapagens, os contribuintes é que pagam, os donos dos capitais mal ganhos repoltreiam-se nesses fundos das suas glórias, e cá por baixo o povo vai gemendo sob as políticas dos governantes que não pedem contas, não castigam, não exigem reposição dos tais prémios astronómicos. Para não serem corruptos, mas sendo-o com mais gana ainda. Que o dinheiro sem critério os corrompeu mais e mais. Entretanto, vão distribuindo uns premiozitos aos alunos mais competentes, provavelmente arbitrariamente mais competentes, ou ao professor que assim se revelou, provavelmente também arbitrariamente, a este ou àquele da sua definição de valor, mais ou menos arbitrária. Porque fruto de acefalia, de absurdo interesse, de egoísmo, de mentira, de desprezo pela nação que só prezam nas eleições.
 O povo paga sempre, e vai pagar por tudo isso, não sendo aumentado nos tempos mais próximos. Só a gasolina. E o arroz. Para o enriquecimento dos gerentes dos bancos e dos donos das empresas que os vendem. O prémio é desses. Os outros premiozitos servem para corromper, para disfarçar, para seduzir.
O prémio de um euro a mais por hora à Bianca é real, pese embora a dificuldade em o conceder. Depende do seu mérito actual, honestamente reconhecido. Por isso, estimulante. Mas o afirmá-lo é risível, eu sei.
Berta Brás

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