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A bem da Nação

APLAUDINDO AS PALAVRAS DO EMBAIXADOR ALEXANDER ELLIS

 

 
 
O texto do embaixador inglês, acabado de publicar neste blogue, não me surpreende nem a mim nem aos que se recusam a mergulhar no desânimo lastimoso. Aliás, as suas palavras trazem-me também à lembrança o treinador de futebol inglês John Mortimer quando ele regressou ao nosso país para treinar o Belenenses (década de 90), após ter passado pela primeira vez pelo Benfica alguns bons anos atrás (1976/1979). Numa entrevista ao jornal A Bola, aquele técnico afirmava que encontrou, nessa sua nova vinda a Portugal, um país que se transformara a olhos vistos, espantando-se com o salto qualitativo operado nesse intervalo de tempo.
 
É agora o embaixador Alexander Ellis que vem desmentir aquilo que constantemente ouvimos da boca de pessoas eternamente insatisfeitas, sempre desanimadas e incrédulas, que muitas vezes até fazem a apologia dos “bons tempos de Salazar”.
 
Ainda ontem, uma velhota minha conhecida, dos seus 80 e poucos anos, criticava algumas vozes pessimistas que proclamam as virtudes e as vantagens dos tempos antigos. E ela, idosa mas lúcida e esclarecida, lembrou então a fome e a miséria que se passava na sua aldeia algures na Beira Baixa, onde muitas vezes as pessoas se conformavam com uma única refeição diária e mesmo assim paupérrima, em que uma única sardinha era normalmente repartida entre duas pessoas; em que as crianças quase não bebiam leite, contentando-se com a “sopa de cavalo cansado”; em que o consumo regular de carne nem vê-lo, só ao alcance dos de maior posse. E lembrou que não havia reformas para quem trabalhava no campo ou em ofícios menores, citando o caso do pai, combatente da Grande Guerra, que não teve qualquer pensão depois de trabalhar uma vida inteira como mestre de obras numa Câmara Municipal; e sem qualquer assistência social na fase mais avançada da sua vida e no estado decadente da sua saúde, ele que era um veterano da Grande Guerra. Trata-se de uma velha conhecida da minha sogra, viúva, a quem dou apoio com o meu carro para a levar ao Centro de Saúde local, onde ela dispõe de uma assistência médica que lhe permite estabelecer conscienciosamente um paralelo com os tempos de outrora.
 
E ontem mesmo, levei-a ao Centro de Saúde, onde tirou a sua senha de chegada e, após o tempo de espera normal, era atendida pela sua médica de família, que lhe receitou análises sanguíneas e radiografias que horas depois eram marcadas, respectivamente, num Laboratório e num Centro de Diagnóstico locais, as análises para o dia seguinte e as radiografias para 5 dias depois.
 
Velhota conversadora e de língua afiada, critica frequentemente dois vizinhos dela, um que se reformou na casa dos 40 anos por doença simulada, segundo ela, mas continuando a trabalhar por conta própria, e um casal que recebe subsídio de desemprego mas tem 2 carros estacionados à porta, pouco se ralando com o fazer pela vida.
 
Acrescento que esta Senhora costuma convidar-nos para a sua quintarola na aldeia da Beira Baixa onde nasceu, de onde de vez em quando regressamos com o porta-bagagem carregado com aquelas delícias hortícolas e frutícolas que fazem o regalo por serem produzidas com poucos ou nenhuns químicos. Mas reparo sempre que onde antigamente havia estradas rurais em mau estado há hoje vias asfaltadas, isto para não falar na rede estradal de boa qualidade que serve as redondezas e os acessos. As ruas da localidade que à noite mergulhavam numa escuridão de breu, são hoje iluminadas com candeeiros eléctricos. A higiene que noutros tempos era bastante precária hoje conhece outras práticas, visto que a maior parte das habitações tem instalação sanitária, vendo-se moradias de muito boa qualidade de construção e com os confortos citadinos. As tabernas rústicas de outros tempos, embora alguma possa subsistir, dão primazia a cafés suficientemente equipados, com retrete, e com condições para neles se tomar uma “bica” normal como em qualquer lado. Vêem-se nas prateleiras bebidas espirituosas de toda a espécie, sendo que os jovens actualmente têm maior predilecção pela cerveja, descurando o vinho que, se antes era o carrascão que saía da pipa, hoje é de uma qualidade devidamente certificada pelos vários exemplares da garrafeira exposta.
 
