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A bem da Nação

Aerodinâmica – 5

 

O catarro matinal, feroz e dominante, acentuou-se com a gravidade da situação. O cronista estava em apuros e emperrava na prossecução de uma linha de ideias suficiente coerente. Precisava de apanhar ar fresco para revitalizar o seu corpo. Abria a porta de acesso ao terraço e enxotava um pombo raquítico. A cadeira de verga, bolorenta e desfiada nas costas, ainda aguentava o peso de um homem mortificado. A vista sobre a cidade era reconfortante, porque lá fora havia casos semelhantes de angústia, pequenas histórias engrandecidas pelos próprios, ignoradas pelos outros. Os pensamentos acompanhavam o cigarro que morria lentamente como sempre. A folha de papel trazida pelo vento dava sinal de vida, como uma bandeira de rendição num dia de vento moderado, um salvo-conduto para autorizar a passagem numa zona de guerra ou num texto. O cronista reparou na folha. A caligrafia arbustosa povoava intensamente o papel. A distância entre as palavras era semelhante à utilizada por si, a mancha desenhada pelas linhas era um pouco menos densa, penetrante e misteriosa. Pegou na folha e olhou para trás para certificar-se que ninguém estava na sala, como se o autor da mensagem pudesse ainda estar na sala ou na casa de banho a vasculhar por detrás do espelho, mas não havia ninguém, e a folha não estava assinada. As ideias estampadas no papel pairavam, suspensas e voláteis, facilmente tomadas pelo cronista se assim o desejasse. A primeira frase suficiente para cativar o cronista numa espécie de feitiço. A amostra colhida na primeira leitura, revelava qualidades ao alcance de poucos escritores. A redacção com indícios de imortalidade, nascida a partir de uma condição nocturna repartida ao longo de uma vida. Como se um enjoo continuado molestasse o suficiente para produzir um corrimento, uma cascata de prémios conceptuais. Apercebendo-se da grandeza do texto, e do acaso que trouxera até si este telegrama, o cronista dirigiu-se apressadamente para o interior do apartamento para resguardar o seu acto invasivo e voyeurista, de olhares indiscretos da cidade. Na sua mente, já estava cravado um esquema de desvio, de rapto ou sabotagem. O texto era perfeito e poderia ocupar o espaço vertical atribuído pelo semanário. O espaço era um terreno livre mas ensanduichado entre um ensaio sobre auto-ajuda e um poema de índole religioso. O conteúdo da mensagem era tão universal que facilmente contagiava qualquer discussão ou condicionava as emoções. Um laivo de consciência obrigava o jornalista a submeter-se a um pequeno exame de consciência. O alibi que precisava, determinava que realizasse uma pequena busca para encontrar o autor da página orfã. Começou a bater terreno. Dirigiu-se novamente ao terraço, encostou-se ao limite do varandim e olhou para baixo para a rua. Transeuntes apressados faziam-se à vida e nenhum deles parecia ter perdido alguma coisa. Olhavam todos em frente ou ocasionalmente para a calçada incompleta a que faltavam pedras como a um desdentado contente, mas nunca para cima. Essa evidência era a prova suficiente para ilibar o cronista do relatório de perdidos e achados. A folha estava livre e disponível para qualquer fim decidido nos confins do apartamento. A coisa podia morrer ali sem que ninguém soubesse, a cesta ao canto era um corredor da morte ansiando pela recliclagem do papel, a conversão das folhas em florestas virgens povoadas de editores unicórnicos, ceptros em formas tipográficas com grande predominância de forquilhas endiabradas. Ao longe as forquilhas lembravam a letra E ao alto, virada para os céus, gloriosa por destronar a ordem alfabética. O cronista divagava como se drogado pelo efeito bélico da injecção da página descoberta no terraço. Era uma dose de cavalo. Tinha havido um acto de transgressão, uma invasão salutar da propriedade. O convite tornara-se irrelevante à luz de uma força maior que impõe a sua vontade. A natureza é assim mesmo – vento sem bazófia, verdade soprada. É só vê-la e agarrar com dois finos dedos a matéria imposta sobre a milimetria do perfil. Bastava agora encenar a aparição milagrosa da crónica. O director editorial havia feito um ultimato irreversível há algumas horas atrás, e o cronista sabia que poderia levantar suspeitas se o texto fosse entregue instantaneamente. Para entregar a revelação e não criar suspeições teria de viver uma vida inteira e renascer. Calcorreando as linhas deitadas na folha de papel, paralela sobre paralela, escadaria penosa para chegar lá e rolar. O texto teria de ser copiado para um ficheiro e entregue na redacção. Essa operação neutralizava o cunho caligráfico, a pequena mancha de café e o espirro do autor disparado sobre a folha de papel reciclado. O cronista lia, transcrevia, colava e calava. Decerto que os outros iriam comentar a invulgaridade do texto e a surpresa que constituia o novo estilo literário do cronista, que passou despercebido anos a fio. Era esta a lufada de ar que desejava, mas nunca imaginava que a entrega ao domicílio fosse possível, a solução directa e imediata, aterragem sem aviso no terraço. O autor não era religioso e a intromissão divina era algo em que não acreditava. A mensagem contida na folha não lembrava o estilo literário de ninguém. O cronista havia lido todas as obras de referência e a personalidade daquele texto era única, incomparável e instransmissível. Ninguém deveria saber da proveniência da carta entregue pelo anticiclone com vento moderado de sul. A prática do roubo não era inaudita no mundo da meteorologia. Não seria a primeira vez que um vento demove alguém dos seus intentos. E não seria o único elemento natural a oferecer dilemas à humanidade. A arca de Noé já havia demonstrado como dilúvios podem alterar a ordem e o sentido de pertença. O crime... pensava o cronista – não será meu, mas sim de quem abandona os seus. A folha desgarrada quis seguir o seu destino e quem escreve deve ter mais cuidado para não perder os seus filhos. O escrito na folha não era intelectual ou centrado sobre dilemas pessoais. O texto roubado era muito maior do que a sua imaginação. Estavam em causa questões verdadeiramente filosóficas e assolavam o seu espírito de qualquer pessoa perto ou distante. O estampado na folha aproximava-se mais da forma de um manual de instruções, do cálculo geométrico traçado ou de uma experimentação de física. A linguagem eleita era universal, facilmente entendida nos confins do mundo. O crime dava esta dimensão higiénica às ideias. A infecção corroía a sua alma, mas não o suficiente para impedí-lo de assinar um texto criado por alguém desconhecido. Esta confissão no silêncio não era dele. Provavelmente seria o vento a sussurar. O cronista era agora um novo género de escritor. Um leitor amordaçado, perseguindo rotas e compassos de espera, planando pelos ares em puro deleite, mas que nada lembra. Quem cala é porque não sente o que criou ou porque não sabe tudo. O vento daquele Domingo não tinha vindo em vão e desacompanhado. O relâmpago empoado bateu com suavidade na testa do homem. A memória desvaneceu-se por alguns instantes, mas tinha conseguido chegar a casa, despir o sobretudo angustiado, respirar e enfrentar o manifesto da improbabilidade. Vinha mais leve. Afinal a folha voara com a derradeira mensagem. Sofisticada e livre. Agora lembrava-se. Tinha sido ele naquela esplanada ventosa de Domingo e agora entendia o que havia escrito.
 
 Escreve para o mundo. Faz um avião de papel.
 
 John Wolf
pintura de Francisco Gomes de Amorim

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