Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

OUTROS MUNDOS

  

... mas, afinal, o que é a verdade?
 
Eis uma questão de resposta múltipla: se nos referirmos à verdade no sentido policial, trata-se da conformidade com os factos ocorridos numa certa circunstância que interessa à Polícia apurar; se nos referimos à verdade histórica, trata-se da que corresponde à hermenêutica; se nos referimos à verdade científica, por exemplo nas ciências da Natureza, trata-se de um ponto no infinito.
 
Uma palavra só e, contudo, suficiente para abarcarmos de uma única vez os três mundos coexistentes: o mundo das coisas; o dos estados de espírito, sentimentos; o das congeminações humanas, ou seja, das teorias.
 
No mundo das coisas não merece grande discussão o que é uma cadeira; a verdade histórica pode despertar sentimentos antagónicos tão fracturantes como os que estiveram na origem dos acontecimentos em análise e dar perspectivas diferentes da verdade conforme o lado em que se coloque cada observador; a verdade científica sobre a mecânica celeste foi uma novidade com a teoria de Newton mas passou a ser outra quando Einstein formulou as suas teorias sobre o espaço-tempo – e, mesmo assim, Einstein teve o cuidado de dizer que as suas teorias seriam válidas enquanto não aparecessem outras que as invalidassem…
 
Ou seja, temos três tipos de verdade: a material, axiomática; as do mundo espiritual, dos sentimentos; as que resultam da congeminação humana.
 
Mas da congeminação humana não resultam apenas bichos-de-sete-cabeças como essas teorias do espaço-tempo e outras que tais. Muito prosaicamente, a linguagem é o resultado da congeminação humana e, portanto, pertencente a essa terceira dimensão com que todos contactamos (os surdo-mudos têm a língua gestual que pertence ao mesmo mundo da língua oral – congeminação humana).
 
E como cada um de nós tem uma percepção relativamente exacta do mundo material que o rodeia, uma ideia aproximada dos seus próprios sentimentos e uma ideia mais ou menos objectiva ou mais ou menos vaga das teorias que toma como certas até prova em contrário, então temos que concluir ser cada um de nós o núcleo de três mundos concêntricos de dimensões tão limitadas ou infinitas quanto a teoria do espaço-tempo de Einstein permite conceber…
 
Mas as congeminações humanas são feitas em busca da verdade e, portanto, temos que reconhecer que essa verdade – por muito distante que possa estar do nosso alcance – existe de facto. Ou seja, as congeminações resultam de um esforço na busca da verdade final e, portanto, não são invenções mas apenas descobertas: a verdade existe por si e não pelo conceito que dela fazemos. Daqui resulta que os conceitos são transitórios e só a verdade é definitiva.
 
Cada mundo correspondendo ao tipo de conteúdo que encerra mas tendo como referência essencial a concepção subjectiva que o núcleo (cada pessoa) deles faz; com o desaparecimento físico do núcleo desaparece também a inerente concepção subjectiva e, assim, deixam também de existir as três dimensões a que o núcleo se referia. A menos que permaneça uma outra dimensão meramente espiritual, desencarnada, num outro mundo para que não dispomos de outra verdade que não a da Fé.
 
 
Lisboa, Fevereiro de 2010
 
 Henrique Salles da Fonseca
 
 
BIBLIOGRAFIA:
 
POPPER, Karl R. – EM BUSCA DE UM MUNDO MELHOR, Editorial Fragmentos, Ldª, 3ª edição, Novembro de 1992

5 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D