Em suma, vou a esse Café e deparo com uma qualidade de vida que no essencial não faz grande diferença da do estabelecimento congénere da cidade. Ah, nesse café, aliás, tal como em mais outros dois dessa aldeia, há televisão a cores onde se pode ver os desafios de futebol da nossa Liga através do canal Sport TV.
 
No Verão passado, a caminho de mais uma visita à tal quintarola, parei em Castanheira de Pêra e fui surpreendido por uma enorme praia fluvial nessa localidade, a maior que já vi do género em Portugal. O aproveitamento do leito de um rio permitiu o nascimento daquilo que faz as delícias da população local e de outras localidades da zona. Uma praia fluvial de grande extensão, com palmeiras, areal, ondas artificiais, onde até há ancoradouro para pequenos barcos de recreio. Estava nesse dia uma canícula de rachar e ao olhar para as centenas de pessoas a refrescarem-se naquele aprazível empreendimento, lembrei-me desta expressão do nosso saudoso Fernando Pessa: “E esta, hem?
 
Poderia ainda falar um pouco dos extraordinários sinais de evolução que, de passagem, encontro nas vilas da Sertã ou Cernache de Bonjardim, onde as minhas palavras de apreço ganham naturalmente mais larga expressão. Em ambas as localidades encontramos restaurantes e cafés de bom nível e com instalações sanitárias que pedem meças a algumas que vemos na Europa dita mais civilizada.
 
Não me esqueço que em Paris entrei em casas de banho inadequadas e com duvidosa higiene de manutenção, isto para não citar que em plenos Champs-Élysées tive um dia de ficar de sentinela à porta da “casa de banho” de um Café enquanto a minha mulher lá estava, porque era para ambos os sexos. Em Cernache de Bonjardim, existe um excelente Café que fabrica pastéis de nata que nada ficam a dever aos de Belém, e na Sertã, há bons estabelecimentos onde se pode comprar o tradicional “maranho” e enchidos de qualidade, e bons restaurantes que servem pratos regionais visando o turismo. São bem evidentes os sinais de progresso social mesmo no interior de Portugal.
 
E não preciso adiantar mais exemplos do género sobre o que separa o Portugal de hoje do de há 3 décadas atrás. É claro que há ainda muito caminho a percorrer para podermos atingir outros patamares de progresso social. Mas é preciso que tenhamos assomos de juízo e que acertemos o entendimento e a unidade nacional em torno dos grandes desafios, em vez de gastarmos tempo e energias com politiquices e regabofes sobre questões ridículas de que todos nós já andamos fartos.
 
Ainda há menos de 2 horas, assisti a uma entrevista-debate com o Medina Carreira e o Luís Campos e Cunha e, enfim, voltei a ouvir as suas habituais receitas sobre como resolver o problema da estagnação do nosso crescimento económico e o do nosso défice orçamental crónico. Eles têm razão, é certo, se virmos as coisas de um ponto de vista virtual, isto é, sem plantarmos bruscamente aquelas soluções radicais no país real, onde se mantém inalterável, e num caso com surpreendente crescimento eleitoral, certa esquerda radical que acredita na intocabilidade e na consagração absoluta do Estado Social e que explora ao máximo o descontentamento popular por qualquer medida política reformista.
 
Não vou opinar sobre estas questões ideológicas que estão longe de concitar o necessário consenso nacional para lograrmos ultrapassar os nossos estrangulamentos, mas vou apenas registar que me agradou ouvir as impressões (muito positivas) daquelas ilustres figuras sobre a nomeação de Vítor Constâncio para vice-presidente do BCE. É que me veio logo à mente que esse prestigiado economista não foi tratado com a devida consideração pelo jovem deputado Nuno Melo, e não só, por ocasião do inquérito parlamentar a propósito do caso BPN e que, ainda recentemente, não se coibiu de voltar a emitir um juízo crítico no átrio do Parlamento Europeu, não sei se no palco, a respeito desta nomeação, por considerar Constâncio o principal culpado da crise do BPN e do BPP.
 
E a propósito do Parlamento Europeu, creio que não agradou à maioria dos portugueses ouvir o deputado Paulo Rangel bradar alto e bom som que não há liberdade de expressão no nosso país. Um meu amigo espanhol comentou que nenhum compatriota seu diria tal coisa do seu país, mesmo que tivesse razões para tal.
 
Foi ao correr da pena que escrevi estas palavras de apreço sobre o Portugal de hoje, mas não resisti, já no final, a deixar claro que bem mais longe poderemos ir quando os nossos políticos tomarem consciência de que o combate político-partidário não lhes pode tolher o bom senso e a lucidez.
 
 
Tomar, 15 de Fevereiro de 2010
 
Adriano Miranda Lima
 

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