UM CIENTISTA PORTUGUÊS

Universidade de Faro, Grande Auditório, 29 de Janeiro de 2010.
Depois de ler o extenso curriculum científico e académico de Emídio Landerset Cadima e mostrar a importância dos avanços por este realizados no domínio da Genética das Populações Marítimas, o Professor Dr. Rafael Robles, Director do Centro Oceanográfico de Vigo, vindo propositadamente de Espanha, disse que aceitara a honra de apadrinhar o doutoramento Honoris Causa por cinco razões:
1- A coerência demonstrada pelo homenageado ao longo de toda a sua vida;
2- A humanidade que transparece em todas as manifestações do seu espírito;
3- A coragem que lhe permitiu inovar, aplicando a Matemática num campo de investigação biológica,
4 - A capacidade de liderança das equipes de trabalho que chefiou e – last but not the least –
5 - Tratar-se de um "bom homem"
Robles considera E. Cadima – com 38 trabalhos científicos publicados – um dos maiores cientistas mundiais no domínio da Avaliação de Recursos Bio-Marítimos.
Emídio no seu agradecimento apontou o perigo do novo procedimento internacional adoptado em matéria da licenças de pesca - o leilão. Disse: aqueles que pagam para obter direitos de pesca numa determinada zona vão procurar rentabilizar o seu capital e a última coisa que lhes interessa é a conservação das espécies. Disse ainda, que a indústria nacional da pesca não deve ser avaliada em função da sua contribuição para o PIB – que é fraca – mas sim em função da importância que o peixe tem na alimentação dos portugueses. Por fim, deplorou a despromoção da matemática nos currículos escolares portugueses feita a título de "é preciso melhorar os índices estatísticos de aproveitamento escolar" e com a falsa justificação de que "o computador resolve tudo". O computador, disse, ajuda o matemático mas não substitui o matemático.
Presentes: Além dos corpos docente e discente da Universidade, o engenheiro Macário Correia, presidente da CM de Faro e Sidney Holt, pesquisador sénior do Laboratório de Lowestoft, o maior centro de pesquisa oceanográfica do Reino Unido
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O Jantar de Homenagem reuniu 100 amigos e admiradores de E.L. Cadima. (Duas dezenas ficaram de fora por falta de lugar na sala). O ambiente foi da máxima cordialidade e alegria. Nos discursos informais foram referidas duas anedotas que ilustram o carácter do homenageado. Em 1962, Cadima trabalhava para o Instituto de Biologia Marítima, em Lisboa, quando foi avisado pelo seu chefe que a PIDE o ia prender. À maneira de célebre Dr. Johnson, Cadima constatou que avisos desta natureza são a melhor forma de concentrar a mente. Cinco horas depois estava em Londres com 10 libras no bolso, disposto a lavar pratos em qualquer restaurante que lhe garantisse o sustento. Não foi preciso. Tendo contactado pesquisadores do seu ramo com quem já mantinha correspondência, estes imediatamente o convidaram para trabalhar em Lowestoft. Pôde assim dedicar-se à pesquisa e especializar-se, sem receio de intervenções inoportunas. Doutra feita, em 1976, os técnicos de Vigo que tinham vindo a Lisboa discutir stocks de peixe na costa ibero-atlântica ficaram impossibilitados de o fazer porque a incipiente máquina calculadora de que dispunham se avariou. O Prof. Cadima resolveu o problema. Ficou uma noite sem dormir e refez de cabeça os cálculos perdidos na memória da calculadora estropiada.
No que me toca, revejo-me numa amizade que teve início no Colégio Militar e se manteve ininterrupta durante 70 anos. Lembro, a propósito, que a rapaziada do nosso curso crismou então Emídio Cadima com a alcunha de Pitágoras. Premunição.
