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A bem da Nação

OS ESCRAVOS BRANCOS AÇORIANOS

 

 
 
 
Desde o nascimento como povo, os açorianos conheceram a escravidão. À principio como vitimas e presas de piratas nas lutas religiosas entre cristãos e muçulmanos e mais tarde como mão-de-obra barata e escrava em terras de novo mundo. Com a proibição do tráfico de escravos no século XIX, os grandes plantadores brasileiros viram-se na condição premente de arranjar gente para trabalhar a terra. Foi na imigração que a politica tentou resolver o problema. Formaram-se grupos legais para contratos de trabalho no exterior, amparados pelos governos. Os portugueses e italianos mais pobres e necessitados eram os mais encontrados para  fazerem esse tipo de transacção.  
 
Os imigrantes recebiam passagens,   pagamentos de deslocamentos até as fazendas. Alimentação e local para morada, tudo seria pago com prestação de serviços até cumprirem o contrato. Assim começavam as desditas desses contratados. Com as dificuldades em juntar dinheiro, a maioria não conseguia liquidar as dividas e tornava-se cativa dos patrões.   A situação piorava quando o imigrante se encontrava em situação irregular com o Estado, quando entrava no país de forma clandestina. Com receio de procurar alguma autoridade, tornava-se um marginal sem direitos e muitas vezes caía no crime. Só bem mais tarde, no século passado,  o Consulado Português  tomou uma atitude controlando e avaliando os  contratos  de trabalho, para tentar proteger o imigrante contra os especuladores e desmandos de patrões desumanos.
 
Com o tempo os imigrantes portugueses perceberam que nas actividades urbanas e no Comércio poderiam ter mais chance de independência financeira. Mas os açorianos, na imensa maioria analfabetos, sem alternativa de escolha de trabalho,  iam para as fazendas produtoras de café, na zona rural. Os que escolhiam ficar na cidade faziam trabalhos braçais como conduzir ou puxar carroças ( os burros sem rabo) ou trabalhar em Chácaras perto da cidade, cuidando de plantas e gado.
 
Para fugir da miséria ou do serviço militar obrigatório muitas famílias portuguesas faziam sacrifícios,  vendiam o que possuíam para enviar os filhos para o exterior. Assim é que jovens de 17 anos e até menos,  chegavam ao país desconhecido sozinhas. Felizes eram as que encontravam abrigo em casa de parentes e amigos,  porque não era incomum serem largadas à própria sorte para trabalhos em armazéns e casas de charque onde dormiam em cima de sacos de cebolas e feijão,  dividindo o espaço com ratos e comendo o que lhes dava o patrão. Sem higiene e alimentação adequados, muitos não resistiam e caíam doentes. Alguns  morriam abandonados em alguma instituição pública para indigentes. Os mais fortes resistiam e ganhavam a vida fazendo serviços brutos,  ou como atendentes em lojas. Alguns conseguiam serviços de caixeiro viajante.   Esses  ganhavam o suficiente para sobreviver e conseguiam até fazer 
"dinheiro". Eram uns poucos.
 
Numa amostragem oficial do inicio do século passado, no Rio de Janeiro, de 182 imigrantes homens açorianos (oriundos do Faial), 120 eram solteiros, apesar de terem mais de 40 anos. O motivo declarado era a dificuldade de ter ganhos para sustentar uma família.
 
Nas fazendas do interior brasileiro as dificuldades de adaptação ao meio arruinavam a saúde dos imigrantes europeus mais fracos. Levantavam-se antes da aurora, tinham meia hora para cada refeição (três por dia)  e só paravam de trabalhar após uma jornada de 10 horas, quando a noite caia. O sol e o calor inclementes, os mosquitos, os animais  peçonhentos,  a derrubada das matas,  os alimentos diferentes, a falta de médicos e de remédios foram situações superadas só nas gerações subsequentes. Os primeiros imigrantes precisaram aprender a se alimentar com a farinha de mandioca mansa - a brava mata - e de milho, a comer carne e peixes secos. Passaram a conhecer e comer frutos e animais selvagens e a  se tratar com receitas indígenas e roceiras para sobreviver.   O café passou a fazer parte do seu dia a dia,  como alimento e estimulante para superar o cansaço da lida. Eram tantas as mortes que um agente consular do Maranhão dizia...que num ambiente somente suportado pelos africanos, naturalmente adaptados, o louco imigrante colocava a vida quotidianamente em risco...
 
Havia também os mais espertos, aqueles que saíam da terra com um contrato, mas chegando no país pediam liberação dele, com alegações e negociações através do Consulado. Pagavam multas ou renegociavam-nas pelo dobro do contrato. Esses foram os que não se apertaram, que souberam usar das brechas e das falhas das leis, foram os protótipos dos nossos políticos!
 
No contingente açoriano vinham também mulheres, casadas e solteiras. Ramalho Ortigão dizia do apreço dos fazendeiros brasileiros pelas jovens açorianas, chegando a pedi-las por "encomenda! É sabido de casos em que eram empregadas em serviços domésticos e outros serviços não tão honrados, dependendo da aparência que possuíam.  Na luta pela sobrevivência, sem qualificação profissional, nas cidades,  muitas se entregavam à prostituição, morrendo não raro de doenças, ditas antigamente venéreas,  em cortiços infectos,  sozinhas.
 
Mas dentre tantas tristes histórias haviam também aqueles que sobreviveram e que "fizeram a  América". No inicio do século passado, as estatísticas dos Açores diziam que em cada 10 emigrantes, 3 morriam, 3 voltavam mais pobres e haviam aqueles poucos que voltavam com a saca cheia! O resto ficava e não voltava mais. Os que constituíam nova família, a família brasileira. Basta comprovar na História os brasileiros filhos ou netos de açorianos que marcaram presença,  Machado de Assis, Getúlio Vargas, João Goulart, Cecilia Meirelles, Érico Veríssimo, Euclides da Cunha, Pedro Nava, Guimarães Rosa ...e tantos outros que têm nas veias o sangue açoriano.
 
Embora essa posição não seja hoje mais comum de se ver, até uns cinquenta anos atrás aquele imigrante que conseguia fazer capital e se destacar na sociedade local era motivo de inveja e até de hostilidades. A explicação possa ter sido dada pelo complexo colonial brasileiro daquela época,  em que ainda havia uma necessidade de afirmação nacionalista. Talvez fosse perturbador ver o imigrante ignorante e miserável, apesar  de todas as dificuldades, ser capaz de em  terra estranha superar a mediocridade da sua existência.
 
Uberaba, 10/02/2010
 Maria Eduarda Fagundes
 

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